A confissão de Lúcio
Lisboa (Créditos fotográficos: gemmafjam – Unsplash)
Desço para o farto pequeno almoço servido no subsolo do hotel. Reconheço que estou em Portugal através da visão e um tanto pelo aroma memorial a conferir a presença do pão de ló, de pastéis de Belém (afinal, encontrava-me em Lisboa!), o queijo de leite de cabra serrano, tudo está a parecer muito português. Entretanto, há algumas surpresas: coxinhas de siri a sugerirem uma manhã num hotel do distante Sri Lanka, fatias de um bom melão espanhol, nisso não há nada de estranho: a Espanha é tão perto!


primeiro-ministro de D. José I, entre 1750 e 1777, tendo sido o maior
responsável pela reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755.
(informacoeseservicos.lisboa.pt)
Incerto seria eu pensar estar no Brasil. Porém, lá veio ele, que andara a borboletear defronte de cada mesa, pondo-se a conversar animado com todos os hóspedes: uma lufada de calor humano na manhã cinzenta, sorriso constante, uma graça de pessoa. Intuiu logo, com a minha primeira frase, que eu seria brasileiro e apresentou-se: “Muito prazer! Chamo-me Nelson Gonçalves, como o vosso cantor!” Ora, o homónimo dele, o cantor brasileiro, era um tipo de pouco humor, exalava um aspeto sofredor, disse-lhe. E emendei: “Não condiz com a sua tão alegre pessoa!” Ele não titubeou: “Vês? Estou a corrigir a impressão que ele deixou!” E lá se foi borboletear na mesa de uns orientais. É raro ver orientais a sorrir. Contudo, ele prontamente amealhou os sorrisos daquela gente. Mais que um atendedor de mesa é um entretenedor.
Observo o monumento: o Marquês não se encontra só. Há uma figura feminina voltada para a Baixa, a alegoria, decerto, representa a cidade reconstruída após o terramoto de 1755. Todavia, a peça é mais recente, data de 1934. A estátua de Minerva, a ter uma universidade por detrás, com certeza, contempla a reforma do ensino. Eureka!? E quem ou o que mais há? Uma nau, que parece estar a simbolizar a aventura marítima portuguesa. Quiçá, está a valorizar a Marinha mais recente, pode ser. Um boi, uma mulher com um cesto de uvas e um homem com um arado trazem o país para dentro, valoriza a terra, a agricultura.

E a alegoria, no seu todo, tem à frente um leão sem fúria que representa a força de uma nação, dantes um reino que veio a ter os privilégios da nobreza contidos por um marquês igualmente irado com a Cúria. A nobreza nunca foi forte. Era preguiçosa e indolentemente procrastinadora, queria era permanecer na sua zona de conforto. Conta-se que, após o terramoto, o rei Dom José perguntou ao marquês: “E agora o que fazer?” Ao que este replicou: “Enterrar os mortos e alimentar os vivos!”
O nobre era um homem de ação: redesenhou Lisboa, expulsou os jesuítas, acabou com a escravatura e com os autos de fé, era genioso e determinado. Um português voltado para Portugal, para que o país estivesse no centro do Mundo. Tal e qual é a sua posição estatuária encontrável, hoje, em Lisboa. Entre os seus desígnios, assinou um decreto de que o Português teria de ser a língua oficial nas antigas colónias. Aspirou fortalecer assim o controlo da Coroa nos seus domínios. Havia que se apagar idiomas, dialectos entre os quais África e Brasil estavam repletos.

Volto à receção do hotel. A conversar, muito à vontade, com a empregada (ou rececionista) curitibana, os demais funcionários são portugueses, mais calados por natureza. Nisto chegam duas senhoras brasileiras (na verdade, o Hotel Fénix – que, atualmente, são três, numa sequência que acompanha a rotatória desde os tempos idos da Varig – era o utilizado pela tripulação. E, assim, por conseguinte, dado o seu requinte, era o favorito dos passageiros abonados que evitavam o burburinho da Baixa e as altitudes do Bairro Alto; e que tinham no Parque Eduardo VII um “jardim das delícias”, porque estariam próximos da Avenida da Liberdade, não circunscritos aos contratempos dos movimentos urbanos.

Hoje, há sítios e hotéis com mais status. Elas aproximam-se do balcão e exibem um sotaque interiorano paulistano, o “R” retroflexo que também é conhecido como “R caipira” soa-me familiar (morei em São José dos Campos). No entanto, parece um desafio, um desdém ao Marquês de Pombal, hirto lá fora. Trata-se de um símbolo inequívoco de pertencimento, de autenticidade cultural. Eu muito o aprecio. Todavia, houve um tempo em que não foi bem-quisto, ocorre que denotava uma fala rural, associada à falta de instrução e a algum atraso. Fora banido das grandes cidades do Estado, em prol de uma afirmação ou busca de prestígios, ligado a progresso e a boa instrução.

Era curioso estar a ouvir ali, tão próximas da Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, a sonoridade residual de uma língua impedida de prosseguir ativa, aquela de base tupi, como aconteceu com as mais de mil línguas caladas pelo Marquês a reverberar ingenuamente no ambiente. As senhoras, provavelmente, nem sabiam o que estavam a fazer ao falar aquele residual tupi. O “R” retroflexo foi um processo de adaptação articulatória imposto ao povo brasileiro, é em si uma mestiçagem que compreende o vocabulário e a gramática levada a cabo pelos Portugueses, com o esforço de adaptabilidade à regra pombalina, oriundo dos interiores onde havia índios.

Distribuição dos grupos indígenas na costa do Brasil, no século XVI. Em amarelo, os do grupo tupi. (pt.wikipedia.org)
O índio não conseguia assimilar um outro “R” ao seu, a sonoridade das línguas dos índios é muito diferente do “R” europeu, lembra um canto de um pássaro. Subi com as senhoras pelo elevador a ouvir os seus trinados com um silente agrado e depois voltei à rua para ouvir e praticar o idioma oficial designado pelo Marquês. Não pude deixar de notar que o pombal que por ali grassava cedeu-lhe um pombo que pousou justo sobre a sua cabeça, ave que também pia com um “R” renitente.
No passeio, não vi portugueses. Os bancos para assentar estavam vazios de nativos devido ao frio. Fui abordado por norte-americanos a quererem um cigarro; por jovens francesas a quererem saber qual seria o caminho para o Rossio… Ao querer poupar o meu cérebro de ocupar-se com outros idiomas, fui lacónico, acenei: “Avant!” Um alemão apressado a querer abrir caminho e a atravessar minha flânerie (ou passeata) gorjeou: “Entschuldigen Sie, bitte!” E havia escandinavos, japoneses, italianos, gentes outras menos os portugueses. Assim como nos prédios se via as grifes ou marcas de luxo estrangeiras com montras a exibirem artigos impeditivos de os portugueses os comprarem. As fachadas deveras lisboetas, restauradas, elegantes. Um impressionante contraste com a simplicidade lusitana que, noutras décadas, por ali teria encontrado. Eu estava à toa numa nova Lisboa, fadado a, simplesmente, passar defronte de outros mundos.


Por fim, sentei-me num banco. Logo, se sentou ao meu lado um senhor paramentado, num vestuário desportivo, à guisa de poder descansar ligeiramente da sua “performance”. Disse-lhe que se sentisse à vontade. De imediato, disse-me: “Você é mineiro, como eu.” Coisa de sotaque, só o brasileiro sabe perceber a origem do outro, mesmo numa frase curta. Apresentou-se sendo belorizontino, arguiu-me de onde eu vinha, afirmei ser de Juiz de Fora. Um tanto hesitante, porque a sua gente não aprecia muito a “nossa carioquice”, mas ele surpreendeu-me, estava a acompanhar todo o noticiário sobre as inundações que ocorreram na cidade.
Deu-me notícias atualizadas de tudo o que se estava a passar na minha cidade de origem. Ele tinha um sotaque mineiríssimo, desses que todo brasileiro percebe ser mineiro, inclusive utilizava o “Uai!”. Já eu não tanto, até porque, depois de estar a conversar com portugueses e a ponderar com eles as minhas raízes, a minha inclinação em sentir-me português já estava a pensar internamente num português autêntico, europeu, nada afeito a gerúndios. Na verdade, eu não queria estar a pensar em Português brasileiro, daí despedi-me dele e voltei para o hotel, desta vez a conversar com o valete (ou camareiro) e a arrumadeira, que estranhamente eram portugueses, num universo constante de estrangeiros.

linguística, o que deverá ter agradado ao Marquês de Pombal.
(© Lúcio Marques Ferreira)
Senti-me em casa, voltou-me a alegria interior iniciada pela manhã naquela conversa com o feliz Nelson Gonçalves, português. Uma coisa é enternecer-se com o “R” paulista, tupi restante no Português brasileiro, com a simpatia de uma atendente (ou rececionista) curitibana, ou com a disponibilidade noticiosa de um mineiro a serem referencias. Outra coisa é enfrentar o facto de que o Brasil era-me inteiramente distante, porque me encontrava na minha mais do que plena portuguesice existencial e linguística, o que deverá ter agradado ao Marquês de Pombal.
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30/03/2026