A conformidade monótona e de baixo nível
(shortwavekitsch.com)
Quando já se desmoronava, na mente de muitos intelectuais, a utopia comunista e as sociedades do chamado “socialismo real” tinham iniciado o seu próprio declínio económico, houve quem (vindo de um e do outro lado dos espectros político-ideológicos) alvitrasse uma nova utopia, que parecia ter mais lógica e menos idealismo.
As experiências extremas do capitalismo e do socialismo (dos comunistas) fracassadas e o nível de conforto alcançado pelas sociais-democracias escandinavas talvez permitissem ir mais longe do que qualquer uma das matrizes que as sustentavam.

Ficaríamos com a possibilidade de crescimento do capitalismo aliado à liberdade individual e à variedade de opções de vida, de um lado. E com as preocupações de um Estado equilibrador das desigualdades, sem anular a iniciativa privada nem a justiça de diferenças entre o que é diferente.
O que se produziu, para já, foi o contrário: o comunismo na China introduziu, no plano económico-social, o pior do capitalismo desenfreado e manteve a ditadura política reforçada; nos países capitalistas, as desigualdades aumentaram e a variedade desapareceu.

Embora em ditadura, em Portugal, no Estado Novo, apesar de só haver cinco estações radiofónicas, era possível escolher o que de tão diferente tinham a Rádio Renascença, o Radio Clube Português, a RFM (Renascença FM), a Emissora Nacional 1 e a Emissora Nacional 2. E, a partir do “marcelismo”1, mesmo no seu interior, era possível escolher programas de géneros musicais muito distintos.

Hoje, tirando alguns nichos muito característicos (do tipo Rádio Amália ou Smooth FM) e, só em parte, a Antena 2, há dezenas e dezenas de postos emissores, mas o que se ouve, durante 24 horas, é, em 99% das vezes, o mesmíssimo! Ou seja, até o que numa ditadura (a falta de diversidade) era mau, agravou-se na unicidade (do mau gosto “democrático”). Quer dizer, provavelmente e tendencialmente, o ser humano escolhe o pior – e massivamente – do que cada sistema, regime ou práticas deles são o pior! E não me parece que estejamos a bater no fundo, nem pouco mais nem menos. É uma onda histórica descendente, vertiginosa.
Não tarda, andaremos com as fardas à Mao Tsé-Tung vendidas apenas com diferentes etiquetas de marcas. Enquanto, nas tumbas, riem Hitler2, das guerras de carnificina, e Josef Stalin, das purgas de quem se atreveu a pensar diferente, o mínimo que seja! Quem tiver discos e livros guarde-os religiosamente. Nos audiovisuais e na Web não encontrará nada fora da nova ordem mundial.
.
………………………….
.
Notas da Redacção:
1 – Marcelismo: projecto político de Marcello Caetano, entre 1968 e1974, sucessor de António de Oliveira Salazar e caracterizado pela “evolução na continuidade”.
2 – Adolf Hitler não tem um túmulo conhecido, pois os seus restos mortais terão sido cremados pelos soviéticos em 1970 e as cinzas talvez lançadas num rio afluente do Elba, na Alemanha.
.
………………………….
.
Nota do Director:
O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.
.
26/’02/2026