Escola Superior da Corrupção, do Ódio e da Violência
(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)
Há escolas que não constam em nenhum mapa, não têm estatutos publicados, não exibem diplomas nas paredes. São escolas antigas, fundadas nos finais do século XIX, e que, como ervas daninhas, se foram espalhando pelo território ao longo de mais de um século. Cresceram à sombra de fortunas súbitas, de magnatas que brotam dos movimentos populares como frutos demasiado maduros, ricos de nascença ou enriquecidos por artes que a luz não alcança. Com o tempo, os seus dirigentes engordam – não apenas no corpo, mas sobretudo na alma, que se vai tornando pesada, opaca, impermeável ao escrutínio.

Todavia, não é apenas de dinheiro que estas escolas vivem. O que nelas se ensina é mais profundo e mais perigoso: uma pedagogia subterrânea, feita de gestos, de silêncios, de cumplicidades. Hoje, todos conhecemos dirigentes que são exemplos de honestidade, mas também sabemos que, neste vasto mundo da bola, há corredores onde o ar é denso e as portas nunca se abrem totalmente. E é aí que os sintomas se agravam: nos comportamentos, nas atitudes, na forma como clubes, claques e jogadores se relacionam. Há clubes que parecem ter criado verdadeiras academias do ódio, onde a violência é estudada como uma ciência exata.
Nos relvados, vemos especialistas em esmagar rótulas como quem resolve equações, em partir tornozelos com a precisão de um cirurgião ao contrário, em empurrar adversários para quedas que não são acidentes, mas exercícios práticos. Tudo isto parece treinado até à exaustão. Há jogadores que agridem e, logo depois, se atiram ao chão a apertar a barriga, como se fossem eles os mártires da história. Os árbitros veem – porque veem – mas reagem conforme as cores da escola onde se formaram ou conforme o peso do cacau que circula nos bastidores.

Assistir a um jogo em Inglaterra e a um jogo em Portugal é observar dois mundos que só têm em comum a geometria da bola e o verde do relvado. Lá, os jogadores parecem inspirados por uma ética antiga, quase cavalheiresca; cá, muitos comportam-se como aprendizes de criminosos, empenhados em incapacitar o adversário como quem cumpre um ritual.
É neste cenário que se erguem, com toda a sua pompa clandestina, as Escolas Superiores da Corrupção, do Ódio e da Violência (ESCOV). Ao contrário das escolas públicas, estas são generosamente financiadas. Os treinadores ganham dez, vinte, cinquenta ou mil vezes mais do que os professores que ensinam crianças a ler. Os jogadores exibem estatuto e remuneração que fariam corar qualquer docente – e, quando agridem, nunca são julgados. Pelo contrário: recebem aplausos das claques que vivem da adrenalina do caos e a vista cega de árbitros bem pagos, em dinheiro ou em géneros, sobretudo de “fruta” madura, colhida nos pomares da impunidade.

As ESCOV são eficientes. Trabalham no recato dos homens e no segredo dos deuses. Têm bons alunos e excelentes mestres, num comércio escaldante em que não entram pessoas, mas objetos – ora preciosos, ora de refugo. Os seus atletas têm liberdade total: insultar, agredir, protestar, apontar o dedo ao árbitro. Nada lhes acontece quando jogam em casa ou sob proteção divina. Esta complacência transforma o futebol num desporto de bárbaros, em que a beleza do jogo é frequentemente sacrificada no altar da violência.
Onde não há educação tem de haver punição. Um jogador que aponta o dedo ao árbitro deve ser expulso. Um treinador que insulta deve sair imediatamente. Um árbitro que favorece deve ser suspenso; se reincidir, deve ser proibido de arbitrar. O VAR (video assistant referee) deve corrigir todos os erros evidentes. Os clubes devem ser responsabilizados por campos impróprios. As claques devem ser controladas com rigor absoluto. Os espectadores agressivos devem ser impedidos de entrar em recintos desportivos.
Um jogo de futebol deve ser um exercício de disciplina, de respeito e de fair-play. Quando isto é substituído pela agressividade, pela violência ou pelo ódio, as autoridades têm de agir. O campo de futebol deve ser um espaço de prazer e de educação – nunca um laboratório de barbárie.
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24/09/2026