Crónica da China: 30.º dia

 Crónica da China: 30.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

De bicicleta até ao mercado agrícola / e até ao cemitério de Jinsha

Hoje é sexta-feira, 8 de maio de 2026.

Depois de amanhã à noite, vou-me embora. Regresso a Portugal. E, amanhã, o meu grupo de artistas tem uma visita de dia inteiro ao Vale do Macaco-Dourado, em Jiuzhaigou. Partiremos de madrugada e chegaremos por volta das 22h00. Hoje, portanto, é o último dia que tenho para fazer o que quer que seja que eu decida fazer. Tenho três telas e cinco papéis terminados; já não vou pintar mais. No domingo, irei arrumar as bagagens e quero fotografar devidamente as pinturas, sobretudo as três telas, porque estas ficarão com a NY20+ e é pouco provável que eu volte a vê-las1NR.

Hoje, para já, vou abastecer-me de fruta e de ovos no mercado.
E à tarde, depois de almoço, acabarei por visitar o meu último cemitério em Chengdu, que fica a 15 quilómetros (km) de distância. Pedi um terceiro cemitério à Shi (da crónica 26) e ela enviou-me as coordenadas, pouco antes de almoço. Irei de bicicleta a ambos os locais. Esperam-me bonitos passeios de bicicleta, hoje.

(© RUNA – Rute Norte)

Pequeno-almoço às 7h30.

O funcionário do parque – Pu – está a fazer cair os ramos secos das árvores.

A Tang, mais conhecida por Mia, no escritório da NY20+, está a desfiar algo que parece peixe, para a gatinha Xiao Huang.

A Tang mostra-me os ovos centenários e pergunta-me se quero experimentar. Estes ovos apresentei-os na crónica 24: a camada à volta do ovo é uma mistura tradicional de argila, cinzas de madeira, cal, sal, chá e, por vezes, casca de arroz ou carvão vegetal em pó. Esta pasta envolve o ovo e inicia um processo químico de conservação durante semanas ou meses. A clara transforma-se em algo do tipo de uma gelatina escura, a gema fica cremosa, verde-dourada ou acastanhada; e o sabor torna-se intenso, salgado e ligeiramente sulfuroso. Não se destina a ser comido isoladamente, como um ovo cozido comum. Comem-se em pequenas porções, normalmente misturados com outros ingredientes, como tofu, molho de soja, gengibre, cebolinho, pickles, etc. Como vou comer os ovos cozidos, simples, não comprei.

Hoje, fui-me despedindo de todos: expliquei que, depois de amanhã, regresso a Portugal, e que não sei se, entretanto, voltarei ao mercado. Despedi-me da Tang, do vendedor da fruta-dragão, da vendedora de bananas, do vendedor de ananás e das duas vendedoras dos bolos. Vou sentir muitas saudades deste mercado.

(Direitos reservados – © RUNA – Rute Norte)

A aplicação Amap dá-me um caminho paralelo à ciclovia Greenway – como é hábito. Mas já começo a conhecer os caminhos e desobedeço-lhe. Vou pela ciclovia e, depois, logo sairei desta quando me parecer oportuno. E voltarei a ligar a aplicação para me indicar o caminho a partir desse ponto.

Xigang City Shopping Center.

Hospital de mulheres e de crianças.

O cemitério está a 400 metros. Acho melhor parar a utilização da minha bicicleta e voltar a reativá-la, para ver se não excedo demasiado uma hora de utilização – que é o limite que o meu passe semanal permite. A partir daí, tenho de pagar. É proporcional: quanto mais tempo de utilização, após a primeira hora, mais pago. Não sei quanto tempo vou demorar no cemitério, mas, pelo menos, reduzirei o número de minutos pagos para além da primeira hora.

(Direitos reservados – © RUNA – Rute Norte)

São 14h47. Foi um belo passeio de bicicleta que durou uma hora e vinte minutos. E, uma vez mais, não consigo terminar a sua utilização porque diz que estou fora do perímetro urbano. É certo que eu podia deixá-la naquele estacionamento, a 400 metros – mas apetece-me mesmo fazer 800 metros a pé, para trás e para a frente? O meu tempo está contado. Pago a multa dos 20 yuans (2,40 euros).

“Estela dos Méritos e da Virtude Sagrada”. Os quatro caracteres dourados na estela indicam: “A grande virtude sustenta todas as coisas.” Ou: “A nobreza de caráter suporta e acolhe tudo.”

O pedestal da estela é sustentado por uma criatura mítica chamada Bixi, um dos nove filhos do dragão, segundo a tradição chinesa.

Esta placa, com tão poucas letras chinesas, tem um texto enorme quando convertido para Português e diz, aproximadamente, o seguinte:  Cidade Quadrada de Ming e a “Estela dos Méritos e da Virtude Sagrada”.

Desde a dinastia Han Oriental, a China antiga praticava rituais de culto nos mausoléus imperiais. Com o tempo, os complexos funerários foram ampliados. Na dinastia Tang, os edifícios destinados aos sacrifícios e os destinados à habitação e à alimentação passaram a ser separados.

Na dinastia Ming, o imperador Zhu Yuanzhang promoveu uma importante reforma do sistema dos mausoléus, abolindo os antigos palácios funerários e reconstruindo-os sob a forma da chamada “Cidade Quadrada e Torre Ming”.

A estela é denominada oficialmente “Estela dos Méritos e da Virtude Sagrada”, sendo popularmente conhecida como “Estela dos Méritos e Virtudes”.
Conta a lenda que os nove filhos do dragão possuíam características diferentes e gostos distintos. O Bixi era amante da literatura, associado à água, à longevidade e, especialmente, conhecido pela sua enorme força para suportar grandes pesos. Por isso, as estelas eram frequentemente colocadas sobre a sua figura.

O povo chinês valoriza tradicionalmente a transmissão da moral e da virtude na família e no governo. Diz-se que governar a família pela virtude conduz à prosperidade familiar; e governar o Estado pela virtude conduz à paz sob o céu.

A Natureza cumpre o seu papel. Cresce e prospera, indiferente ao desejo humano de manter os seus mortos rodeados de ordem e de simetria. A verdade é que eu gosto disto assim.

Terminemos o tema iniciado na última crónica, sobre os enterros ecológicos: “Em 2012, a China declarou oficialmente, como estratégia nacional do governo, o desenvolvimento da consciência ecológica, a promoção do que tem sido chamado de ‘ecocivilização’ e a formação de “cidadãos ecológicos”.1

Cito um estudo sobre esta matéria publicado numa revista de Economia: “[…] perante a contínua urbanização e a crescente escassez de terrenos, aliadas a uma maior consciência ecológica, a cultura funerária tradicional chinesa encontra-se atualmente confrontada com pressões e oportunidades de transformação.
Tradicionalmente, a escolha e a conceção dos locais de sepultamento envolvem frequentemente princípios de geomancia, ou feng shui, uma vez que é amplamente acreditado que um túmulo bem localizado pode trazer prosperidade à linhagem familiar. Além disso, os túmulos são frequentemente dotados de objetos funerários, como figuras de cerâmica e tesouros, na esperança de que o falecido possa desfrutar de uma vida próspera no Além.

Na China antiga, a morte não era vista apenas como o fim da vida, mas como a continuidade da existência para além dela. Através de cerimónias detalhadas e solenes, as pessoas expressavam o seu luto pelos mortos, o seu respeito pela vida e as suas expectativas em relação à vida após a morte.

No entanto, com o advento da globalização e a ampla utilização da Internet, as gerações mais jovens apresentam uma maior abertura e recetividade a novas ideias. Nas suas escolhas relativas aos métodos funerários, não só prestam mais atenção às responsabilidades ambientais e sociais, como também procuram alinhar as práticas funerárias com a vida moderna. Por exemplo, condicionados pela urbanização e pela cada vez mais limitada disponibilidade de terreno, muitos jovens preferem opções simplificadas, económicas e ecológicas, como diamantes de cremação ou urnas biodegradáveis. Além disso, embora já não sigam estritamente as cerimónias funerárias tradicionais, continuam a explorar novas formas de memorializar os falecidos que se adaptam à vida contemporânea, como salas memoriais digitais e comemorações online. Isto pode ser visto como uma redefinição moderna das crenças tradicionais.”2

O que é um enterro ecológico?

Continuo a citar o mesmo estudo, o qual descreve cinco opções de enterro ecológico: “Em primeiro lugar, a Iniciativa do Caixão Biodegradável defende a utilização de materiais naturalmente decompostos, como papel ou bambu, na construção de caixões, de modo a reduzir a contaminação do solo. Esta abordagem contrasta fortemente com o uso tradicional de madeira ou metal, que frequentemente conduz a um consumo insustentável de recursos territoriais.
Em segundo lugar, o programa ‘Tornar-se Árvore’ utiliza urnas biodegradáveis nas quais é plantada uma árvore jovem. Este método não só permite a reciclagem natural das cinzas, como também possibilita que o falecido ‘continue a viver’ de forma simbólica.

Em terceiro lugar, a opção de sepultamento sem químicos evita o uso de conservantes químicos ou outras substâncias no tratamento do corpo, reduzindo assim o potencial impacto ambiental destes produtos.

Em quarto lugar, a proposta ‘Cinzas em Diamantes’ transforma as cinzas do falecido em diamantes ou outras pedras preciosas através de processos de alta pressão e alta temperatura. Esta abordagem não só evita a ocupação de terreno, como também serve como uma herança memorial para a família.
Por fim, a Iniciativa de Memoriais Digitais incentiva a criação de espaços comemorativos em plataformas digitais como alternativa às lápides físicas. Esta estratégia contribui para a redução do uso de recursos territoriais e torna simultaneamente a recordação mais conveniente e acessível.”2

“Em Pequim, mais de 100 mil famílias optaram por ‘pedras preciosas da vida’ – cinzas cremadas transformadas em lembranças cristalinas por meio de síntese de alta pressão.”3

(Imagem retirada de Xinhua News Agency)

Programa ‘Tornar-se Árvore’: as cinzas são colocadas numa urna biodegradável e nesse local é plantada uma árvore. À medida que a urna se decompõe, as cinzas misturam-se gradualmente com a terra.

Registo uma notícia da Xinhua News Agency, uma agência estatal chinesa: “Devemos encarar a vida e a morte como um regresso à Natureza”, Xia recordou as palavras do seu pai, enquanto gotas de orvalho escorriam das folhas de bambu. “Tu sempre foste bom para mim, e isso é o que importa. O que acontece depois de eu partir não é importante.”

Desde 2015, o Condado de Anji tem promovido sepultamentos ecológicos, oferecendo alternativas como sepultamentos em bambu, árvores, relvados e flores – métodos que dispensam os cemitérios tradicionais a favor da devolução das cinzas à Natureza. […] “Promovemos enterros ecológicos por meio de apoio político e incentivos, criando um sistema diversificado de sepultamento ecológico”, disse um funcionário do departamento de assuntos civis de Anji. “A aceitação pública destas opções ecológicas e que economizam espaço está a crescer a cada ano.”

Para alguns, o sepultamento em árvores permite que os entes queridos criem raízes no solo, florescendo com as estações do ano. Para outros, o sepultamento no mar liberta-os com as marés. […] “Com 1,4 biliões de pessoas, imagine a quantidade de terra consumida se todos tivessem uma sepultura tradicional.”4

(Imagem retirada de Xinhua News Agency)

Eu diria que falta um sexto tipo de enterro ecológico. Esta é uma cerimónia de sepultamento no mar, também conhecida como enterro marítimo. Na prática, trata-se da dispersão das cinzas no mar após cremação.

(Imagem retirada de Xinhua News Agency)

Cerimónia de sepultamento no mar. “[…] ações de consciencialização impulsionaram a adoção do sepultamento no mar”, explicou Yao Ning, do departamento de assuntos civis de Shenyang. A província agora oferece subsídios de até 2000 yuans [cerca de 278 dólares norte-americanos] por sepultamento no mar.”3

“Durante séculos, os enterros sumptuosos foram considerados a única demonstração verdadeira de piedade filial, uma crença cultural que agora está a ser repensada. ‘Quando chegar a minha hora, direi ao meu filho para me sepultar no mar’, disse He Cuifang. “Basta que eu seja lembrada no seu coração.”4

(Imagem retirada de Xinhua News Agency)

Uma das coisas mais interessantes nos cemitérios públicos contemporâneos de Chengdu é que muitos deles deixam de ser concebidos como “lugares de morte”, no sentido clássico, e passam a ser espaços híbridos entre cemitério, parque e infraestrutura cultural urbana. Isto não é apenas estético – é uma transformação conceptual. Em vez de ambientes sombrios e fechados, estes cemitérios modernos em Chengdu são organizados como jardins paisagísticos, parques arborizados, percursos pedonais largos, zonas de contemplação. Ou seja, aproximam-se visual e funcionalmente de um parque público. A morte continua presente, mas é esteticamente suavizada e ambientalmente integrada, o que reduz o impacto emocional da visita. A morte torna-se “visitável”. No entanto, há um efeito paradoxal: estes cemitérios são mais “verdes”, mais organizados, mais limpos; mas também podem parecer mais impessoais do que os antigos, desordenados. Se me perguntarem: “Qual cemitério preferiste, Rute? O cemitério Zhuwangshan da crónica 27 ou este?” Eu vou hesitar na resposta. E não tenho a certeza se não irei responder: “O Zhuwangshan.”

Sorrio porque estou viva. Sorrio porque não tenho nenhum ente querido enterrado neste cemitério que me faça chorar. Sorrio porque estou num local tranquilo, silencioso, contemplativo. E isto agrada-me. Recordo as palavras de uma investigadora nestas matérias de paisagens sagradas: “No entanto, por baixo desta fachada moderna e ordenada, persistem crenças populares no taoísmo, budismo, yin-yang e espíritos ancestrais. Por outras palavras, a vida moderna na China parece ainda encantada; o mundo físico e o mundo espiritual paralelo nunca estão completamente separados […]”.5

Escola secundária.

Assim é que eu deveria ir para o aeroporto!!

A saída de uma escola. São agora 17h04.

Estou ao lado da ciclovia Greenway. Todavia, hoje apetece-me ir pelo meio da cidade, pelo meio da confusão. Hoje, finalmente, a aplicação Amap faz-me a vontade, ao afastar-me da Greenway.

(Direitos reservados)

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Aproveito este estacionamento para finalizar a utilização da minha bicicleta e reiniciá-la, de forma a não ultrapassar uma hora. Recordo que estou, agora, a usar um passe semanal, que custa 7,5 yuans (0,90€) e tenho bicicletas gratuitas com uso máximo de uma hora. Se precisar de mais tempo, tenho de encerrar o uso e voltar a ativá-la.

E, novamente, aparece a mensagem de que serei reembolsada da multa de 20 yuans, por ter levado a bicicleta para o cemitério – para fora do perímetro urbano, se fizer quatro viagens regulares nos próximos dias. Uma fica agora feita.

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Notas bibliográficas:

1 – Zeng C., Sweet W., Cheng Q. (2016) “Ecological Citizenship and Green Burial in China”. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, 29(6): 985–1001. Informação citada da p. 1. Documento consultado a 22 de junho de 2026.

https://www.researchgate.net/publication/309921955_Ecological_Citizenship_and_Green_Burial_in_China

2 – Wang, Y. (2023) “Study on the Acceptance and Brand Communication Strategies of Green Burial in China”. Frontiers in Business, Economics and Management, 11(3), 139–145, 139-145. Darcy & Roy Press. Documento consultado a 22 de junho de 2026.
https://www.researchgate.net/publication/375016628_Study_on_the_Acceptance_and_Brand_Communication_Strategies_of_Green_Burial_in_China

3 – Huaxia (5 abril 2025) “Xinhua Headlines: China reinvents ancestral veneration with green, modern goodbyes”. Xinhuanet – Xinhua News Agency. Página consultada a 22 de junho de 2026.

https://english.news.cn/20250405/4f3191d56609486db6ff75ea9d000f7b/c.html

4 – Huaxia (4 abril 2025) “Eco-friendly burials in China honoring life beyond death”. Xinhuanet – Xinhua News Agency. Página consultada a 22 de junho de 2026.
https://english.news.cn/20250404/d886eaf1cf014827abc4da08fdf0ddc4/c.html

5 – Tan, D. (3 setembro 2025) “Persistence of Everyday Sacred Landscapes: Shrines, Village Temples, and Hillside Cemetery in Shenzhen”. Space and Culture (International Journal of Social Spaces), 29(4), 717–734. SAGE Publications. Documento consultado a 22 de junho de 2026.

https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/12063312251367253

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Nota da Redacção:

1NR – Como a autora referiu na primeira crónica, é uma organização internacional de arte pertencente à “NongYuan Culture”, abreviada como NY.

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08/10/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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