A panela de pressão

 A panela de pressão

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Conta a história que, se atirarmos um sapo para dentro de uma panela com água a ferver, o sapo salta e salva a sua vida. Contudo, se colocarmos o sapo na panela com água fria e a aquecermos pouco a pouco, o sapo vai-se deixando ficar. E deixa-se cozinhar até à morte. Não existe uma grande base científica para este conto – senão a lei da evolução não funcionaria muito bem –, mas, enquanto parábola da natureza humana, continua a ser bem esgalhada.

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Gostamos de deixar andar até a água ferver. E, depois, é um Deus me livre! Os governos e os mercados, criados e geridos por pessoas, não são diferentes. Os problemas estruturais vão-se arrastando e as pessoas vão sobrevivendo até que não aguentam mais. Como na questão da habitação, que já não é água a ferver, mas sim uma verdadeira panela de pressão. E, quando não há uma saída para a pressão, a única solução é uma explosão.

Lembremo-nos de Maricarmen Abascal, despejada aos 87 anos em Madrid e que acabou por morrer num hospital, fora da casa onde viveu mais de 70 anos. Esta senhora vivia já na mesma casa décadas antes do 25 de Abril. Mas a renda não perdoa. Um exemplo de histórias que explicam a revolta por trás das manifestações e protestos com a instalação de tendas em praças estratégicas em Portugal. Ou os motins e saques de lojas em França. Sinais de um povo que já não aguenta mais.

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Com subidas de preços nos produtos básicos e a impossibilidade de comprar a própria casa, são vidas adiadas e futuros comprometidos. Os benefícios do mercado e do crescimento económico são recebidos pelas empresas e por quem já controla o capital. O povo – o tal que ordenava em Grândola, vila morena – sente-se cada vez mais espremido. Por isso, a democracia treme.

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Treme porque estes problemas são sistémicos e porque os sucessivos governos pouco ou nada fizeram para evitar a acumulação dos problemas que nos trouxeram até aqui. Na habitação, por exemplo, permitiram que fundos abutres assumissem o controlo de casas para arrendar. Que os pisos turísticos se tornassem uma mina de ouro à custa da vida local. Que a cultura local se ajoelhasse perante o lucro. E, como não há solução à vista, soltam-se acusações de um lado e do outro das bancadas parlamentares.

Se as acusações abundam, faltam respostas. E quando não há nada construtivo a anunciar, recorre-se à força. Esta é a razão que encontro para justificar as cargas policiais nas manifestações em Portugal. Pessoas que tentam uma forma pacífica de manifestar a serem encaradas por polícias vestidos de negro, com escudos, capacetes e cara tapada. De bastão na mão, assim se vence a manifestação. Se esta é a reação perante uma acampada, seria interessante saber como é que se lidaria com situações como as da violência em França. Se calhar a tiro. Como sempre, tenta-se criar uma imagem dos manifestantes como um “outro”. Porque se vestem dessa maneira ou são infiltrados em movimentos políticos, já que não há nenhum motivo de queixa.

Enquanto a situação se resolve à bastonada, os órgãos de comunicação social partilham o ruído habitual. Que o Estado de direito tem de ser protegido, que os emigrantes têm a culpa, que o problema está na lei das manifestações. Quem precisa de respostas, quando se pode apelar ao ódio de sempre? Acho que já ninguém espera heróis dos nossos políticos, mas, perante uma crise, era bom ver um mínimo de liderança, uma visão de futuro que nos leve além do problema imediato. Do pouco que sai do Governo e ou da Presidência da República, nada inspira. Porque o problema não é uma meia dúzia de tendas numa praça. São as décadas de decisões (ou a falta delas) que estas tendas representam. A pergunta por detrás das manifestações é simples: “Não dá mais e, agora, o que fazemos?” A resposta não pode ser uma traulitada. 

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A ausência de soluções não é uma inevitabilidade. É, sim, a consequência de uma acumulação de escolhas políticas que deixaram o país chegar a este extremo. É possível explorar alternativas: criar incentivos à construção ou à renovação de casas abandonadas pelos proprietários; tentar descentralizar a vida económica dos grandes centros urbanos; intervenção direta do setor público na gestão de parques habitacionais urbanos. Se funcionam ou não, ninguém pode ter a certeza. Porém, seria melhor tentar algo novo a persistir no erro de considerar que estas manifestações são casos isolados.

Na parábola, o sapo morre por não saltar. Ninguém conta o que acontece ao que salta e dá com a tampa. Em frente à Assembleia da República, em São Bento, já sabemos: escudos, capacetes, bastões. A pressão só vai continuar a subir.

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02/11/2026

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Marco Dias Roque

Jornalista convertido em “product manager”. Formado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, com uma passagem fugaz pelo jornalismo, seguida de uma experiência no mundo dos videojogos, acabou por aterrar no mundo da gestão de risco e “compliance”, onde gere produtos que ajudam a prevenir a lavagem de dinheiro e a evasão de sanções. Atualmente, vive em Londres, depois de passar por Madrid e Barcelona. Escreve sobre tudo o que passe pela cabeça de um emigrante, com um gosto especial pela política e as observações do dia a dia.

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