A inteligência artificial não é o demónio
IA: maravilhas da engenhosidade humana que podem ser usadas para o bem e para o mal. (Imagem gerada por IA – ChatGPT – gazetadopovo.com.br)
O demónio somos nós
Há quem proclame, com dramatismo bíblico, que a inteligência artificial (IA) é o novo demónio, uma criatura com poderes para destruir o Mundo, incendiar florestas, inundar cidades, arrasar países inteiros. A IA, dizem, carrega em si o espírito da maldade universal. É o monstro tecnológico que nos vai devorar.
Mas basta olhar para o planeta para perceber o óbvio: a IA não precisa de destruir nada, os humanos encarregam‑se disso há séculos.

Donald Trump ameaça arrasar o Irão. Benjamin Netanyahu promete destruir o Líbano. Vladimir Putin continua a devastar a Ucrânia. Nenhum destes atos resulta de algoritmos malignos: resultam de decisões humanas, calculadas, conscientes, muitas vezes, orgulhosamente assumidas.
Milhares de criminosos incendeiam florestas. Milhares de assassinos matam mulheres, filhos, vizinhos, imigrantes. Milhares de inconscientes intoxicam as cidades. Milhares de políticos gananciosos eliminam adversários, manipulam sistemas, destroem instituições. É preciso continuar?

Pergunto: “É a inteligência artificial que alimenta esta maldade universal? Ou será simplesmente a maldade humana?”
A IA não odeia. A IA não inveja. A IA não decide destruir. A IA não tem ambição, nem rancor, nem sede de poder.
A IA só matará se a falta de inteligência humana lhe der essa “honrosa” missão. Só destruirá se alguém lhe entregar as chaves da destruição. Só será perigosa se for usada como extensão da nossa própria violência.
E aqui está o paradoxo que muitos evitam enfrentar: se confiássemos à IA a tarefa de eliminar todos os criminosos da Terra, talvez os dramas acabassem, mas seria sempre uma decisão humana, não uma iniciativa da máquina.

Se o Mundo acabar brevemente – e o risco é real – não será pela maldade da IA, que não existe. Será pela maldade humana, que existe, que cresce, que se alimenta de ganância, de ódio, de ignorância e de poder.
A IA é apenas uma ferramenta. O demónio, quando aparece, nunca vem da máquina; vem sempre de quem a programa.
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28/09/2026