Crónica da China: quinto dia

 Crónica da China: quinto dia

(© RUNA – Rute Norte)

Experiência gastronómica “Baozi” / tarde de estúdio

Hoje é segunda-feira, 14 de abril de 2026.

Às 10h00, temos uma atividade de grupo organizada pela NY20+, na área da culinária: “Experiência Baozi”. Procurei o nome, em Português, destes pães chineses recheados com carne, mas não há. Em Inglês, o termo geralmente usado é “dumpling” (este é um termo genérico que abrange tudo) ou “gyosa”. Mas os “baozi” são pães fofos recheados, de origem chinesa, ao passo que as “gyosas” têm uma massa mais fina e origem japonesa.

Estou com o sono totalmente destrambelhado por causa do “jet lag” – ou seja, quando o relógio biológico (ou ritmo circadiano) fica desajustado após cruzarmos vários fusos horários em viagens longas. A diferença horária entre Portugal e a China é considerável. São sete horas de diferença. E ando a dormir em horários insólitos. Adormeço cedo, acordo cedo, volto a adormecer daí a umas horas. Nestas alturas de vigília, aproveito para investigar percursos de bicicleta na aplicação Maps.me. Mas esta aplicação, como expliquei no segundo dia, é muito fraca aqui na China, não identifica muitas coisas. Já a aplicação Amap tem uma filosofia muito diferente em relação às bicicletas – dá-lhes um uso puramente utilitário, e os percursos são iguais para as motocicletas elétricas.

O Maps.me nunca levaria uma bicicleta por uma estrada principal, por exemplo – a bicicleta é para relaxar, para estar em silêncio. No Amap, é para se deslocar de um lado para o outro e cumprir os afazeres; indica o caminho mais rápido e pronto. Ainda experimentei escolher caminhos para “peões”, mas apareceu-me o aviso de “escadas”. Estas bicicletas são muito pesadas para andar a subir escadas.

Pequeno-almoço improvisado no quarto do hotel, às 5h45 da manhã. (© RUNA – Rute Norte)
São 9h58 e aqui é o restaurante onde almoçamos e jantamos (almoço às 12h00 e jantar às 18h00). Também será aqui a nossa experiência culinária.
A cozinheira Tang.
A Mia com a Liu Li, a pessoa responsável pelo restaurante.
A Chen Chen, que trabalha no escritório da NY20+, com a Mia.
A cozinheira Han, que jogou pingue-pongue comigo e com a Joanna, ontem depois de jantar.

A verdade é que alguém se apanhou com a minha máquina fotográfica, enquanto eu cozinhava, e fotografaram-se uns aos outros – toda a equipa da NY20+. Eu achei graça e mantive todas as fotos!

Esta placa é muito importante e mostra que este parque – “Tianyi NongYuan Art Exposition Park” – está avaliado com quatro “A” (4A). Este sistema de “A” é uma classificação oficial de qualidade para atrações turísticas, atribuída pelo Ministério da Cultura e Turismo da República Popular da China. Funciona como uma hierarquia de avaliação da experiência turística, infraestruturas e gestão do local. O máximo possível é cinco “A” (5A). E ter quatro já é extremamente difícil. Ter quatro “A” (AAAA) significa: atracções de grande qualidade e relevância nacional; infraestrutura bem desenvolvida (centros de visitantes, transportes internos, lojas, WC bem equipados); boa gestão turística e experiência consistente. Ter 5A (AAAAA) é o nível máximo de excelência turística e significa: destinos de importância nacional e internacional; gestão altamente profissional e infraestrutura muito completa; forte controlo de capacidade, segurança e preservação; experiência turística “modelo”, segundo critérios oficiais. Exemplos de locais 5A incluem a Grande Muralha da China, a Cidade Proibida, o Exército de Terracota.

Mais tarde ou mais cedo, com a sua crescente internacionalização, esperemos que o Tianyi NongYuan Art Expo Park, atualmente também conhecido por NongYuan International Art Village, venha a obter o quinto e último “A”. Uma atração turística pode subir ou descer de nível se não cumprir os padrões. O selo não é permanente, é auditado.

No andar de baixo, à frente, fica o estúdio da Joanna; no andar de cima fica o do Porshz.
O pequeno museu no interior do parque.
Os baozi já estão todos cozidos e vamos então almoçar.

O Huqi, que também trabalha no escritório da NY20+, com a Mia e a Chen Chen. Está sentado à mesa connosco e foi ele quem tirou a foto anterior, do grupo à mesa. Acho que foi o Huqi quem se apanhou com a minha máquina fotográfica, enquanto eu cozinhava!

Sei que pode parecer estranho pintar uma tela deste tamanho, sentada. Mas é assim que gosto, prefiro pintar na horizontal. Tenho aqui cavaletes ao dispor – a própria Mia perguntou-me se eu não quero um cavalete: “Há vários cavaletes e posso trazê-los para aqui.” Agradeci e disse que não era necessário.

Desde adolescente ou dos primeiros anos de jovem adulta, pinto na vertical, em cavaletes. Porém, depois, arranjei um estúdio, comecei a pintar grandes formatos (mais de dois metros) em telas não engradadas e ganhei o gosto de pintar no chão e de andar por cima das telas.

Agora, ninguém me apanha a pintar na vertical. Os papéis A3 ou A2 (ou, mais recentemente, os pequenos postais) pinto-os sentada numa mesa. E as telas gosto de pintá-las no chão. Aqui, neste estúdio, não vou para o chão, porque estou confortável sentada à mesa (vou girando a tela e, em último caso, levanto-me). E também porque há muita gente a circular, as pessoas andam a visitar as galerias e passam por aqui, cumprimentam os artistas. Em breve, irei começar a tirar fotos com estes visitantes.

Mas ainda há mais: adicionalmente, há cinco anos que não pintava uma tela engradada, pelo que é algo novo na minha vida – pintar, finalmente e novamente, uma tela engradada. Tenho uma tela engradada um pouco maior do que esta, no meu estúdio, em Lisboa. Está branca, branquinha, intocada. Quem é que me põe a pintar telas esticadas, agora? Só mesmo a NY20+. Nos últimos cinco anos, tenho optado por algo que considero mais suave – o papel quente, o tecido suave da tela, não esticado por uma grade de madeira na parte de trás.

Enfim, é a altura de retomar a pintura de telas engradadas. Todavia, ainda o faço na horizontal, ainda ergo este bastião. Há outra pintora que também preferia pintar no chão: a norte-americana Helen Frankenthaler (1928-2011). Dizia ela que lhe dava mais intimidade e maior controlo sobre a tela. Pode ser visto neste vídeo (link), e a frase completa é: “Trabalho no chão porque tenho mais intimidade e maior controlo da superfície da tela dessa forma. A postura e a relação com a própria tela são muito diferentes se estivermos a esticar uma tela no chão ou se a estivermos a olhar na parede.”

No entanto, a pintora Helen Frankenthaler, pelo menos neste vídeo, está a trabalhar numa tela engradada. Ou seja, ela não pode ir para cima da tela. Ora eu gosto de estar em cima da tela. Estendo-me ao comprido em cima da tela, com o nariz em cima da pintura, enquanto pinto: You’re mine! (És minha!)

Deixo a observação de que a NY20+ não me obrigou a nada: era só eu dizer que queria uma tela não engradada e recebê-la-ia. Aliás, eu viria a saber que existe um rolo de tela disponível. Foi uma questão prática: dado que quero pintar várias ao mesmo tempo, não posso ocupar o chão com uma única tela de dois metros – tela essa que irá chegar em breve. Assim, engradadas, sempre posso encostá-las à parede e fico com espaço livre para as restantes.
Parece-me, contudo, que nos próximos dias, no meu – em breve – apartamento-estúdio, se calhar, vou mudar todos estes hábitos.

Três dos pincéis que a NY20+ comprou para mim, a meu pedido. Revelaram-se excelentes.

04/06/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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