A conformidade monótona e de baixo nível

 A conformidade monótona e de baixo nível

(shortwavekitsch.com)

Quando já se desmoronava, na mente de muitos intelectuais, a utopia comunista e as sociedades do chamado “socialismo real” tinham iniciado o seu próprio declínio económico, houve quem (vindo de um e do outro lado dos espectros político-ideológicos) alvitrasse uma nova utopia, que parecia ter mais lógica e menos idealismo.

As experiências extremas do capitalismo e do socialismo (dos comunistas) fracassadas e o nível de conforto alcançado pelas sociais-democracias escandinavas talvez permitissem ir mais longe do que qualquer uma das matrizes que as sustentavam.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Ficaríamos com a possibilidade de crescimento do capitalismo aliado à liberdade individual e à variedade de opções de vida, de um lado. E com as preocupações de um Estado equilibrador das desigualdades, sem anular a iniciativa privada nem a justiça de diferenças entre o que é diferente.

O que se produziu, para já, foi o contrário: o comunismo na China introduziu, no plano económico-social, o pior do capitalismo desenfreado e manteve a ditadura política reforçada; nos países capitalistas, as desigualdades aumentaram e a variedade desapareceu.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Embora em ditadura, em Portugal, no Estado Novo, apesar de só haver cinco estações radiofónicas, era possível escolher o que de tão diferente tinham a Rádio Renascença, o Radio Clube Português, a RFM (Renascença FM), a Emissora Nacional 1 e a Emissora Nacional 2. E, a partir do “marcelismo”1, mesmo no seu interior, era possível escolher programas de géneros musicais muito distintos.

(Créditos fotográficos: Budgeron Bach – pexels.com)

Hoje, tirando alguns nichos muito característicos (do tipo Rádio Amália ou Smooth FM) e, só em parte, a Antena 2, há dezenas e dezenas de postos emissores, mas o que se ouve, durante 24 horas, é, em 99% das vezes, o mesmíssimo! Ou seja, até o que numa ditadura (a falta de diversidade) era mau, agravou-se na unicidade (do mau gosto “democrático”). Quer dizer, provavelmente e tendencialmente, o ser humano escolhe o pior – e massivamente – do que cada sistema, regime ou práticas deles são o pior! E não me parece que estejamos a bater no fundo, nem pouco mais nem menos. É uma onda histórica descendente, vertiginosa.

Não tarda, andaremos com as fardas à Mao Tsé-Tung vendidas apenas com diferentes etiquetas de marcas. Enquanto, nas tumbas, riem Hitler2, das guerras de carnificina, e Josef Stalin, das purgas de quem se atreveu a pensar diferente, o mínimo que seja! Quem tiver discos e livros guarde-os religiosamente. Nos audiovisuais e na Web não encontrará nada fora da nova ordem mundial.

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Notas da Redacção:

1 – Marcelismo: projecto político de Marcello Caetano, entre 1968 e1974, sucessor de António de Oliveira Salazar e caracterizado pela “evolução na continuidade”.

2 – Adolf Hitler não tem um túmulo conhecido, pois os seus restos mortais terão sido cremados pelos soviéticos em 1970 e as cinzas talvez lançadas num rio afluente do Elba, na Alemanha.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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26/’02/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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