A escola mata a criatividade! (2)
(Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)
Tal como prometi, regresso ao tema do artigo anterior, polémico e bem complexo.
De acordo com uma pesquisadora chamada Martina Leibovici-Mühlberger1, que foi responsável pelo estudo “Buenos Días, Creatividad”, as crianças nascem com uma incrível capacidade de aprender, de pensar e de interagir com o mundo, de forma criativa. Nesse estudo, ela defende que a criatividade não é um dom inato reservado a poucos, mas uma capacidade que pode ser despertada, treinada e aplicada conscientemente no quotidiano, no trabalho e na aprendizagem; porque todos podemos ser criativos, embora, por vezes, tal capacidade seja inibida por hábitos errados: o medo do erro, uma educação rígida, as rotinas mecânicas.

No aludido estudo, defende ainda ser possível estimular a criatividade através de métodos e de exercícios, como mudanças de perspectiva, questionamento de pressupostos, seja através do jogo seja pela experimentação e pela aceitação do aceitação do erro. E conclui que o pensamento criativo exige sempre uma atitude activa, abertura ao inesperado e disposição para sair da zona de conforto em que, facilmente, nos instalamos. Porém, segundo este estudo, apenas 2% das pessoas demonstra a mesma capacidade criativa na idade adulta.
De acordo com o Fórum Económico Mundial, em 2023, o pensamento criativo foi reconhecido como a segunda habilidade mais valorizada pelo mercado. Considerando uma pesquisa nesse contexto, 60% das empresas considera a criatividade uma habilidade essencial para o trabalho. Estes dados não podem ser desvalorizados, nem esquecidos.

Também no livro intitulado “How Creativity Works”, o norte-americano Jonah Lehrer2 observa que 95% dos alunos no segundo ano são criativos, uma vez que eles desenham, pintam e criam diversas histórias. No entanto, no quinto ano, esta percentagem cai para 50%. E o mesmo autor concluiu que, no ensino médio, só 10% dos alunos são considerados criativos.
Poderemos, legitimamente, perguntar: serão as escolas e os professores, responsáveis pelo declínio da criatividade dos alunos? Existirão, certamente, diversas razões; e a escola e os professores estarão longe de serem os únicos responsáveis. Podemos evocar, primeiramente, uma explicação biológica. Sabemos que os cérebros dos humanos são órgãos plásticos e que as maiores modificações ocorrem no período da infância.
É importante compreender o desenvolvimento do cérebro, especialmente as suas relações com o desenvolvimento de habilidades e de comportamentos, nas diferentes idades de crescimento da criança. Uma região específica que se modifica rapidamente é o córtex pré-frontal. Dizem os cientistas que esta área, localizada na parte anterior do cérebro, é responsável pelas funções executivas e que abriga circuitos neuronais responsáveis por habilidades cognitivas necessárias para controlar pensamentos, emoções e acções.

Haverá, decerto, quem possa pensar que o cérebro tem um padrão de crescimento linear. No entanto, parece não ser isso o que acontece, porque ocorre, na verdade, um amadurecimento desigual das várias áreas. Contudo, o córtex pré-frontal, que inibe ou controla acções impulsivas, só atinge pleno desenvolvimento cerca de uma década depois do início da vida escolar. No ensino infantil, o córtex pré-frontal não exerce nenhuma acção de controlo sobre os impulsos e as acções da criança. Por isso, as crianças criam de forma tranquila e com todo o prazer.
Assim, as escolas e os professores podem ou não podem ajudar a desenvolver a criatividade? Claro que podem. E ajudarão sempre que usarem estratégias fomentadoras do diálogo; que incentivarem a leitura; que promoverem o acesso a diferentes expressões artísticas; que apostarem nos passeios e nas visitas de estudo; que aumentarem o contacto com a Natureza; que valorizarem o desporto; que favorecerem o acto de brincar de maneira analógica, usando materiais visuais, mas palpáveis; e que reduzirem o tempo de uso de telas e de computadores.

Talvez a escola, hoje, não mate completamente a criatividade! Mas há quem diga que ajuda a escondê-la! A prova é que muitos alunos só voltam a ser criativos fora da escola, quando, finalmente, têm possibilidade de mostrar a sua criatividade na expressão plástica, na escrita, na música; sobretudo, numa altura em que já se sentem fora do controlo de mestres, quantos deles altamente castradores!
.
………………………….
.
Notas:
1 – Martina Leibovici-Mühlberger estudou Medicina, Psicologia e Biologia Humana. É ginecologista e psicoterapeuta, com diversas qualificações adicionais; e participa activamente no Grupo de Trabalho do Parlamento Europeu sobre a Qualidade da Infância, desde 2007.
2 – Jonah Richard Lehrer nasceu em 1981, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América. Formou-se em neurociências na Universidade de Columbia, onde trabalhou no laboratório de Eric Kandel, a examinar os processos biológicos da memória e o que acontece no cérebro ao nível molecular, quando alguém se lembra ou esquece de informação. Recebeu uma bolsa Rhodes em 2003, tendo entrado no Wolfson College, em Oxford, onde estudou Filosofia e Literatura do século XX (ao invés da Filosofia, da Fisiologia e da Psicologia, que tinha planeado estudar. É autor de três best-sellers: “Proust Was a Neuroscientist” (de 2007), “How We Decide” (de 2009) e “Imagine: How Creativity Works” (de 2012).
.
………………………….
.
Nota da Redacção:
Este artigo foi publicado no jornal Mirante, de Miranda do Corvo, na edição de Fevereiro de 2026.
.
09/02/2026