A propósito das últimas eleições legislativas

 A propósito das últimas eleições legislativas

(blog.lifetraining.com.pt)

Considerações sobre alguns processos de influência social

A verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. […] Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho. (Friedrich Nietzsche)

.

Os humanos são, por natureza, seres sociais. É normal que, vivendo em sociedade, cada um de nós sinta influência nos seus comportamentos, nas suas decisões, nos seus juízos de valor.

(terra.com.br)

Mas, quais serão os processos que, hoje, mais nos influenciam? Como decidimos, por exemplo, o voto nas últimas eleições legislativas em Portugal? Será que todos votámos livremente? Não terão algumas pessoas votado contra valores em que acreditam? O que tivemos em 18 de Maio, votos ditados pelo conformismo e pela obediência cega ou votos inconformados e de revolta?

Enquanto escrevo esta introdução, dou por mim a trautear uma  canção de Sérgio Godinho: “Que força é essa? Que força é essa? / Que trazes nos braços? / Que só te serve para obedecer? / Que só te manda obedecer? / Que força é essa, amigo? / Que força é essa, amigo? […]”

Um retrato de 1617, feito por Paul van Somer, de Sir Francis
Bacon (1561-1626), o filósofo, estadista e autor inglês (Palácio Łazienki,
Varsóvia). (worldhistory.org)

Sendo professor de Filosofia, ninguém levará  a mal que recorra aos filósofos. E imediatamente me lembrei de dois autores nucleares da Modernidade: Francis Bacon e Immanuel Kant. Evocarei aqui o contributo de Francis Bacon (1561-1626) a propósito da sua Teoria dos Ídolos, abordada na sua obra “Novum Organon”. De Immanuel Kant (1724-1804) evocarei o texto em que ele  procura responder à pergunta: “O que é o Iluminismo ou o que são as luzes?”

Os ídolos, segundo Francis Bacon, são noções falsas que invadem o nosso intelecto e que nos dificultam o acesso à verdade. Os ídolos têm, até, o alcance de incomodar no processo de instauração das ciências, desde que os humanos não se disponham a combatê-los. Por isso, ao construir a sua teoria dos ídolos,  Bacon quer consciencializar os homens e as mulheres das falsas noções que  lhes barram o caminho no rumo  para a verdade.

A primeira etapa, defende Bacon, é identificar os ídolos para posteriormente nos libertarmos deles. Segundo Bacon os ídolos são de quatro tipos: [1] Ídolos da tribo; [2] ídolos da caverna; [3] ídolos do foro ou do mercado ; [4] ídolos do teatro. Quanto melhor conhecermos estes ídolos melhor conseguiremos expulsá-los do nosso espírito e mais livre de amarras nocivas será a nossa mente.

[1] Os ídolos da tribo são os que resultam da natureza humana, a qual, sendo imperfeita, distorce e corrompe as coisas devido aos limites naturais da própria razão. O ser humano não possui um lugar privilegiado no universo e, por isso, não há nada no universo que lhe permita conhecê-lo na sua perfeição e totalidade.

Os falsos ídolos, segundo Francis Bacon. (netmundi.org)

[2] Os ídolos da caverna resultam das características individuais, ou seja, da constituição física e mental de cada um, da sua experiência de vida, da sua educação e do seu meio. Estes ídolos prejudicariam o processo de conhecimento da realidade. Há, aqui, uma óbvia referência ao mito da Caverna de Platão. Mas poderemos, neste contexto, recordar parte de uma célebre frase de José Ortega Y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância […]”

[3] Os ídolos do foro (ou do mercado) são resultado da linguagem, comunicação e do discurso, ou seja, as palavras podem perturbar o intelecto e arrastá-lo a diversas controvérsias.

Finalmente, [4] os ídolos do teatro são resultantes das doutrinas filosóficas e científicas, as quais criam mundos fictícios e teatrais, que muitas vezes aceitamos. Bacon referia-se, principalmente, à Filosofia Escolástica. Obviamente, seria impossível desfazer-se de todos os ídolos, mas, conhecendo sua natureza, poderíamos combatê-los.

Tendo consciência dos ídolos que bloqueiam a mente humana, seria necessário ao ser humano despir-se de seus preconceitos, tornando-se uma “criança diante da Natureza” para, assim, alcançar o verdadeiro saber. A partir de então, Bacon propôs um novo método científico. Esse método tem por base a indução, a qual, baseada nas observações e na experiência, permite conhecer a regularidade, o funcionamento e as relações entre os fenómenos da Natureza, formulando, dessa forma, as leis científicas. Essa ciência possibilitaria o controlo total da Natureza para, assim, beneficiar o ser humano, fazendo previsões e desenvolvendo instrumentos técnicos – extensões dos nossos membros que ajudam a superar as nossas limitações. Dessa maneira, o progresso do conhecimento significaria o progresso da Humanidade. Por isso, a sua famosa frase: “Saber é poder.”

Aqui chegados, algumas perguntas se impõem:  Qual destes ídolos terá mais peso nas nossas vidas?  Se escrevesse  hoje, Bacon não teria acrescentado como exemplo de ídolos do teatro as doutrinas político-partidárias?

Immanuel Kant (filosofiaempreendedora.com)

A propósito  desta  questão – “Política do Conformismo e da Obediência” –, não podemos ignorar um texto fundamental da Filosofia Moderna. Referimo-nos a um texto de 1784, da autoria de Immanuel Kant, e que continua a ter grande  atualidade. Um texto em que o filósofo procura responder à questão: O que é o Iluminismo ou o que são as luzes? O texto,  sobejamente conhecido, é longo e qualquer leitor pode, facilmente, encontrá-lo, batendo à porta do senhor Google. Deixo apenas alguns aperitivos, mas aviso que a minha escolha não será inocente.

Kant começa por clarificar o conceito de esclarecimento: Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem da sua menoridade, pela qual ele próprio é responsável. A menoridade é a incapacidade de se servir do seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa menoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar o seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Ousa saber, tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento.”

(amenteemaravilhosa.com.br)

Esclarecido este conceito, o autor procura dizer-nos as causas desta menoridade, que é, segundo ele, uma espécie de segunda natureza: “A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma parte tão grande dos homens, libertos há muito pela natureza de toda tutela alheia, comprazem-se em permanecer por toda sua vida menores; e é por isso que é tão fácil a outros instituírem-se seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se possuo um livro que possui entendimento por mim, um diretor espiritual que possui consciência em meu lugar, um médico que decida acerca de meu regime, etc., não preciso eu mesmo de esforçar-me. Não sou obrigado a refletir, se é suficiente pagar; outros se encarregarão por mim da aborrecida tarefa. […]”

(lcmtreinamento.com.br)

Não deixa de ser interessante que, no final deste texto, Kant faça a  pergunta: “Vivemos agora numa época esclarecida?” E a sua resposta não deixa de ser curiosa: “Não vivemos numa época de esclarecimento. Falta ainda muito para que os homens, nas condições atuais, tomados em conjunto, estejam já numa situação, ou possam ser colocados nela, na qual em matéria religiosa sejam capazes de fazer uso seguro e bom do seu próprio entendimento, sem serem dirigidos por outrem.”

Noam Chomsky (britannica.com)

Esta pergunta de Kant – “Vivemos agora numa época esclarecida?” –  continua muito atual. Nome incontornável nesta temática é Noam Chomsky, pensador que dispensa apresentações. Este, num dos seus textos mais conhecidos, apresenta “As Dez Estratégias de Manipulação”.

Se aqui invocamos o autor é porque há, hoje, muitos portugueses que justificam os últimos resultados eleitorais como sendo fruto de várias manipulações. As dez estratégias estão amplamente divulgadas, mas convém recordá-las sinteticamente. Seguiremos a divulgação feita pelo autor francês Sylvain Timsit:

(amenteemaravilhosa.com.br)
  1. Distração. O que interessa é desviar a atenção das coisas que realmente importam. Outrora, em Portugal, falávamos dos “três efes”: fado, futebol e Fátima. Hoje, pontifica o futebol. Chega a ser assustador o número de horas dos canais televisivos portugueses dedicadas ao futebol. Canal que se preza tem os seus “paineleiros” de estimação e qual deles o mais odiado ou o mais amado! Como diziam os Romanos, o povo quer é pão e circo. O importante é ter a manada distraída! Ocupar as mentes com coisas inúteis.
  2. Criar um problema; suscitar uma reação, apresentar uma solução. Aqui, temos exemplos aos milhares. Recordemos alguns recentes na campanha eleitoral: a reforma da Segurança Social; as acusações entre os principais candidatos à cadeira do poder.
  3. Processo gradativo. Está na linha do anterior: cria-se um problema; cria-se um clima público que torne aceitável o que, antes, eram medidas antipopulares.
  4. Estratégia do diferir. Para mais facilmente aprovar medidas impopulares, invocam-se os sacrifícios do futuro. Todos nós recordamos os tempos de má memória da Troyka. Ainda hoje, muitos continuam com discursos idênticos.
  5. Infantilização. Quanto mais simples o discurso, mais difícil se torna rebatê-lo. E adultos tratados como crianças tendem a responder como crianças. A publicidade trata-nos como crianças ou, às vezes, como atrasados mentais. Na realidade, grande parte dos discursos de alguns políticos seguem o mesmo caminho!
  6. Apelo ao sentimentalismo e ao temor. O afeto atrai, o temor afasta.  Usa-se mais o emocional do que o racional. Consideremos algumas das reportagens televisivas em que ouvimos os pais dos filhos que caíram na droga. Ou recordemos a vitimização em direto feita, recentemente, pelo candidato do partido Chega.
  7. Valorização da ignorância. Donald  Trump, Jair Bolsonaro, André Ventura, entre muitos outros, são  três mestres nesta matéria. Valorizando a “burrice” só se valorizam a si próprios. Por isso, tais mestres defendem que a qualidade da educação, dada às classes sociais menos favorecidas, deve, assim, ser a mais pobre e medíocre possível, para que a distância – a nível de conhecimento – entre a classe dominante e as menos favorecidas permaneça impossível de ultrapassar.
  8. Desprestigiar a inteligência, como complemento,  com apelos fáceis aos que são mais pobres, material e intelectualmente falando. Passa pela divulgação preferencial de conteúdos medíocres de programas do tipo  “Casa dos Segredos”, ou  qualquer telenovela rasca e pela coroação de ícones populares que, em geral, não devem demasiado à cultura nem à inteligência. Cá, em Portugal, parece que tem funcionado bastante bem. Exemplos recentes são a prova provada.
  9. Reforçar a autoculpabilização.  Trata-se de fazer-nos acreditar que somos culpados da nossa própria desgraça, seja por falta de inteligência, de capacidade, de esforço ou de moralidade. O truque é antigo e anda por cá, pelo menos, desde os primórdios da religião católica. De facto, quantas vezes nos têm dado mais ou menos subtilmente a entender que a culpa da crise é nossa, e que não devíamos ter ido de férias no ano passado, nem comprado aquele casaco ou telemóvel? Desta forma, em vez de nos revoltarmos contra o sistema económico propriamente dito ou contra quem é, realmente, responsável pelo seu colapso, culpamo-nos a nós próprios: o estado depressivo que daí advém resulta, geralmente, na inibição da ação. E sem ação não há revolução. 
  10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles próprios. Graças à Biologia, à Neurobiologia e à Psicologia Aplicada, essas elites têm desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, em ambos os aspetos físico e psicológico. Neste momento, a classe dominante conhece melhor o indivíduo comum do que ele próprio. Isso significa que, na maioria dos casos, esta exerce um poder sobre os indivíduos bastante maior do que aquele que os indivíduos exercem sobre si mesmos.
(pragmatismopolitico.com.br)

Um outro autor incontornável é Umberto Eco. Ficaram célebres as declarações que fez a 10 de Junho de 2015, no dia em que recebeu o grau de Doutor Honoris Causa em Comunicação e Cultura, pela Universidade de Turim. Segundo ele, “as redes sociais deram, hoje, o direito à palavra a uma legião de imbecis”.  Antes, diz Eco, “tais imbecis falavam nos bares depois de umas taças de vinho, mas eram imediatamente calados”. Observando também: “Hoje, contudo, essa gente tem o mesmo direito à palavra do que um Prémio Nobel.” E Umberto Eco foi ainda mais longe na crítica, quando declarou que, “antes das redes sociais, a televisão já tinha colocado o idiota da aldeia num patamar em que este se sentia superior”. Hoje, remata Umberto Eco, “a Internet promoveu o idiotada aldeia a detentor da verdade”. É claro que temos de dar o devido desconto a estas teses de Eco que podemos acusar de um certo elitismo. Mas a caricatura que nos deixa deve fazer pensar.

Umberto Eco (films4you.pt)

Já agora, convém recordar outro pensamento desse autor, expresso numa entrevista à Revista Época, em 2011: “O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. […] Os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.”

Como remate final, quero evocar Eduardo Galeano, um pensador sobejamente conhecido, que escreveu, num dos seus livros, que vivemos num mundo infame, muito pouco alentador: “Mas há outro mundo na barriga deste, esperando. Que é um mundo diferente. Diferente e de parto difícil. Não nasce facilmente. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos.” A obra “De Pernas para o Ar. A Escola do Mundo às Avessas”, de Eduardo Galeano, é um livro que todos devíamos ler. Porque nos incita a desobedecer, quando recebermos ordens que humilhem a nossa consciência ou que violem o nosso sentido comum. Foi o mesmo Galeano que escreveu: “Há cento e trinta anos, depois de visitar o país das maravilhas, Alice meteu-se no espelho para ver o mundo às avessas. Se Alice renascesse nos nossos dias, não precisaria de atravessar nenhum espelho: bastar-lhe-ia pôr-se à janela.”

Eduardo Galeano (pt.wikipedia.org)

Nunca, em tempo algum, existiram donos da verdade. A verdade é, cada vez mais, uma procura coletiva. Mas essa procura deve ser regida, também cada vez mais, por aquilo que Karl Otto Apel e Jürgen Habermas chamaram “código deontológico da comunicação argumentativa”. E que defendem esses autores? Dizem eles: “Todos os participantes no discurso devem ter amor à verdade, empenhar-se na sua procura, conformando e adequando a sua razão àquilo que é; devem falar verdade; podem problematizar qualquer posição de outro participante; só devem afirmar aquilo em que acreditam; devem ser isentos, reconhecendo aos outros igualmente essa capacidade; devem ter vontade sincera de chegar a um acordo ou a um consenso, próprio de sujeitos livres e emancipados; não é legítimo que os participantes entrem em contradição.”

Fica o desafio. Apliquem este código deontológico nas vossas análises das redes sociais, em relação à imprensa escrita e falada, aos debates da Assembleia da República, aos debates da última campanha eleitoral e tirem as vossas conclusões. 

.

02/06/2025

Siga-nos:
fb-share-icon

José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

Outros artigos

Share
Instagram