A difícil solução
Não é a primeira vez que acontece uma revolução tecnológica e esperemos que não seja a última, para bem da Humanidade. No entanto, há cada vez mais pessoas preocupadas com o fulgurante crescimento da utilização da inteligência artificial (IA) em cada vez mais domínios.
É certo que já aconteceram muitas revoluções tecnológicas no passado. Talvez, por isso, tenhamos medo do que está para vir, pois raras vezes as revoluções são pacíficas. De facto, quase sempre, as revoluções tecnológicas têm, pelo menos inicialmente, um efeito destrutivo. Pois, ou são utilizadas para fins bélicos – tomemos como exemplo o arco e flecha, as espadas, as armas de fogo, as aeronaves tripuladas, os drones, a energia nuclear – ou levam à destruição de muitíssimos empregos, tal como aconteceu com a mecanização, a eletricidade ou a própria informática.

No entanto, a sociedade adapta-se e a História mostra que, apesar de mudanças mais ou menos radicais, cada nova tecnologia conduziu, com o passar do tempo, à criação de mais emprego, de mais desenvolvimento e de mais riqueza.
Mas agora, com a IA, há duas características únicas, que fazem antever uma revolução de dimensão muito maior e, segundo alguns, muito mais devastadora. Por um lado, as mudanças provocadas pela IA estão a ocorrer a uma velocidade extremamente elevada, pondo em risco a capacidade de adaptação. Por outro lado, pela primeira vez, o impacto desta tecnologia não está centrado no trabalho manual, mas, sobretudo, nas profissões intelectuais e criativas que, desde sempre, estiveram protegidas de eventuais efeitos negativos da automação.
A principal ameaça da inteligência artificial ao emprego resulta da sua capacidade para executar tarefas cognitivas. Os atuais sistemas de IA conseguem redigir textos, produzir imagens fixas ou em movimento, analisar documentos jurídicos, responder a clientes, traduzir línguas, gerar software, interpretar exames médicos ou tomar decisões com base em grandes quantidades de dados. Muitas destas atividades eram, até aqui, exclusivamente desempenhadas por trabalhadores qualificados. Além disso, as capacidades dos sistemas de IA estão em rápido crescimento, pelo que muitas outras áreas de atividade poderão estar ameaçadas a muito breve trecho.

Infelizmente, porque se trata de um fenómeno global, também em Portugal se começam já a sentir os efeitos da IA, que se traduzem em despedimentos e menos emprego. Áreas administrativas e de escritório estão entre as mais afetadas. Funções relacionadas com introdução de dados, processamento documental, apoio básico ao cliente, contabilidade simples e secretariado, já estão a ser substituídas por sistemas automáticos. Em muitos casos, uma única plataforma de IA permite, hoje, realizar em minutos tarefas que anteriormente exigiam equipas inteiras trabalhando ao longo de vários dias ou semanas.
O setor dos serviços é outro exemplo de área particularmente afetada. Chatbots avançados e assistentes virtuais reduzem a necessidade de operadores humanos em call centers, no apoio técnico e no atendimento comercial. No comércio, são já frequentes as caixas automáticas e os sistemas inteligentes de gestão, que diminuem a necessidade de pessoal. Na banca e nos seguros, sistemas de IA conseguem avaliar riscos, detetar fraudes e processar contratos com a mínima intervenção humana. Além disso, também já certas profissões criativas começam a sentir pressão. Designers gráficos, ilustradores, produtores de conteúdos e tradutores enfrentam concorrência crescente de ferramentas capazes de gerar resultados rápidos e baratos.

Embora a qualidade do trabalho humano feito por profissionais competentes continue a ser, em muitos casos, superior ao trabalho realizado por IA, muitas empresas preferem soluções automáticas, já que adotam como seu principal objetivo a maximização do lucro, através da redução de custos. E é nos custos que, para muitíssimas empresas, está o cerne da questão. A visão imediatista do mercado exige a redução dos custos, mesmo que isso represente uma menor qualidade dos serviços prestados. Os bilionários da IA prometem redução de custos a um elevadíssimo número de empresas, ainda que isso vá provocar, no curto-médio prazo, o desaparecimento de uma elevada percentagem de empregos em todo o Mundo. No entanto, sem empregos, não haverá capacidade económica das pessoas e, portanto, não haverá clientes. Ao privilegiarem a redução de custos, as empresas estão a pensar no imediato e a comprometer o seu próprio futuro.
Mas haverá solução para este enorme problema, que ameaça a nossa sociedade e que está a levar a que pessoas com projeção mundial – como o próprio Papa Leão XIV – comecem a levantar a voz no sentido de alertar a Humanidade para os perigos da IA?
Ainda que, como primeiro impulso, se pense que a solução reside em travar a revolução da IA, a História mostra que impedir a inovação raramente funciona. A única solução é, pois, preparar a sociedade para a transformação que está já em marcha, através da educação e da formação contínua, reforçando a aquisição de competências ao longo de toda a vida profissional. Em paralelo, poderá ser útil proceder a alguma regulação, definindo regras éticas e sociais para a utilização da IA.

Mas, se é certo que uma sociedade orientada apenas para a redução de custos tenderá a usar inteligência artificial para eliminar empregos, não é menos certo que uma sociedade orientada para qualidade de vida poderá usar essa mesma IA para criar outros empregos, apostando mais em competências difíceis de automatizar, como o pensamento crítico, a criatividade, a comunicação, a capacidade de adaptação, o trabalho interdisciplinar e a inteligência emocional.
Em resumo, a solução fácil é aquela a que começamos a assistir na nossa sociedade: cortar empregos. A difícil – a única racional, que não põe em causa o futuro da sociedade – exige um grande empenho por parte das empresas, das escolas e dos governos: educação e formação. Resta saber se teremos visão para a colocar em prática.
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01/06/2026