As tragédias e a aprendizagem colectiva

 As tragédias e a aprendizagem colectiva

A 26 de Novembro de 1967, as elevadas precipitações num curto espaço de tempo originaram cheias rápidas em diversas áreas do concelho de Cascais. (duaslinhas.pt)

Passadas quase seis décadas, ainda retenho na memória a aflição da minha mãe, quando, por motivos que desconheço, me levou consigo a visitar a nossa família, do lado da minha avó Matilde, que residia e trabalhava em Cascais. Para mim, rapazito tímido e com muito pouco mundo, foi com surpresa e satisfação que conheci esses meus primos que, então, repartiam os seus dias entre a faina pesqueira e a actividade de restauração.

Devido à censura do governo salazarista, fora da área de Lisboa, poucos portugueses se aperceberam da dimensão das cheias de 1967. (ipma – nationalgeographic.pt)

Faltava quase um mês para o Inverno e, nessa sexta-feira distante e ensonada, levantámo-nos cedíssimo para apanharmos a camioneta vinda de Alenquer para Lisboa. Já na capital, seguimos para a estação ferroviária do Cais do Sodré com destino a essa vila ligada ao mar e à captura de polvos com alcatruzes – vasos de barro semelhantes aos das noras –, bem como à pesca artesanal de robalos, sardinhas e marisco.

Distribuição espacial da quantidade de precipitação no dia 26 de Novembro em Portugal Continental (esq.) e na região mais afectada (dir.). (nationalgeographic.pt)

Esse dia (25 de Novembro de 1967) foi muito chuvoso na região, mas ninguém supunha que a forte precipitação causasse uma tal cheia no Tejo e afluentes que inundou ruas e bairros inteiros de Lisboa e arredores, sobretudo em Loures e em Oeiras. Na noite de 25 para 26 de Novembro, como registam os jornais, morreram mais de 500 pessoas – mas o número pode ter chegado aos 700 mortos – e muitas famílias foram desalojadas das suas casas frágeis e sem condições básicas, tão ao jeito de um Portugal oprimido e repleto de dificuldades que obrigava parte da população a saltar fronteiras e a emigrar.

(© Museu Municipal de Vila Franca de Xira)

Apesar da pouca informação disponível e da censura do Estado Novo, a imprensa da época noticiava que “havia cadáveres a boiar”. Assim, atendendo à forte pluviosidade e ao violento temporal na área metropolitana de Lisboa, eu e a minha mãe ficámos nesse fim-de-semana em Cascais, para preocupação do meu pai, que terminava a colheita da azeitona, enquanto as vinhas estavam em repouso. Valeu-lhe o desconhecimento de que, a poucos quilómetros de distância, perto de Vila Franca de Xira (principalmente, na povoação de Quintas), muita gente morreu afogada nas enxurradas e arrastada pela lama, juntamente com os seus animais e os destroços dos edifícios destruídos e das barracas desfeitas. Conta-se que o caudal do rio Grande da Pipa ou vala do Carregado, curso de água que nasce no concelho de Sobral de Monte Agraço, subiu ao nível do primeiro andar no largo de Quintas, tendo metade dos seus habitantes perdido a vida.

(© Museu Municipal de Vila Franca de Xira)

Ainda hoje, não se sabe ao certo quantas pessoas morreram nessa tragédia nacional, mais de dois séculos depois do terramoto de 1755, que arrasou Lisboa (especialmente, a zona da Baixa), na manhã de 1 de Novembro. Os dados oficiais das cheias de 1967, classificadas como “cheias de 100 anos”, assinalam 427 mortos (Oliveira Salazar quis esconder os factos e impediu a contagem de mais falecimentos) e a imprensa faz um balanço de 458 óbitos, perdendo-se nas contas das restantes vítimas – cidadãos feridos, enlameados e sem o seu tecto de abrigo. A tromba de água de invulgar violência, equivalente a um quinto da precipitação anual, terá destruído 20 mil casas.

Equipa de resgate navega pelas ruas inundadas de Portugal após tempestade, em 2026. (© Ministério de Defesa Nacional de Portugal – news.un.org)

Foram “essencialmente cheias urbanas, porque choveu muito num só dia na região de Lisboa”, observa Ricardo Trigo, climatólogo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito de um trabalho jornalístico de Andrea Cunha Freitas sobre as actuais cheias que afectam, simultaneamente, o Tejo, o Sado, o Mondego, o Guadiana e outros rios do país. Agora, com a chegada da depressão Marta (que também apanhou o comboio de tempestades que está a atravessar o território nacional), as preocupações aumentam e os rios galgam as suas margens com um inusitado impacto social, provocando perdas humanas e a quebra da actividade económica das zonas mais afectadas.

Em face da calamidade que nos devasta, a ministra da Administração Interna, Maria Luísa Amaral, limita-se a expressar: “Todos nós, sociedade e Estado, estamos num processo de aprendizagem colectiva quanto à melhor forma de responder [a tempestades como a Kristin].”

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 8 de Fevereiro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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09/02/2025

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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