Crónica da China: 31.º dia

 Crónica da China: 31.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

Viagem até ao Vale do Macaco-Dourado, em Jiuzhaigou

Hoje é sábado, 9 de maio de 2026. Temos uma viagem de dia inteiro ao “Golden Monkey Valley”, na Reserva Natural de Baihe, no condado de Jiuzhaigou, na província de Sichuan. Esta viagem é organizada pela NY20+ em conjunto com a própria entidade gestora do “Golden Monkey Valley”. E é oferecida aos artistas, incluindo as três refeições do dia.

Partida às 5h45 e chegada às 22h30. Na Estação Ferroviária do Sul, apanharemos um comboio de alta velocidade às 6h45, cuja viagem leva duas horas e quarenta minutos.

Dois carros irão buscar-nos à estação de comboios e faremos duas horas de viagem. 110 quilómetros (km), pelo meio das montanhas, até ao Vale do Macaco-Dourado.
Temos um programa em PDF, em Chinês e em Inglês, com dez páginas, que indica os participantes: “Yang Li, vice chairman of Chengdu Federation of Literary and Art Circles / chairman of NY; Jiang Yijia, general manager of NY;
Li Ning, Manager of the Research & Study Department of NY; Runa (portuguese artist); Anna Pustovalova (russian artist); e Bianca Maria Popa (romanian artist).”

As artistas estão por ordem de chegada à residência. A Bianca é a mais recente.

(Direitos reservados)

China, província de Sichuan. A distância entre Chengdu e o Vale do Macaco-Dourado é cerca de 400 km.

(© RUNA – Rute Norte)

Chengdu South Railway Station.

Controlo de passaportes.

Falta meia hora para o comboio e vamos, rapidamente, tomar um pequeno-almoço típico chinês. Escolhi uma almôndega e um ice tea.

São 10h38 e vamos começar pelo Baihe Golden Monkey Science Education Exhibition Hall, que, em Português, costuma chamar-se “centro de interpretação”, pelo que poderemos traduzir como Centro de Interpretação Científica dos Macacos-Dourados de Baihe.

Este parque é novo. O período de funcionamento experimental começou em finais de 2025 e a abertura ao público ocorreu, agora, em maio de 2026. Ainda está tudo exclusivamente em Chinês; a próxima etapa será colocar placas com tradução em Inglês.

Os macacos-dourados-de-nariz-arrebitado têm o nome científico Rhinopithecus roxellana.

É sempre uma emoção ter estes animais tão perto e livres. O portal governamental China.org.cn indica o seguinte: “Habitada por 1600 a 1800 macacos-dourados-de-nariz-arrebitado, a Reserva Natural de Baihe lidera o mundo em termos de densidade populacional, segundo Li Dayong, professor da Universidade Normal de China Ocidental, que se dedica há muito ao estudo deste animal raro.”1

Rhinopithecus roxellana é uma espécie protegida e está classificada como “Em Perigo” na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Vejo no website da IUCN que, no ano 2000, era considerada “Vulnerável” e em 2020 já estava noutro escalão superior –  “Em Perigo”, por ter sofrido um declínio de mais de 50% nas últimas três gerações (aproximadamente 39 anos).2

O nariz arrebitado do Rhinopithecus roxellana está ligado, sobretudo, à adaptação ao frio extremo. Estes macacos vivem em florestas de alta montanha, acima dos 2000–4000 metros, onde os invernos são rigorosos e as temperaturas podem ser negativas durante longos períodos. O nariz curto e achatado reduz a área exposta ao ar frio.

Há nove anos, em 2017, quando visitei Yunnan, no Sul da China, tive oportunidade de ver outra espécie de macaco-de-nariz-arrebitado: o Rhinopithecus bieti. Este era preto e branco. Seja de que cor for o macaco, é sempre um emoção renovada ver estes animais tão perto, livres, no seu habitat natural.

Conforme referi, o Golden Monkey Valley é uma atração turística nova, que inaugurou ao público há poucos dias. Neste momento, tem três “A”. Conforme expliquei na crónica 5, este sistema de letras “A” é uma classificação oficial de qualidade para atrações turísticas, atribuída pelo Ministério da Cultura e Turismo da China. Funciona como uma hierarquia de avaliação da experiência turística, infraestruturas e gestão do local. O máximo possível é cinco letras “A”. O Tianyi NongYuan Art Expo Park, onde fica a residência artística da NY20+, está avaliado com quatro letras “A”.

Yang Li – presidente da NY, apresenta o conjunto completo de serviços existentes na NongYuan, para servir como exemplo ao desenvolvimento deste recém-criado parque, de forma que este consiga aumentar o número de letras “A”.

São 13h53 e vamos fazer algo que não está previsto no programa: visitar a Área Cénica do Vale de Jiuzhaigou, que fica a 35 km daqui. É um parque nacional classificado como Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), famoso pelos seus lagos cristalinos coloridos, cascatas e florestas.

Mas, infelizmente, não conseguimos visitar, porque a última entrada é às 14h00. Vamos, então, visitar a Cidade Antiga Songzhou.

Estamos numa área de transição entre as regiões do planalto tibetano e as zonas montanhosas de Sichuan. Songzhou foi uma cidade militar e administrativa de fronteira e funcionava como ponto de ligação entre o interior da China e o Tibete.

Posso dizer que este algodão doce sabe deliciosamente bem. É dos melhores que já comi. Desaparece completamente na boca, esvanece-se. A última vez que comi foi há uns anos. Lembro-me que se forma uma bola de açúcar na boca; e esses já não são tão bons.

São 18h45 e despedimo-nos da equipa do Golden Monkey Valley. Aqui, é a estação de comboios e o nosso comboio parte dentro de poucos minutos; temos de correr. Ainda é preciso passar no controlo dos passaportes.

Iaques! Já vimos vários, mas só agora consegui fotografá-los.

Todos estes cenários são-me muito familiares. Idênticos a Yunnan e fazem-me recordar intensamente essa belíssima viagem de bicicleta.

Foi com grande alegria que as três artistas vieram comer um hambúrguer nestes restaurantes de fast-food, oferecido pela NY20+. Eu já comi no McDonald’s e na Pizza Hut, em Chengdu, faltava-me o Kentucky Fried Chicken (KFC). Posso dizer, no entanto, que normalmente como uma vez por ano no McDonald’s; há cerca de dez anos que não comia na Pizza Hut; e esta é a primeira vez na minha vida que entro num KFC. Mas gosto deles todos. Fiquei agora a saber que gosto do KFC também, apesar de não ter um menu em Inglês. Numa estação de comboios deste tamanho, com gente de todo o Mundo, só têm menus em Chinês. Ora, não conhecendo nada deste restaurante, simplesmente escrevi no tradutor do telemóvel: “Hambúrguer de vaca não picante.”
E também gosto do Burguer King. Ainda não vi nenhum destes estabelecimentos em Chengdu; não deve existir.

O fast-food é apenas um tipo de alimentação que habitualmente não faço. São autênticas gulodices, é certo. E agora sabe-me muito bem este hambúrguer. A comida típica de Chengdu é muito picante, e também o foi no almoço de hoje. Há coisas que eu não consigo comer por serem tão picantes. E sabe-me bem regressar à alimentação ocidental, mesmo sendo fast-food. Quando cheguei à residência, complementei este hambúrguer com o durião e bananas.
Estamos todos cansados, acordámos às cinco da manhã e tivemos um dia muito intenso. Um dia muito agradável.

Notas bibliográficas:

1 – Fang, Y. (17 julho 2027) “Baihe Nature Reserve elevated to national level”. China.org.cn. Página consultada a 23 de junho de 2026.
http://www.china.org.cn/travel/Wild_Sichuan/2017-07/17/content_41227913.htm

2 – “Golden Snub-nosed Monkey” (2021). Rhinopithecus roxellana (amended version of 2020 assessment). The IUCN Red List of Threatened Species 2021: e.T19596A196491153. Página consultada a 23 de junho de 2026. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2021-1.RLTS.T19596A196491153.en

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19/10/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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