Silésia: um reencontro com a minha infância

 Silésia: um reencontro com a minha infância

Wrocław, o complexo urbano de Ostrów Tumski e as ilhas de Piaskowa, Bielarska e Słodowa. (Créditos fotográficos: Dawid Galus – pt.wikipedia.org)

Eu era ainda uma criança, lembro-me que, num dia de aniversário, ganhei uma lata de biscoitos que tinha o esboço de uma cidade perfeita para o imaginário infantil: um rio, um amplo jardim, ao fundo, uma catedral, um casario de contos de fadas… Tudo a incitar um “passeio” fantasioso, tão real quanto seriam os biscoitos amanteigados que a lata continha. Na parte de baixo, lia-se “Breslau”; seria esse, então, o nome do lugar. E eu julgava que tal lugar seria na Alemanha. Como os Alemães, na Segunda Guerra Mundial, julgaram: ela havia de ser alemã. Para isso, arrasaram os seus jardins, as suas casas encantatórias, as suas igrejas, ao infringirem aos Polacos uma ocupação com uma impiedosa destruição.1

Casas coloridas em Wroclaw, na Polónia. (Créditos fotográficos: Reiseuhu – Unsplash)

Eu vinha de Dresden, da Alemanha. Encontrara por lá uma cidade que, também, fora vítima na guerra, um deslumbrante sítio de uma intrincada e extrema vocação cultural, que fora bombardeado, arrasado, posto que os Aliados achavam que, em meio aos quadros nos seus museus, havia munições.2 Encontrei uma cidade em pleno afã de recuperação, em ritmo de reconstrução.

Eram gruas e andaimes por todo o lado. Já Breslau estava a soltar-se das amarras do comunismo soviético e estava decidida a, novamente, ser uma cidade livre e feliz. Entretanto, a sua reconstrução fora imediata – os Polacos, finda a Grande Guerra, recuperaram-na. Todavia, a Polónia foi eclipsada, jogada para dentro da Cortina de Ferro. Wrocław existia, assim sendo, uma beleza oculta por uma cortina, e eu conheci-a no período exato da sua revelação ao Mundo, quando a sua beleza estava a ser descortinada, escancarada.

Wroclaw, na Polónia. (Créditos fotográficos: Anastasiia Chepinska – Unsplash)

Entrei na cidade a pensar: vejamos se este lugar é e vai fazer-me feliz! Para a minha felicidade, reconheci-a prontamente. Wrocław era aquela, a Breslau da lata de biscoitos da minha infância. Ainda não tinha dado conta de que se chamava Breslau, Breslávia em Português. Aquela visão do rio Oder, de um jardim a ter ao fundo uma catedral, casas de contos de fadas com fachadas e telhados bordados, de súbito, materializou-se na minha imaginação de outrora com uma súbita e surpreendente precisão. Eu estava feliz em encontrá-la. Estivesse Breslau feliz ao ver-me, isso seria uma deambulante interrogação.

Rynek, em Wrocław, na Polónia. (Créditos fotográficos: Bianca Fazacas – Unsplash)

Mostrava-me a cidade o guia Krzysztof, um tipo alto e franzino, delgado, com um vozeirão a deixar saltar umas tantas consoantes polacas que não há no Espanhol. Aprendera o idioma em Cuba e, no seu imaginário, o Brasil era uma Cuba gigantesca – pleno de frutas, de mar e de lascívia preguiçosa ou dançante, tropical. Não via diferença entre a garota de Ipanema e La Habanera, ambas lhe pareciam arrebatadoras. Assim como eu não via diferença entre os “pirogues” e os “capelettis”, aquelas trouxinhas de massa que tanto me traziam à Polónia quanto me remetiam à Itália.

Placa comemorativa dedicada aos criadores do Panorama de Racławice, Jan
Styka e Wojciech Kossak, no Museu do Panorama de Racławice em Wrocław,
na Polónia. (Créditos fotográficos: Mona – en.wikipedia.org)

Começámos o “tour” no Panorama de Racławice, uma espécie de arena circular que contém uma pintura de 360 graus, de 15 metros de altura e 114 metros de comprimento, a contar uma batalha.3 O jogo de luzes e de sombras e o som fazem com que o observador se sinta inserido no cenário. Um bom começo para eu confirmar, sentir-me na Polónia. Em seguida, fomos para um outro sítio estonteante: a Praça do Mercado (Rynek), um espaço enorme cercado de casas renascentistas, góticas, barrocas, um amplo desvario para o olhar. Mais à frente, a antiga Prefeitura gótica, a ter no seu subsolo a Piwnica Świdnicka, uma cervejaria com uns 800 anos de existência.4

Panorama de Racławice (em 2005). (en.wikipedia.org)

Por trás do prédio, encontra-se a nova Prefeitura, nem tão nova assim, porque data do século XIX e ostenta um neogótico vaidoso. Ambas têm um relógio frontal a contar o tempo, mostram o tempo. Hábil em devolver-nos a ludicidade, a cidade é um manancial fabuloso e é, também, didática, pedagógica. Não sei o que foi feito daquela minha lata, só sei que o que eu via ali trazia para o real a minha imaginação infantil. Há gnomos de bronze por todo o lado, a fazer companhia ao passante.

A Ponte das Penitentes (conhecida localmente, em Polaco, como Mostek Pokutnic ou Mostek Czarownic – Ponte das Bruxas) é uma das atrações históricas e miradouros mais famosos de Wrocław, na Polónia. (sc.wikipedia.org)

As casas de João e Maria são ligadas por um arco, o Palácio Real é um tesouro de artefactos inexoráveis, a Ponte das Penitentes, desde a Idade Média, conecta as duas torres da Igreja de Santa Maria Madalena e, por lá, passariam eternamente as bruxas, ou melhor: as mulheres ávidas de vaidades, futilidade existencial5; ou seja, é um elemento visual moral. Para completar o encantamento, no cair da tarde, vê-se o acendedor de lampiões nas cercanias da Catedral de São João Batista. Breslávia é uma viagem no tempo com uma “perna” de volta. Uma fábula com alto teor de verdade.

Fronteiras modernas (século XXI) e limites históricos da Silésia: Silésia
austríaca até a anexação da região pela Prússia em 1740; Silésia prussiana
em 1871. (pt.wikipedia.org)

Não por acaso fica na Silésia, que não se sabe onde termina, estica-se pelo Norte alemão, pela Chéquia e, historicamente, por pequenas áreas hoje associadas a outros espaços; e a sua língua, o Silesiano, é um Polaco dentro do idioma polaco, com “nuances” distintas. Wrocław orgulha-se do seu distrito, onde uma igreja católica tem como vizinhas uma igreja ortodoxa, uma luterana e uma sinagoga; também da sua universidade, que apresenta, na Aula Leopoldina6, um salão magnífico, a mais perfeita via do conhecimento, o óptico…

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Notas da Redacção:

1 – Destruição de Wrocław: a cidade foi devastada sobretudo durante o cerco de Festung Breslau, em 1945, e não apenas por uma destruição alemã anterior. A reconstrução foi um processo prolongado, pelo que “reconstrução imediata” era factualmente problemático.

Artilharia soviética nos arredores de Breslau. Ao fundo, obuses soviéticos ML-20 de 152 mm. Em primeiro plano, a placa de sinalização alemã marcando as fronteiras de Breslau, com a inscrição manuscrita em russo “Даёшь”, transformando a marcação em “Dê Breslau”. (en.wikipedia.org)

2 – A afirmação de que os Aliados bombardearam a cidade por julgarem que, entre os quadros dos museus, havia munições não encontra suporte nas fontes históricas consultadas. Dresden era, entre outras coisas, um importante nó ferroviário e tinha actividade industrial ligada ao armamento; os bombardeamentos ocorreram de 13 a 15 de Fevereiro de 1945. A comissão histórica de Dresden estimou cerca de 25 mil mortos.

3 – A obra foi criada por Jan Styka, Wojciech Kossak e colaboradores e representa a Batalha de Racławice, de 1794.

Pintura de Wojciech Kossak (1856–1942). (en.wikipedia.org)

4 – Piwnica Świdnicka fica nas caves góticas da antiga Prefeitura e as suas origens remontam ao século XIII, pelo que “uns 800 anos” funciona bem no registo literário.

5 – A Ponte das Penitentes liga as duas torres da Igreja de Santa Maria Madalena e é também conhecida como Ponte das Bruxas. A associação lendária às mulheres consideradas vaidosas ou pouco inclinadas à vida doméstica é efectivamente parte da tradição do lugar.

6 – A Aula Leopoldina é um espaço barroco tardio, construído entre 1728 e 1732.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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31/08/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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