Patagónia: um ponto de encontro encontrado

 Patagónia: um ponto de encontro encontrado

Vista da cidade de San Martín de los Andes de frente para o Lago Lácar. (en.wikipedia.org)

Como descrever San Martín de los Andes? Qualquer tentativa pareceria deslocada, incompleta, em razão do que por lá vi e vivi. No que tange ao que era visto, eu diria que era como estar inserido num cartão postal vivo. O espírito do lugar condizia com o bem-estar. Fosse pela pureza e pela calmaria translúcida do lago, formado por águas glaciares, pelo vigoroso entorno montanhoso, repleto de coníferas outonadas multicoloridas, pelo seu aspecto de jardim, patente nas suas ruas, umas tantas roseiras que, ainda que tocadas pelo frio, apresentam rosas, sendo rosas mesmo assim; ademais, são tantas as flores, as árvores, as aves. Uma flora e uma fauna cheias de vida, não latentes, resistentes, pura essência da América Latina. 

Vista aérea da cidade de San Martín de los Andes. (Créditos fotográficos: Aleposta – en.wikipedia.org)

Evoluída de habitat dos mapuches para novo ninho de emigrados, a cidade, a princípio, surpreende pela sua arquitetura de inspiração alpina. Todavia, a madeira e as pedras locais estão em harmonia com o cenário, sendo composições a perfazerem um todo integrado e pertinente a uma harmonia directa e incessante para o olhar. Eu encontrava-me motivado por todo o resultante; aquela tamanha totalidade levava-me para dentro de uma espécie de alegria. “A alegria como potência de vida, nos leva onde a tristeza nunca nos levaria”, conforme pontuava Gilles Deleuze. Alegre, leve,  distensionado, fui levando-me, ou melhor: o lugar levava-me. Tinha na cabeça uma canção suave com letra de Fernando Solanas, transformada em tango por Astor Piazzolla: “ Busco al sur. El tiempo abierto y su después. Llego al sur…”

Patagónia (Créditos fotográficos: Snowscat – Unsplash)

De súbito, encontrar-me-ia na sua praça central, sempre ao sul do caminho por onde eu seguia. E, para a minha surpresa, uma trupe estava a iniciar uma apresentação que muito condizia com a minha identificação espiritual para com o lugar. “Salgo a caminar, / por la cintura cósmica del Sur, / piso en la región / más vegetal del viento y de la luz; / siento al caminar / toda la piel de America en mi piel […]”. Tratava-se de uma canção que exalta a união dos povos americanos, tal e qual foi imortalizada por Mercedes Soza. Mercedes vestia de poesia musicada os ares por onde passava. Terna, delicada, mais parecia um ángel argentino norteño, também a nunca se desassociar del sur. Coerente com a sua proposta integrativa, exalava um alerta subtil a toda a gente do continente. Foi a maior embaixadora do pan-americanismo.

Mercedes Sosa, dona de uma voz única, que escolheu
Mendoza como sua terra, berço do movimento da Nova
Canção. (sitioandino.com.ar)

“Si no creyera en lo que agencio, si no creyera en mi camiño, si no creyera en mi sonido, si no creyera en mi silencio, que cosa fuera?” Não estava sozinha en el camiño; outros cantantes destacavam-se na mesma Argentina, no Uruguai, na Bolívia, no Perú, no Chile, contra as opressões e os descaminhos identitários. Violeta Parra, Tania Libertad, Amparo Ochoa, Judith Reyes, Sara González… Intí-Ilmani, Santiago Peliú, Facundo Cabral, Atahualpa Yupanqui, Gabino Palomares, Tarancón… La nueva canción trazia uma consciência antropológica de resistência.  Como dizia Belchior: “El condor passa sobre os Andes / E abre as asas sobre nós […]”. Disse-o nos tempos em que a Tropicália cumpria no Brasil o mesmo fluxo de identidade e resistência.

(instagram.com/belchiorpensativo)

A apresentação da trupe prosseguia, envolvente. Aproximei-me para estar mais próximo  dos cantantes dançantes e, num dado momento, um deles perguntou: “¿De dónde vienes?” Disse-o assertivamente, em estado de comunhão com todos: “¡Vengo de Brasil! ¡Soy latinoamericano como vos!” Sentiram firmeza. Levaram-me, por entre uns tantos braços, até a um microfone, para dizer: “¡Pues! ¡Ahora canta para nosotros!” E eu fi-lo, em estado de graça:

“Gracias a la Vida que me ha dado tanto. Me ha dado el sonido y el abecedario. Con él, las palabras que pienso y declaro: Madre, Amigo, Hermano y luz alambrando la ruta del alma del que estoy amando…”

Abrangendo uma extensa área no extremo sul da América, a Patagónia ocupa parte dos territórios da Argentina e do Chile, tendo a Cordilheira dos Andes a delimitar a fronteira entre os dois países. (blog.solo.ind.br)

Tomei a inspiração em Mercedes Sosa. Ainda em êxtase, acrescentei um trecho de Los Hermanos, uma canção de Atahualpa Yupanqui (todavia, nascido Héctor Roberto Chavero, que, aos 13 anos, na escola, adoptou os nomes dos últimos soberanos incas); a canção foi gravada no Brasil por Elis Regina, contei que ela pleiteava alertar que o Brasil é também América Latina. O alerta era feito tanto para os Brasileiros quanto para os vizinhos: “Yo tengo tantos Hermanos. Que no los puedo contar. En el valle, la montaña, en la Pampa y en el mar…Y una hermana muy hermosa que se llama Libertad!”

Enfim, fui inserido na festa, selou-se uma festiva amizade. Depois, fomos todos ao sítio onde foi erguido o primeiro hotel do lugar e prosseguimos com o vinho local, momentos de música e de poesia, alegrias e degustação do sabor da verdadeira amizade; na realidade, bebíamos e cantávamos uma Patagónia e uma América intensa, plena, de verdade.

(Direitos reservados)

Folheio aqui um livro que ganhei deles: “As Veias Abertas da America Latina”, de Eduardo Galleano. A dedicatória assinada por todos é profética, um trecho de uma canção da Mercedes: Todo Cambia”. O regalo remonta saudades, enternece e o texto fortalece o enfrentamento dos novos tempos para onde iria a amizade, para tão longe daquele tempo. “Cambia el superficial. Cambia también lo profundo. Cambia el modo de pensar. Cambia todo en este mundo. Cambia el clima con los años… Y así como todo cambia. Que Yo cambie no es estraño.”

A trilha até o Fitz Roy em El Chaltén, na Patagónia Argentina. (Créditos fotográficos: Pexels – lugaresparaconhecer.com.br)

Ocorreu-me pensar que “trupe” é uma palavra francesa que bem pode ser usada, em Português e em Espanhol, a significar: pessoas unidas pela arte, pelo bem, a reunir pessoas; seria inadequado traduzir para “tropa”. Essa é uma palavra germânica que bem pode agregar pessoas para fazerem o mal a outras pessoas. O idioma compreende vários vieses de origem e significados. Nada mal o Português e o Espanhol lerem meu relato com a mesma palavra francesa: “trupe”. Não há que se tropeçar em estranhamentos que, por sua vez, inclusive, compuseram a História das Américas. Essa é uma crónica que narra igualdades, as alegrias compartilhadas, refere-se a uma América não sujeita às outras histórias.  Que “la amistad transforme siempre las divisiones en favor de una suma ininterrumpida y elemental”. Que a amizade seja sempre essa força silenciosa, capaz de transformar barreiras e distâncias numa união contínua e partilhada, exemplar. Amizade a ponto de nunca vir a ser saudade. 

.

19/10/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

Outros artigos

Share
Instagram