Actores…

 Actores…

(Créditos fotográficos: Erik Mclean – Unsplash)

Herberto Helder (escritas.org)

“O actor acende a boca. Depois, os cabelos. / Finge as suas caras nas poças interiores. / O actor põe e tira a cabeça / de búfalo. / De veado. / De rinoceronte. / Põe flores nos cornos. / Ninguém ama tão desalmadamente / como o actor. […]” 

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Não resisto a citar, como preâmbulo para estas notas, os primeiros versos do belíssimo “Poemacto III”, de Herberto Helder. Do longo poema, na sua divagação, o poeta faz-nos viajar pela obscuridade das cavernas até à luminosidade planetária, cruzando-nos com Deus, com os peixes, com as maçãs…

Num mesmo dia, encontro notícias sobre actores, aqueles que conheci, que amei como espectador e que me despertaram espanto e curiosidade.

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Morre Björn Andrésen

Björn Andrésen, enquanto jovem intérprete no filme “Morte em Veneza” e adulto. (Créditos de imagem: Ibl/Shutterstock – infobae.com)

A primeira nota, leva por título “Morre Björn Andrésen”, “o rapaz mais bonito do mundo” a quem participar num filme famoso arruinou a vida: “Foi um pesadelo.

“Poster” oficial do 24.º Festival de Cinema
de Cannes, uma ilustração original do
artista francês René
Ferracci. (en.wikipedia.org)

Foi o intérprete do jovem Tadzio, no filme “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti. O êxito da sua interpretação condicionou toda a sua biografia e foi vítima do interesse de todos quantos o rodeavam. Acompanhou o realizador nos diferentes festivais e mostras cinematográficas, chegou a declarar no Festival de Cannes, em 1971: “Sentia-me como um animal exótico enjaulado.”

Baseado no romance “Der Tod in Venedig”, de Thomas Mann, narra a atracção perturbadora e obsessiva que, o compositor Gustave von Aschenbach, de férias em Veneza, desenvolve por Tadzio, um adolescente da nobreza polaca que faz turismo com a família, a obsessão cresce enquanto a peste alastra sobre a cidade. Sem dúvida a beleza do jovem actor foi decisiva para o êxito do filme. Visconti sabia, magistralmente, escolher os seus actores. Tadzio, no filme, é filho da actriz Silvana Mangano, também extremamente bela cinematograficamente… Ela foi a Jocasta, de Pier Paolo Pasolini, no “Édipo Rei”.

Silvana Mangano na interpretação da Jocasta contemporânea para a leitura da tragédia de Sófocles, por Pier Paolo Pasolini: “Édipo rei” (“Édipo Rei”, de 1967). (facebook.com/EugenioEmFilmes)

Filme crepuscular, onde a morte, já anunciada no título, percorre as ruas, canais e águas da cidade italiana. Veneza, cidade tantas vezes atacada pela peste. Como escreve Luiza Antunes, no seu artigo intitulado “Como Veneza sobreviveu à Peste Negra, a pior epidemia de todos os tempos”, em 1348, a peste negra pela primeira vez, entre 1361 e 1528, a peste retornou por vinte e duas vezes para colectar mais almas. Mas nada os prepararia para os mortíferos anos de 1575 a 1577, quando quase 50 mil pessoas morreram vítimas de um novo surto. O último caso das epidemias foi entre 1629 e 1631. Na época, mais um terço dos habitantes da cidade perderam suas vidas.

Emocionante é o final do filme: o jovem Tadzio brilha sob uma luz, junto ao mar enquanto o compositor agoniza numa cadeira de praia e a maquilhagem de tintas pretas lhe escorre pelo rosto.

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Jackie Coogan, em 1922. (en.wikipedia.org)

Jackie Coogan (1914-1984)

Jackie Coogan foi a primeira grande estrela infantil de Hollywood a ganhar mais de um milhão de dólares, mas terminou a sua carreira no esquecimento. Foi o pequeno companheiro de Charles Chaplin no filme “O Garoto de Charlot” (“The Kid”). Um pequeno actor de talento bem-sucedido e milionário.

(infobae.com)

Chaplin escolheu Jackie Coogan para interpretar a sua primeira longa-metragem como realizador: “The Kid”, lançado em 1921. O filme não apenas cimentou a fama de Chaplin como génio cómico, mas também catapultou Coogan para o auge da popularidade infantil. Aos sete anos, tornou-se um dos actores mais bem pagos de Hollywood e o centro das atenções da indústria.

Foi o primeiro pequeno actor a assinar um contrato que ultrapassou um milhão de dólares e também recebeu entre 30% e 60% dos lucros de cada filme em que participou. A má administração dos seus ganhos, por parte da sua mãe e do padrasto, conduziram o actor à ruína e ao esquecimento.

A deliciosa e peculiar comédia fantástica “A Família Addams”.  (imgartists.com)

Teria, mais tarde, um reaparecimento na serie televisiva “A Família Addams”, na personagem do Tio Lucas. Coogan morreu em Los Angeles, aos 69 anos, no dia 1 de Março de 1984. Para os da minha geração, “The Kid” é um filme de antologia inesquecível!

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Christopher Lee

Como escreve Giovanni Rodrigues no sítio electrónico AdoroCinerma, “Christopher Lee estava cansado de interpretar esse personagem, mas aceitava repetidas vezes para que as pessoas não ficassem sem trabalho”.

Christopher Lee foi um dos maiores e mais importantes actores do terror. (tribecafilm.com)

Já conhecia esta notícia divulgada pelo “site” SensaCine, em 25 de Outubro de 2025. Foi numa entrevista que apanhei na Internet, na qual o actor confessava como tinha sido enganado pelo produtor cinematográfico e, de certa forma, “chantageado” para continuar com a saga “Drácula”.

Sou fã dos filmes de terror e de literatura gótica e Lee, bem como Peter Cushing (o seu arqui-inimigo, matador de vampiros), Boris Karloff, Bela Lugosi, Vincent Price e o pequenino Peter Lorre foram sempre os meus ídolos nesse género de filmes. O produtor cinematográfico em questão era James (Jimmy) Carreras, presidente da Hammer Film.

Na referida entrevista televisiva, Lee assegurava que era de origem portuguesa. E, ainda, que os direitos cinematográficos já haviam sido vendidos antes das filmagens! Todavia, consultando dados na Internet, ficamos a saber que era filho de um emigrante espanhol, Enrique Carreras.

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Actor Héctor Noguera

Finalmente, uma nota que comoveu a cena teatral chilena, a morte do actor Héctor Noguera. Chamávamos-lhe Tito, carinhosamente. Pai e avô de actrizes, foi uma presença fundamental no teatro nacional chileno. Iniciou-se muito cedo e conquistou o público de várias gerações pela sua beleza física, voz e talento.

Héctor Noguera (academiachilenadebellasartes.cl)
“La vida es sueño” (“A Vida É Sonho”), uma
obra de teatro escrita por Pedro Calderón de
la Barca e estreada no ano de 1635.
(pt.amarseaunomismo.com)

Trabalhou até os últimos dias na série televisiva “Aguas de Oro”, para a estação MEGA. Foi fundador da Companhia Teatro Camino, nos anos 90. No ano 2000, o sonho de ter uma sala de teatro concretizou-se nos contrafortes das encostas, no município de Peñalolén (Santiago do Chile).

Foi precisamente nessa década que tive a oportunidade de assistir a um espectáculo protagonizado por ele, no qual desafiou público a contribuir para a peça “A Vida É Sonho”, de Calderón de la Barca, um monólogo. Ressoam ainda inesquecíveis os versos do autor: “¿Qué es la vida? Un frenesí. / ¿Qué es la vida?Una ficción, / una sombra, una ilusión, / y el mayor bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son”.

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04/12/2025

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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