A inteligência artificial não é o demónio

 A inteligência artificial não é o demónio

IA: maravilhas da engenhosidade humana que podem ser usadas para o bem e para o mal. (Imagem gerada por IA – ChatGPT – gazetadopovo.com.br)

O demónio somos nós

Há quem proclame, com dramatismo bíblico, que a inteligência artificial (IA) é o novo demónio, uma criatura com poderes para destruir o Mundo, incendiar florestas, inundar cidades, arrasar países inteiros. A IA, dizem, carrega em si o espírito da maldade universal. É o monstro tecnológico que nos vai devorar.

Mas basta olhar para o planeta para perceber o óbvio: a IA não precisa de destruir nada, os humanos encarregam‑se disso há séculos.

(Créditos de imagem:  Andres Siimon – Unsplash)

Donald Trump ameaça arrasar o Irão. Benjamin Netanyahu promete destruir o Líbano. Vladimir Putin continua a devastar a Ucrânia. Nenhum destes atos resulta de algoritmos malignos: resultam de decisões humanas, calculadas, conscientes, muitas vezes, orgulhosamente assumidas.

Milhares de criminosos incendeiam florestas. Milhares de assassinos matam mulheres, filhos, vizinhos, imigrantes. Milhares de inconscientes intoxicam as cidades. Milhares de políticos gananciosos eliminam adversários, manipulam sistemas, destroem instituições. É preciso continuar?

(Créditos de imagem: Franck V. – Unsplash)

Pergunto: “É a inteligência artificial que alimenta esta maldade universal? Ou será simplesmente a maldade humana?”

A IA não odeia. A IA não inveja. A IA não decide destruir. A IA não tem ambição, nem rancor, nem sede de poder.

A IA só matará se a falta de inteligência humana lhe der essa “honrosa” missão. Só destruirá se alguém lhe entregar as chaves da destruição. Só será perigosa se for usada como extensão da nossa própria violência.

E aqui está o paradoxo que muitos evitam enfrentar: se confiássemos à IA a tarefa de eliminar todos os criminosos da Terra, talvez os dramas acabassem, mas seria sempre uma decisão humana, não uma iniciativa da máquina.

(Créditos fotográficos:  Julien Tromeur – Unsplash)

Se o Mundo acabar brevemente – e o risco é real – não será pela maldade da IA, que não existe. Será pela maldade humana, que existe, que cresce, que se alimenta de ganância, de ódio, de ignorância e de poder.

A IA é apenas uma ferramenta. O demónio, quando aparece, nunca vem da máquina; vem sempre de quem a programa.

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28/09/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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