A escola mata a criatividade!
(Créditos fotográficos: Elizaveta Tarasova/Banco Mundial – blogs.worldbank.org)
“Quando as crianças vão para a escola são pontos de interrogação. Quando saem da escola são frases feitas!” (Neil Postman)
Quando decidi escrever sobre o tema de hoje, recordei uma obra de Roger Von Oech, intitulada “Um ´Toc na Cuca – Técnicas para Quem Quer Ter Mais Criatividade na Vida”, publicada pelas edições De Cultura e que, hoje, qualquer leitor pode ler, pois ela está ao seu alcance em PDF, no Google, com um simples clique. Lembro-me de um texto em que este autor conta a história de um professor do ensino médio que, um dia, faz uma pequena marca de giz no quadro e perguntou à turma: o que é isto? A turma ficou em silêncio.

Passados alguns segundos, que pareceram uma eternidade, alguém respondeu que aquilo era uma marca de giz no quadro. E todos respiraram de alívio! Mas o professor acrescentou: “Vocês surpreendem-me! Ontem fiz o mesmo exercício com uma turma do jardim de infância e eles pensaram em cinquenta coisas diferentes! Que era o olho de uma coruja, o topo de um poste telefónico, uma estrela, uma pedrinha, um insecto esmagado, um ovo podre. E muito mais coisas uma vez que estavam com a sua imaginação a vapor!”
Será mesmo verdade que a escola mata a criatividade? Terá razão Neil Postman, citado em epígrafe, quando defende que as crianças são pontos de interrogação quando entram na escola e frases feitas quando saem?
Os sistemas educativos europeus são herdados da Revolução Industrial e todos parecem, sobretudo, apostar na padronização, na memorização e em avaliações lineares e iguais para todos, desvalorizando as artes e os talentos individuais. Ou seja, dão lugar privilegiado às disciplinas que mais ajudam a entrar no mercado de trabalho, mas desconsiderando o pensamento divergente, a curiosidade e a exploração de ideias diversas.

Na escola de hoje, continuamos a ter um processo mecânico e coercitivo, já que a escola parece continuar a tratar os alunos como produtos de uma linha de montagem, em que todos devem ter o mesmo ritmo, ignorando que as crianças e os jovens têm ritmos e talentos diferentes e diferentes formas de aprendizagem.
O que a escola continua a priorizar é o conhecimento lógico matemático e linguístico. E o importante para os sistemas educativos é que os alunos e as alunas passem nos exames. No Mundo Ocidental, todos os países têm a mesma hierarquia de disciplinas. Primeiro a Matemática e as Línguas, argumentando que são as disciplinas que melhor preparam os jovens para o mercado de trabalho. Depois seguem-se as Ciências Humanas. E no terceiro lugar temos as Artes, em que, nestas, a Música tem muito mais importância do que o Teatro ou a Dança. Podemos dar as voltas que quisermos e não encontramos nenhum sistema educativo no planeta que ensine Dança às crianças com a mesma força que ensina Matemática.

Como defende Ken Robinson (ver: “Ted Talks – Sir Ken Robinson. Do schools kill creativity?”), a escola tem de educar para a criatividade e para a imprevisibilidade. Educar para a criatividade é, hoje, tão importante como educar para qualquer literacia. Este autor conta até, no vídeo citado, a história de um menino de seis anos que pouco ligava à escola, mas gostava muito de desenhar. Um dia, o professor olhou para o seu trabalho com mais atenção e perguntou-lhe o que estava a desenhar. Ele respondeu que estava a desenhar Deus. O professor, admirado ripostou: “Mas ninguém conhece a aparência de Deus!” E o menino respondeu: “Mas vão conhecer daqui a um minuto!”

O mesmo autor defende que, à medida que as crianças crescem, começamos a educá-las da cintura para cima, salientando que focamos, principalmente, a cabeça. Só levemente, diz ele, educamos para os lados. Por isso, conclui que precisamos de mudar radicalmente a nossa visão sobre a inteligência, porque esta é distinta, é variada (pensamos de forma auditiva, visual e sinestesicamente; pensamos em termos abstractos, pensamos em movimento). É dinâmica e interactiva, porque o cérebro não tem compartimentos.
Acontece, diz ainda Ken Robinson, que os sistemas educativos têm explorado as mentes como os humanos têm explorado os recursos da Terra. Ora, isso não serve para o futuro. Os actuais professores e os adultos não verão o futuro. Mas as crianças e os jovens verão! Eduquemo-las então para esse futuro.
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Nota da Redacção:
Este artigo foi publicado no jornal Mirante, de Miranda do Corvo, na edição de Janeiro de 2026.
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05/01/2026