Eclipses
(tempo.pt)

O eclipse do dia 12 de agosto transformou-se num fenómeno planetário, ao menos no hemisfério Norte. Foi total em Espanha e quase total em Portugal (a totalidade ocorreu apenas na zona do Parque Natural de Montesinho). Difícil resistir ao mediático momento, pois o próximo será visível no próximo ano, 2027, mas os próximos podem demorar alguns anos. O dia converter-se-á em noite novamente, em alguns pontos de Portugal, apenas em ocasiões futuras.
O de 2027 também será um eclipse solar total, visível na Andaluzia, com uma duração máxima de cerca de seis minutos e vinte e dois segundos em alguns pontos.
Com tanta informação cósmica, ficamos a saber que a distância da Lua à Terra é cerca de 400 vezes menor do que a distância da Terra ao Sol. O Sol está, aproximadamente, 400 vezes mais longe da Terra do que a Lua, o que significa que, apesar de a Lua ser 400 vezes menor, consegue escurecer o astro-rei totalmente. Esta proporção é uma coincidência cósmica que permite que eclipses solares totais sejam observados. Esta proporção cósmica, perfeita, é quase divina.

É muito provável que eu e os meus irmãos, quando pequenos, fôssemos testemunhas de um eclipse solar total que aconteceu, consultando a Internet, no dia 12 de Outubro de 1958, no Chile. Não havia óculos especiais, apenas vidrinhos fumados com velas ou pequenos fragmentos de radiografias que serviram de “observatórios astronómicos”. Eclipses da Lua, já vi vários!
É comovente a contemplação do desaparecimento dos astros, total ou parcialmente. Esses fenómenos, que geralmente se caracterizam pelo (i)material longínquo, completam-se com o silêncio, seja curto, breve ou mais prolongado… Aí, nesse momento, apesar de estarmos colectivamente juntos, estamos sozinhos perante a Natureza, quase num acto confessional.


Das muitas expressões dos eclipses e das suas histórias, os meios de comunicação lembraram-nos quando Cristóvão Colombo, o navegante, se aproveitou de uma informação para convencer os nativos da ilha da Jamaica a fornecerem alimentos aos seus marinheiros.1 Os Aztecas e os Egípcios, que eram dominadores da observação astronómica, também fizeram uso dela.
Lembro um belo filme polaco, “Faraó” (“Faraon”)2, no qual os sacerdotes utilizaram o fenómeno para apaziguar uma revolta popular, aproveitando o eclipse para amedrontar a multidão. A falta de alimentos e os cereais acumulados sob o poder das autoridades fazem parte do contexto da luta pelo poder entre o faraó e os sacerdotes egípcios2.
O filme começa com uma bela imagem no deserto, na qual vemos escaravelhos do deserto que empurram uma esfera perfeita de excremento animal3. Eles trepam entre as dunas, arrastando aquele peso; não é fácil. Com habilidade, os insectos lutam, como o mítico Sísifo, contra a gravidade. Terão os escaravelhos do deserto lido Albert Camus? É provável que não, mas a imagem levou-me, quando a vi pela primeira vez, a pensar nessa personagem da mitologia, resgatada pelo filósofo francês.

No filme “Barrabás” (de 1961), com Anthony Quinn, o realizador Richard Fleischer destacou-se, na época, pelos efeitos interessantes que aconteceram durante as filmagens da cena da crucificação de Cristo, que ocorreu num momento real de eclipse total4, considerado um evento sobrenatural na Antiguidade. O evangelista Mateus (Mateus 27:51-52), entre os detalhes seguintes à morte de Cristo, menciona um terramoto: “E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; tremeu a terra, e fenderam-se as rochas.”
O cinema já retratou, em muitas ocasiões, imagens relacionadas com a Lua, quando ensombrecida ou em Lua Cheia; é o momento ideal para a transformação do homem em lobo, ou para a aparição de seres góticos como o conde Drácula.
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Nas minhas leituras diárias do Diário de Notícias, de Lisboa, é difícil evitar as crónicas de cinema de João Lopes, singulares e muito bem documentadas. Cito para os curiosos: “Pensei, confesso, no filme O Eclipse, obra-prima de 1962 com que o italiano Michelangelo Antonioni encerrou a sua ‘trilogia a preto e branco’, depois de A Aventura (1960) e A Noite (1961). Arrisquei entrar no jogo perverso do virtual e decidi colocar esta pergunta ao Google: ‘Que espécie de eclipse acontece em O Eclipse, de Michelangelo Antonioni?’ Obtive como resposta (com a indicação ‘vista geral de IA’), um curioso esclarecimento. Assim, no filme de Antonioni ‘não acontece nenhum eclipse astronómico visível no enredo’.”
E a explicação continua: “O título da obra é uma metáfora poética e existencial. O realizador italiano usou a palavra ‘eclipse’ para representar o apagamento progressivo dos sentimentos, da capacidade de amar e da comunicação genuína entre as pessoas na sociedade moderna.’5”

De facto, podemos compreender o eclipse como metáfora daquilo que se apaga, se ensombrece, parcial e temporariamente, num breve momento…, mas também daquilo no qual a desaparição permanece duradoura e por completo… Vemos hoje como se eclipsam as democracias europeias – para já não falar dos Estados Unidos da América –, como se eclipsam e desaparecem as florestas e os rios – já não é possível ouvir a valsa “Danúbio Azul” com o mesmo olhar do compositor Strauss6. O leito lamacento traz recordações de guerras passadas… Até o meu deserto de Atacama – o mais árido e seco do Mundo – se vê coberto de flores e de neve num inverno completamente atípico… E, claro, afortunadamente, o deserto não perde o seu encanto; continua, agora, florido, guardando o melhor da sua natureza: o silêncio que o caracteriza.

Notas:
1 – Cristóvão Colombo usou um eclipse solar para surpreender os nativos de uma ilha caribenha – a História refere-se, mais precisamente, ao eclipse lunar total de 1 de Março de 1504, que Colombo utilizou para intimidar os habitantes da Jamaica e obter provisões para os seus homens.
2 – Como refere a Wikipédia, o filme “Faraon” é de 1966, foi realizado por Jerzy Kawalerowicz e é adaptado do romance homónimo do escritor polaco Bolesław Prus. Em 1967, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
3 – A abertura do filme mostra, efectivamente, escaravelhos a empurrar uma bola de excremento pelo deserto, antes de a narrativa acompanhar a marcha do exército.
4 – O eclipse que aparece durante a crucificação em “Barrabás” foi, de facto, filmado durante um eclipse solar total real, em 15 de Fevereiro de 1961.
5 – “Aventura, noite e eclipse” – artigo de João Lopes publicado no Diário de Notícias em 13 de Agosto de 2026.
6 – A valsa “Danúbio Azul”, cujo título original é mais poético em Alemão: “An der schönen blauen Donau” (Op. 314), “Junto ao Belo Danúbio Azul”, valsa composta por Johann Strauss (filho). A obra foi composta entre finais de 1866 e o Inverno de 1866-67 e estreada em Viena em 15 de Fevereiro de 1867.
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10/09/2026