À volta do “Volta”
Ilustração do sistema português “Volta”. (Imagem gerada por IA – OpenAI)
De repente, começou a fazer parte da nossa rotina. Numa fase inicial, não foi difícil perceber alguma hesitação perante as embalagens com o símbolo “Volta”, chegando até a haver quem procurasse, nas prateleiras das superfícies comerciais, latas ou garrafas que ainda não estivessem abrangidas pelo novo sistema. Afinal, aqueles 10 cêntimos adicionais passaram a fazer parte do valor pago por cada embalagem, ainda que possam ser recuperados no momento da devolução.

O “Volta” tem como objetivo contribuir para o cumprimento das metas ambientais, através de um sistema de depósito e reembolso. Por cada garrafa ou lata abrangida, o consumidor paga um depósito de 10 cêntimos, valor que recupera quando devolve a embalagem. O sistema procura, assim, incentivar a recolha e a reciclagem, aumentando a quantidade de embalagens encaminhadas para tratamento adequado.
Os números, pelo menos à primeira vista, parecem dar força ao modelo. Em poucos meses, o sistema ultrapassou as centenas de milhões de embalagens devolvidas, contando com milhares de pontos automáticos instalados em supermercados e hipermercados. Estes resultados surgem pouco tempo depois da entrada em funcionamento do “Volta”, em abril de 2026, e revelam uma adesão expressiva a um sistema criado para ajudar a cumprir metas ambientais que Portugal há muito persegue.

Todavia, os números positivos não contam toda a história. Existe um outro lado do sistema que tem sido alvo de críticas por parte de consumidores e municípios. A indisponibilidade de algumas máquinas, as dificuldades técnicas e os constrangimentos no momento da devolução têm gerado frustração entre quem procura recuperar o valor do depósito; e nem sempre consegue fazê-lo de forma simples e imediata.
Há ainda um outro lado, igualmente visível. Contentores remexidos, lixo espalhado e críticas de vários municípios passaram também a fazer parte da discussão em torno do “Volta”, alimentando a perceção de que o sistema trouxe consigo efeitos sociais e urbanos que não estavam inicialmente no centro do debate. O que deveria ser, acima de tudo, um mecanismo de responsabilidade ambiental acabou também por expor fragilidades sociais que não podem ser ignoradas.

A polémica chegou, por isso, ao plano político. Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, chegou a pedir ao Governo o cancelamento imediato do sistema, considerando que este trouxe problemas sociais e de higiene urbana que não podem ser desvalorizados. Mais tarde, passou também a defender a sua revisão. O Governo e a entidade responsável, a SDR Portugal, têm, por sua vez, sustentado que os objetivos ambientais estão a ser cumpridos e que os resultados da recolha são globalmente positivos, ainda que reconheçam a existência de problemas e aspetos a melhorar.

estabelecimentos de menor dimensão, como pequenas lojas,
minimercados ou supermercados de proximidade, sem RVM
(Reverse Vending Machine). (volta.com.pt)
Importa, porém, lembrar que o sistema não é propriamente novo. Existem modelos semelhantes noutros países europeus, como a Noruega e a Alemanha, onde funcionam há vários anos e foram sendo ajustados ao longo do tempo. Na Noruega, por exemplo, o sistema atingiu taxas de recolha muito elevadas e tornou-se parte integrante dos hábitos de consumo. Na Alemanha, o depósito é mais elevado e o mecanismo está há muito consolidado. Isto significa que Portugal está a avaliar, em poucos meses, um modelo que noutros países teve anos para amadurecer.
Na sua génese, a ideia do “Volta” é positiva, mas o sistema parece ainda carecer de amadurecimento. Talvez esteja a atravessar as já conhecidas “dores de crescimento” e precise de tempo, correções e consolidação. Mas também não pode ignorar-se que, numa altura em que muitas famílias atravessam dificuldades financeiras, o sistema passou a ser visto por muitos cidadãos como uma oportunidade de obter algum rendimento através da recolha de embalagens. Não foi, certamente, para esse fim que o “Volta” foi criado.
Não devemos ignorar que o sistema é meritório. Contudo, não podemos fechar os olhos aos problemas já identificados. Estamos ainda numa fase demasiado prematura para perceber se o sucesso inicial se transformará numa realidade consolidada. Até lá, continuaremos, inevitavelmente, à volta do “Volta”, neste avesso dos dias.
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29/10/2026