As linhas humanas que cosem a História
Ouro Preto, no estado brasileiro de Minas Gerais. (guia.melhoresdestinos.com.br)
Foi com emoção e alguma inquietação que vi a mensagem electrónica que uma pesquisadora de Ouro Preto dirigiu ao meu amigo e camarada Soares Novais, depois de ter lido o seu artigo “Alferes Malheiro: o revoltoso esquecido do ‘31 de Janeiro’”. Ouro Preto é um município notado pelo maior conjunto de arquitectura barroca no Brasil e como berço da tentativa de independência conhecida por Inconfidência Mineira, em que interveio o alferes “Tiradentes”, justamente no estado de Minas Gerais.

Malheiro, militar e engenheiro, nasceu no Porto, a 19 de Janeiro de
1869, e faleceu em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1924. (ceram.pt)
Quão satisfeito ficaria o Soares Novais se agora soubesse que, no lado de lá do Atlântico – na comunidade onde se destacam as obras do escultor, entalhador e arquitecto Antônio Francisco Lisboa (o famoso Aleijadinho) e do pintor Manuel da Costa Athaíde –, há uma académica que se interessa pelo que escreveu, em Fevereiro de 2024, sobre aquele oficial do Exército cuja acção foi importante na insurreição militar ocorrida no Porto, quase vinte anos antes da Implantação da República Portuguesa.
A memória dos homens e dos acontecimentos tende a relevar alguns aspectos em detrimento de outros tão ou mais importantes no seu contexto. Porém, como então respigou o Soares Novais – sempre exigente no cruzamento dos dados disponíveis –, na madrugada de 31 de Janeiro, Augusto da Costa Malheiro (que serviu o regimento de Caçadores n.º 9, com quartel na zona de Santo Ovídio) comandava a guarnição na Cadeia da Relação quando o regimento ali aquartelado foi o primeiro a sublevar-se. Praticamente, à revelia do Partido Republicano Português, os revoltosos desceram a Rua do Almada, na “cidade Invicta”, e deslocaram-se até à Praça D. Pedro (actual Praça da Liberdade, ao fundo da Avenida dos Aliados), onde, em frente ao velho edifício dos Paços do Concelho, ouviram Augusto Alves da Veiga proclamar, na varanda, a implantação da República e anunciar a formação de um governo provisório, cujo elenco foi lido pelo actor Miguel Verdial.

Esta primeira revolta militar falhou e o alferes Malheiro fugiu para Espanha, tendo partido de Vigo para o Brasil e sido julgado como desertor. Estabeleceu-se em Minas Gerais e frequentou o curso de Engenharia. Já em terras da antiga Vila Rica (nome que adveio da exploração aurífera), sabe-se que Augusto da Costa Malheiro, figura associada ao movimento republicano português, participou em conflitos militares no Brasil e que foi ferido em combate, tendo recebido o título de Capitão Honorário do Exército Brasileiro, como reconhecimento dos serviços prestados.

Na convicção de que o jornalista (e também editor) Soares Novais iria dar respostas enriquecedoras à estudiosa que quer resgatar a memória cultural da setecentista Vila Rica (hoje, Ouro Preto) e da passagem do militar português que, ali, se tornou engenheiro, recoloco as mesmas questões: Malheiro foi aluno da Escola de Minas de Ouro Preto? Por que terá ido para esta cidade? Como actuou politicamente no Brasil?

A memória histórica não é um relato neutro, mas uma interpretação activa que ajuda a definir identidades e a coesão social no alcance do tempo e de diversos olhares. Por isso, antes de concluir esta crónica, mesmo admitindo dispersão temática, quero vincar a despedida de Marcelo Rebelo de Sousa, que hoje (9 de Março) finalizou dois mandatos como Presidente da República, com uma das suas frases bastante simbólicas: “A única forma de evitar populismos é estar perto das pessoas.” Apesar das imperfeições que o legitimam como humano, agradeço-lhe essa sua faceta de “Presidente dos afectos”, procurando defender e dar voz às pessoas que “têm nomes, caras, sonhos”.
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 8 de Março) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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09/03/2026