Diz-me que democracia queres, dir-te-ei que algoritmo terás

 Diz-me que democracia queres, dir-te-ei que algoritmo terás

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Num coro fenomenal, a generalidade das teorias da democracia reserva à informação um lugar central no seu funcionamento. As divergências começam noutro ponto – e é aí que se abre um terreno particularmente fértil para discussões vivas e duradouras: quanto podemos exigir do cidadão e, por consequência, quanto devemos exigir dos media?

Natali Helberger, professora de Direito da Informação e
Tecnologia Digital na Universidade de Amesterdão. (ivir.nl)

Não nos cabendo tornar simples aquilo que simples não é, sobretudo quando dessa simplificação pode resultar o próprio desvirtuamento do problema, avancemos por caminhos mais exigentes. A este propósito, recomenda-se a leitura de um dos mais felizes artigos científicos no esforço de pensar, em conjunto e sem sacrificar a complexidade de qualquer dos termos, a relação entre media, democracia e algoritmos: “On the Democratic Role of News Recommenders”, de Natali Helberger, professora de Direito da Informação e Tecnologia Digital na Universidade de Amesterdão.

Interpela-nos a autora, logo a abrir, com uma questão da maior importância: constituem a inteligência artificial e os algoritmos um problema, ou uma oportunidade, para o papel que os media desempenham na democracia?

Um vasto conjunto de autores tem-se encarregado de sustentar a primeira hipótese, mobilizando para tal razões inteiramente válidas e preocupações cuja pertinência dificilmente se poderá contestar. Helberger não pretende juntar a sua voz a este tão povoado grupo. O interesse do seu gesto reside precisamente no contrário: tomar os perigos já amplamente identificados como ponto de partida e perguntar o que poderá ser feito a partir deles.

O maior mérito da proposta de Natali Helberger: obrigar-nos a
abandonar a simples pergunta sobre se os algoritmos são bons
ou maus para a democracia. (ascor.uva.nl)

Sem prejuízo de uma leitura mais demorada – e, diga-se, nunca árida nem enfadonha – do artigo, avancemos para o seu segundo terço, quando Helberger coloca em perspetiva a teoria da democracia mais frequentemente mobilizada pela investigação na área dos media: a deliberativa. A democracia deliberativa não concebe as preferências dos cidadãos como algo simplesmente dado, pronto a ser contabilizado e consumido. Importa-se, isso sim e acima de tudo o mais, com o processo que desemboca nas preferências dos cidadãos e que dele constitui uma consequência natural: o confronto, mediante um conjunto de regras de civilidade e de tolerância, entre contributos e pontos de vista diferentes. É esta, entre as várias teorias que animam o debate sobre a democracia, aquela que mantém a relação mais paradoxal com a personalização algorítmica: se o recomendador apenas aprende aquilo de que gostamos para depois nos oferecer indefinidamente mais do mesmo, dificilmente poderia conceber-se mecanismo mais contrário ao ideal deliberativo. Um sistema que exclua as perspetivas desagradáveis, confirme preferências anteriores e transforme cada indivíduo numa ilha informativa compromete precisamente aquilo que a deliberação exige.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Aqui chegados, quando tudo parece recomendar que abandonemos qualquer esperança de reconciliação entre o ideal deliberativo e a nova realidade algorítmica, Helberger ensaia o movimento mais interessante do artigo: a mesma personalização que ergue a bolha pode ser mobilizada para a perfurar. Se um algoritmo é capaz de conhecer suficientemente bem os interesses e as predisposições de um indivíduo para antecipar aquilo que este provavelmente deseja encontrar, poderá servir-se desse mesmo conhecimento para descobrir aquilo que ainda lhe falta encontrar. A um cidadão poderão ser apresentadas perspetivas que nunca considerou; a outro, argumentos capazes de desafiar convicções que julgava assentes; a um terceiro, o contexto necessário para compreender como alguém razoável, dispondo de outras experiências ou razões, pode chegar a uma conclusão diferente da sua.

Algoritmos e democracia. (naarea.com)

A “On the Democratic Role of News Recommenders” devemos as inúmeras pistas de aprofundamento empírico que daqui emergem – algumas particularmente promissoras. Eis, contudo, o maior mérito da proposta de Helberger: obrigar-nos a abandonar a simples pergunta sobre se os algoritmos são bons ou maus para a democracia. Na medida em que nada existe na tecnologia que permita inscrever antecipadamente uma destas respostas no seu funcionamento, devemos responder a uma outra questão: que democracia queremos? É da resposta que emerge o cidadão que imaginamos; deste cidadão, a informação de que julgamos que necessita; desta necessidade informativa, a função que confiamos aos media; e, apenas no fim deste percurso, o algoritmo que fará sentido conceber.

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10/09/2026

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Lourenço Ferreira

https://linktr.ee/glourencosferreira

Lourenço Ferreira é mestre em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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