Ufa! A esquerda aprendeu a fazer “scroll”
(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)
Ufa! – se não lhe escapou esta a exclamação no passado domingo, dificilmente imagino qual terá sido. Nikolas Ferreira, uma das figuras mais mediáticas do bolsonarismo e talvez o seu mais destacado representante junto da juventude, de semblante carregado e visivelmente ensombrado, encarregou-se de fazer o inventário das singularidades: a primeira reviravolta entre a primeira e a segunda volta desde 1989; a primeira vitória presidencial de um candidato derrotado em Minas Gerais; e, se não um acontecimento inédito, pelo menos um dos raros triunfos alcançados contra as projeções do Data Folha, um dos institutos de sondagens mais reputados do Brasil.

Destas eleições, renovado o suspiro de alívio que o seu desfecho justifica, importa extrair duas grandes ilações. A primeira é que o Partido dos Trabalhadores (PT) conquistou quatro anos que não deverá desperdiçar, impondo-se-lhe, desde já, a tarefa de encontrar uma candidatura à altura do desafio eleitoral de 2030. A segunda é que as redes sociais, convertidas em instrumentos decisivos de mobilização política de massas nesta terceira década do século, não constituem um território de influência reservado à direita. Sem espaço para desenvolver ambas as reflexões, é sobre esta última que me proponho discorrer.

Culture do King’s College London. (ucm.es)
Comecemos pelo princípio, ainda que sem grandes delongas. Há cerca de quatro semanas, tive oportunidade de colocar a Paolo Gerbaudo, sociólogo que comanda o Centre for Digital Culture do King’s College London e se dedica ao estudo das transformações políticas do nosso tempo, uma questão que, há muito, me inquietava: por que razão parecem as redes sociais tão propícias à comunicação da direita e tão pouco hospitaleiras à da esquerda? Com a serenidade de quem já se havia detido sobre o assunto, respondeu-me que a direita oferece interpretações do Mundo convenientemente embaladas e prontas a consumir, assim dispensando o utilizador do esforço de percorrer os caminhos que a elas conduzem. A esquerda, pelo contrário, tende a privilegiar uma comunicação de maior densidade explicativa, frequentemente envolta numa abstração que roça o filosófico e cuja compreensão parece exigir um estudo que a anteceda ou prolongue.
Não se trata, evidentemente, de censurar esta inclinação da comunicação de esquerda. Pelo contrário, reconheço-lhe a convicção de que uma sociedade mais esclarecida se constrói pelo exercício exigente do pensamento e pela compreensão aprofundada da realidade que a circunda. Se não pelo estudo, por que outro caminho? Está visto, contudo, que semelhante estilo dificilmente prospera num ambiente cuja arquitetura favorece a gratificação imediata e a sucessão vertiginosa de estímulos. Na tão celebrada era dos três segundos, em que a atenção mal se demora antes de ceder ao próximo swipe up, a complexidade raramente encontra condições para se fazer escutar. Não porque lhe falte valor, mas porque disputa a atenção de um público progressivamente habituado a consumir respostas antes sequer de formular perguntas, além de pouco disponível para um esforço intelectual que ultrapasse o mais elementar bê-á-bá.

Lula da Silva, uma das figuras mais proeminentes da esquerda mundial, agora vencedor de quatro eleições presidenciais brasileiras, terá mantido uma estratégia de comunicação relativamente convencional até ao encerramento da primeira volta. Nem necessariamente boa, nem propriamente má, mas desajustada às exigências do momento e manifestamente desequilibrada perante a ofensiva comunicativa de Flávio Bolsonaro. O resultado foi desastroso: uma desvantagem de cerca de três milhões de votos. Algo terá mudado nas escassas três semanas que separaram as duas voltas. Com o contributo decisivo de André Janones, deputado federal e seu apoiante, Lula empreendeu uma inflexão estratégica cuja dimensão merece ser observada.
Profundo conhecedor das dinâmicas das redes sociais, Janones terá envolvido e mobilizado cerca de dez milhões de apoiantes de Lula numa operação coordenada de publicação e amplificação de conteúdos. A vaga de petistas saltitantes e motivados que daí resultou, pela sua dimensão e intensidade, veio desafiar uma ortodoxia comunicativa há muito instalada em setores da esquerda internacional. Foram, segundo os testemunhos de quem participou na operação, três semanas de trabalho praticamente ininterrupto, numa corrida contra o tempo que deixou por dormir um conjunto largo de noites. Não será possível manter indefinidamente este ritmo, tão vertiginoso quanto exigente, mas a urgência do momento impunha-se perante a dimensão do descalabro eleitoral e a evidência de uma estratégia errática. Salvaguardadas as distâncias, tanto de preparação quanto de escala, creio que o caminho será este.

Estas eleições autorizam um conjunto de perguntas e de respostas. Podem as redes sociais decidir eleições? Podem. Está esta capacidade reservada à direita? Longe disso. Terão os partidos de esquerda compreendido, finalmente, o alcance desta evidência? Assim o espero. Por agora, permito-me uma convicção esperançosa: há razões para acreditar no futuro.
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29/10/2026