Lorca (2)

 Lorca (2)

Federico García Lorca e Pablo Neruda: uma grande amizade destruída pela Guerra Civil Espanhola. (latercera.com)

Gabriel García Lorca (brasil.elpais.com)

Todos los días se matan en New York/ cuatro millones de patos, / cinco millones de cerdos, / dos mil palomas para el gusto de los agonizantes, / un millón de vacas, / un millón de corderos / y dos millones de gallos, / que dejan los cielos hechos añicos… (Federico García Lorca – “NEW YORK. OFICINA Y DENUNCIA”)

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Os versos iniciais encontram-se no livro de Federico García Lorca, “Poeta en Nueva York”, título de uma coletânea de poemas escritos pelo autor entre 1929 e 1930, durante a sua estadia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e na sua posterior viagem a Cuba. A obra foi publicada pela primeira vez em 1940, quatro anos após o seu assassinato.

“A obra foi considerada pelo próprio autor como uma [das] suas maiores realizações no campo da poesia, fa[c]to demonstrado pela atenção especial que deu à sua elaboração e estruturação, cuidando do menor detalhe, desde a estrutura interna do livro de poesia até [às] ilustrações que deveriam acompanhá-lo. Entre 1930 e 1936, ele considerou várias possibilidades de publicação, circunstância que foi interrompida [pela] sua morte prematura.”1

(brasil.elpais.com)

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Os dois diplomatas chilenos que não puderam salvar Federico

Pablo Neruda conheceu Federico García Lorca em Buenos Aires, na Argentina, em Outubro de 1933, na casa de Pablo Rojas Paz, escritor argentino (1896-1956). A amizade entre ambos consolidar-se-ia posteriormente em Madrid. E naquele lendário desafio poético em que ambos os poetas homenagearam uma das maiores figuras literárias de América Latina, o também poeta nicaraguense Rubén Darío, tornou-se célebre o “Discurso al Alimón”2– que Lorca, logo no início, definiu assim, explicando o significado da expressão “toreo al alimón”: “Señoras y señores: Existe en la fiesta de los toros una suerte llamada ‘toreo al alimón’, en que dos toreros hurtan su cuerpo al toro cogidos de la misma capa.” O que traduzido, equivale a dizer, também segundo Pablo Neruda: “Senhoras e senhores: existe na festa dos touros uma espécie chamada ‘toureio a dois, em que dois toureiros esquivam o corpo ao touro segurando uma  mesma capa.”

Última fotografia conhecida de Federico García Lorca, com
Manuela Arniches na esplanada do Café Chiki-Kutz Paseo
de Recoletos 29, Madrid, em Julho de 1936. (latercera.com)

Anos mais tarde, na sua obra poética, Neruda evoca Federico no poema “Explico algunas cosas”, incluído em “Tercera residencia”, de 1947: “…Mi casa era llamada / la casa de las flores, porque por todas partes /  estallaban geranios: era / una bella casa / con perros y chiquillos. / Raúl, ¿te acuerdas? / ¿Te acuerdas, Rafael? / ¿Federico, te acuerdas / debajo de la tierra, / te acuerdas de mi casa con balcones en donde / la luz de junio ahogaba flores en tu boca?…”

Neruda foi nomeado cônsul em Madrid, no ano de 1935. É, porém, necessário precisar que não substituiu diretamente Gabriela Mistral (poeta e Prémio Nobel da Literatura, em 1945). Mistral tinha sido nomeada cônsul em Madrid no ano de 1933 e foi, posteriormente, transferida para Lisboa, em 1935.

Em Madrid, Neruda encontraria uma das figuras mais singulares da diplomacia chilena, Carlos Morla Lynch, cuja actuação durante a Guerra Civil Espanhola é retratada nos seus diários e relatórios diplomáticos3. Refira-se que Carlos Morla Lynch (Paris, 1885 – Madrid, 1969) foi um diplomata e escritor chileno. A sua carreira diplomática começou em Paris, onde trabalhou na representação diplomática do Chile durante os anos de 1920 a 1928. Posteriormente, foi transferido para Madrid como encarregado de negócios da representação chilena, então dirigida pelo embaixador Aurelio Núñez Morgado, embora o seu papel tenha sido muito mais importante e decisivo do que o dele.

À direita, Federico García Lorca e à sua esquerda, Pablo
Neruda. (latercera.com)

Durante os anos da Guerra Civil, centenas de pessoas procuraram refúgio na representação diplomática chilena e puderam salvar-se graças, em grande medida, à actuação diplomática de Morla Lynch.

Desde muito jovem, começou a escrever os seus diários, considerados documentos importantes para o conhecimento da vida espanhola daqueles anos. Nas suas páginas, vemos passar, sem distinção de classe ou profissão, algumas das principais figuras da cultura espanhola da época, incluindo muitos dos membros da “Geração de 27”: Lorca, Cernuda, Aleixandre, Alberti, Altolaguirre, Gerardo Diego, Salinas e Jorge Guillén.

Encontramos também políticos, actores, escritores, aristocratas, pintores e outras personalidades, entre os quais Manuel Azaña, Pablo Neruda, Julián Besteiro, Vicente Huidobro, Alejandro Lerroux, Eugenio d’Ors, La Argentinita, Ignacio Sánchez Mejías, Gabriela Mistral, Fernando de los Ríos, Gitanillo de Triana, Manuel Ángeles Ortiz, o Conde de Romanones, Pastora Imperio e La Niña de los Peines, entre muitos outros4.

Livros de Carlos Morla Lynch, pela Casa del Libro. (Direitos reservados)

Morla Lynch publicou, entre outras obras, “Escenas”, “El príncipe de las perlas azules” e “La senda”, demonstrando também uma importante actividade literária.

Alguns biógrafos do poeta Miguel Hernández levantaram dúvidas sobre a actuação de Morla Lynch relativamente ao pedido de asilo do poeta nos últimos meses da Guerra Civil, sobretudo quando Carlos (Morla) era encarregado de negócios do Chile em Madrid. Essa interpretação está principalmente associada a Pablo Neruda, no seu artigo “Cómo murió Miguel Hernández”, publicado em Março de 1953 na revista Ercilla, de Santiago do Chile, e posteriormente nas suas memórias “Confieso que he vivido” (“Confesso que Vivi”).

Pablo Neruda, em 1968. (Créditos fotográficos: Evandro
Teixeira – latercera.com)

Note-se que Neruda se encontrava em França no mês de Março de 1939 e, portanto, não presenciou directamente os acontecimentos em Madrid.

A questão permanece controversa. Os próprios diários de Morla Lynch oferecem uma perspectiva diferente da apresentada posteriormente por Neruda. Segundo o diário de Morla Lynch, em 28 de Fevereiro de 1939, Miguel Hernández deslocou-se à representação chilena acompanhado pelo poeta chileno Juvencio Valle. Morla registou a preocupação com a situação de Hernández e indicou-lhe que poderia recorrer ao asilo da representação quando a situação se tornasse insustentável.

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“Winnipeg, el barco de la Esperanza”

Winnipeg, el barco de la Esperanza” foi levado ao cinema. Conta a história do navio fretado com a ajuda de Pablo Neruda e que partiu do porto de Pauillac, em França,no dia 4 de Agosto de 1939, chegando a Valparaíso em 2 de Setembro de 1939.

Um grupo de crianças na coberta do Winnipeg. A travessia desde o porto de Trompeloup, cerca de Bordeaux (França) até Valparaíso durou um mês. Durante esse tempo foram organizadas aulas para as crianças que viajavam no barco. (Créditos fotográficos: Biblioteca Nacional do Chile – cdeassis.wordpress.com).

O Chile era então governado pelo presidente Pedro Aguirre Cerda. Não foi o único país da América a receber refugiados republicanos espanhóis, mas teve um papel particularmente importante no acolhimento daqueles que procuravam escapar às consequências da guerra iniciada em Julho de 1936.

Imagem do presidente do Chile naquele momento, Pedro Aguirre Cerda, na coberta do Winnipeg. O velho cargueiro francês foi o barco contratado por Pablo Neruda para transportar os exilados espanhóis ao Chile. O barco foi adaptado para abrigá-los. (Créditos fotográficos: Biblioteca Nacional do Chile – cdeassis.wordpress.com).

Foram mais de dois mil os refugiados espanhóis transportados pelo Winnipeg5, entre os quais mulheres e crianças, que procuravam uma nova vida depois dos horrores da Guerra Civil. Imagino, apenas imagino, quão belo teria sido se Federico tivesse partido nesse barco…

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Notas:

1 Wikipédia: García Lorca, Federico (1994). Millán, María Clementa, ed. Poeta en Nueva York. Madrid: Cátedra.

2 O “Discurso al alimón” foi um famoso discurso conjunto proferido por Pablo Neruda e Federico García Lorca no dia 10 de Novembro de 1933, em Buenos Aires, dedicado ao poeta nicaraguense Rubén Darío.

3 – Memória apresentada ao governo do Chile correspondente ao trabalho realizado à frente da embaixada em Madrid durante a Guerra Civil (1937-1939); a que se seguiram “Diario 30 de Março a 5 de Mayo de 1939” e o “Diario de Carlos Morla Vicuña 1937-1939”.

4 – Andrés Trapiello, “Pasos de baile”, El País, suplemento cultural Babelia, 5 de Abril de 2008.

5 El Winnipeg | La travesía con la que Pablo Neruda ayudó a salvar a más de 2.000 refugiados españoles | Nuevo Diario Web

Nota final:

Mais sobre Morla Lynch e Miguel Hernández em: cartas-de-miguel-hernandez-en-el-archivo-german-vergara-donoso-de-chile-1214064.pdf

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21/09/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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