De São Paulo à Patagónia: memórias integradas
Vista da costa da cidade de San Martín de los Andes de frente para o Lago Lácar, na Argentina. (en.wikipedia.org)
Tenho vinte e cinco anos / de sonho, e de sangue, e de América do Sul / Por força deste destino / Um tango argentino me vai bem melhor que um blues (Belchior)
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Quem viaja sabe que, por vezes, vai encontrar-se no dia, na hora e no lugar errado, dantes previsto vindo a ser certo. Encontrava-me, num mês de julho, num hotel na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Uma avenida que foi planeada para integrar o Jardim Europa, o Jardim América e o Jardim Paulista. E mais ainda: ganhou o seu nome para recordar um levante fracassado. Experimentei uma outra falha em termos de levante: o elevador parou, estagnou entre dois andares.

O que permitia que só visse o piso em que estaria através de uma fresta ínfima. Era mais de meia-noite e, àquela altura, havia somente a minha pessoa. Confiante na sua eficácia, disparei o botão de alarme, por prever haver uma comunicação da receção para comigo – pois que tomassem providências. Nada sucedia. A sensação era de que o ar iria faltar, uma penúria de abandono.

Mendes Stafusa – Unsplash)
De súbito, ouvi a passagem de uns jovens ao chegarem àquele andar. Clamei por socorro; deram-me atenção. Eram argentinos. Desolado, fui assistido por eles: puseram-se a conversar comigo e até enfiaram um sapato na fresta para mantê-la entreaberta, à guisa de assegurarem alguma entrada de ar até que alguém viesse tirar-me daquela situação.
Os dois rapazinhos desceram até à receção; as duas jovens mantiveram-se por ali, a conversar comigo. Perguntei os seus nomes. Soledad e Esperanza. Tal e qual vinha sendo a minha condição.
Que gratidão tenho ainda para com aqueles amigos inesperados. São, sem dúvida alguma, o único lado bom da recordação. O resgate sucedeu-se umas duas horas depois do facto – quando alguém me fisgou. Fui até à receção e eles alegaram que a demora se teria devido ao facto de não haver nenhum encarregado de elevadores durante a noite a postos e de, por isso, terem tido de acordar um deles que, por sua vez, morava no outro lado da cidade. “Sabes como São Paulo é grande!”, argumentou.
Enfim… Ao que eu disse: “Sim, é tão grande que foi preciso virem argentinos, em passos largos e precisos, para demonstrarem, pelo menos para mim, o que é “respeto y amistad”.
Foi-se o tempo em que Brasil e Argentina se estranhavam. Quero dizer: as pessoas; não me refiro aqui aos sismos e cismas nos terrenos diplomáticos. A origem da rivalidade vem desde a herança das disputas territoriais entre Portugal e Espanha e, com a independência dos dois países, adveio uma desconfiança mútua, não exatamente uma hostilidade aberta, um tanto assimilada pelas sociedades de ambos.

Os anos 70 do século XX enfrentaram a questão das ditaduras que, por sua vez, enfrentavam uma suposta incompatibilidade do aproveitamento hidroelétrico e rumores de projetos nucleares. Inventou-se uma inimizade perigosa. Naqueles anos, o habitual era o estranhamento mútuo, o que foi evidenciado pelas claques no campo do futebol.

Conheci uns brasileiros que viajavam para a Argentina com receio de tornarem pública a viagem, mas voltavam felizes por trazerem na mala um perfume Lancaster, um bronzeador Rayito de Sol, alfajores e vinhos; e argentinos que também viajavam na surdina para o Brasil e voltavam contentes com uma provisão de chinelos Havaianas, bombons Garoto, paçocas e cachaças na mala. As alfândegas deixavam tudo passar. Curiosamente, esses produtos existem até hoje nos respetivos países; sobreviveram, distintos, imunes aos estranhamentos.
Por outro lado, aquele ambiente de insatisfações para com o domínio ideológico militar, tão pródigo em censuras, de excessos, fosse na perseguição ou pelas torturas, fez com que as juventudes de ambos se aproximassem através da música. O Brasil levava o Tropicalismo e as letras cifradas da MPB (Música Popular Brasileira) a uma nova interpretação de si mesmo, e isso, naturalmente, ultrapassou as fronteiras.


E os países latinos vizinhos também buscaram reinterpretar-se através de um fenómeno chamado Nueva Canción. Um aríete contra as desigualdades, a repressão, com um reforço da memória, da identidade, da pertença, um pan-americanismo integrado, uma aglutinação incontrolável, posto que não se cantava para o povo, cantava-se com o povo. Era a voz dos sem voz.
Os instrumentos: o charango, a quena, o cajón – enquanto afirmação simbólica; a doce voz de Mercedes Sosa, que foi obrigada a exilar-se depois de ter sido presa com todo o público em La Plata, em 1978; o ritmo catalisador dos Andes.

Foi a partir de um encontro musical que conheci San Martín de los Andes, na Patagónia, e passei a amar incondicionalmente a Argentina. Aquele sítio magnífico exploraremos na próxima crónica. Voltamos já!
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21/09/2026