Cinquenta milhões de professores em falta e uma escola à procura de futuro
(hypescience.com)
A notícia passou relativamente despercebida fora dos círculos da educação. Segundo os dados mais recentes divulgados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pelos seus parceiros internacionais, o Mundo necessitará de cerca de 50 milhões de professores adicionais até 2030, dos quais 44 milhões para o ensino básico e secundário e mais seis milhões para a educação pré-escolar.
À primeira vista, trata-se de mais um problema de recrutamento. Faltam professores. Será necessário formar mais professores. Mas talvez a questão seja mais complexa. E se a falta de professores não for apenas uma dificuldade temporária? E se estivermos perante um sinal de que a escola continua organizada segundo um modelo que deixou de corresponder às realidades e aos recursos do século XXI?

A História da educação mostra que os sistemas de ensino demoram normalmente muito tempo a adaptar-se às mudanças tecnológicas, económicas e sociais. A escola de hoje continua assente numa arquitetura organizacional concebida durante os séculos XIX e XX: alunos agrupados por idade, programas uniformes, turmas relativamente homogéneas, ensino simultâneo e um professor responsável pela transmissão dos conhecimentos. Este modelo respondeu adequadamente às necessidades da sociedade industrial. Mas o Mundo alterou-se profundamente.
Nunca a Humanidade dispôs de tanta informação acessível. Nunca existiram tantos recursos educativos disponíveis. Nunca foi tão fácil aceder a bibliotecas, arquivos, bases de dados, cursos especializados, plataformas educativas ou sistemas de inteligência artificial (IA). Paradoxalmente, é precisamente neste período de abundância de conhecimento que o Mundo enfrenta a maior escassez de professores da sua História. Talvez porque continuamos a procurar soluções novas para problemas definidos em moldes antigos.

Portugal conhece bem esta realidade. A expansão da escolaridade quase sempre foi mais rápida do que a capacidade de formar docentes. Aconteceu após as reformas pombalinas. Aconteceu durante a democratização do ensino depois de Abril. Aconteceu com a massificação da escolaridade obrigatória. E acontece novamente nos nossos dias. Contudo, a questão central não reside apenas na falta de professores.
Reside também na existência de milhares de diplomados e de profissionais qualificados cujos conhecimentos permanecem subaproveitados. Existem licenciados, mestres e doutorados em múltiplas áreas científicas, assim como diplomados em Ciências da Educação, muitos dos quais se encontram em situações de emprego precário ou afastados das funções para as quais foram preparados. O sistema continua frequentemente a pensar em termos de profissões rigidamente delimitadas, quando as necessidades atuais exigem percursos mais flexíveis e respostas mais diversificadas.

Por outro lado, as novas tecnologias vieram introduzir uma segunda força de mudança, talvez ainda mais poderosa. A inteligência artificial, as plataformas digitais e os sistemas inteligentes de acompanhamento da aprendizagem permitem, hoje, conhecer cada aluno de uma forma impensável há apenas alguns anos. É possível acompanhar ritmos de progressão, identificar dificuldades precocemente, reconhecer talentos específicos, detetar interesses emergentes e propor percursos personalizados. Durante séculos, a individualização do ensino constituiu um ideal pedagógico dificilmente alcançável e a única alternativa disponível era ensinar muitos alunos da mesma forma, ao mesmo ritmo e para os mesmos objetivos.
Pela primeira vez na História, esse constrangimento começa a desaparecer. As tecnologias emergentes tornam possível conceber sistemas educativos em que cada aluno possa seguir um percurso adaptado às suas capacidades, aos seus interesses e aos seus projetos de vida. Neste modelo, a escola não desaparece. Pelo contrário, torna-se ainda mais importante, mas a sua função transforma-se. A escola deixa de ser, sobretudo, um local de transmissão de informação e passa a afirmar-se como espaço de encontro, de socialização, de cooperação, de cidadania, de criatividade e de desenvolvimento humano.

Os especialistas poderão produzir conteúdos, orientar programas e apoiar aprendizagens à distância através de plataformas acessíveis a milhares de estudantes. Nas escolas, educadores, professores, mentores e orientadores acompanharão os percursos individuais, apoiarão o trabalho quotidiano e garantirão a indispensável dimensão humana do processo educativo. O centro do sistema deixa de ser a aula. Passa a ser a aprendizagem.
E esta mudança abre, igualmente, caminho para ultrapassar uma das características mais discutíveis da escola tradicional: a reprovação. Se cada aluno puder avançar ao seu ritmo, receber apoio adequado e beneficiar de percursos diferenciados, a lógica do chumbo perde a sua razão de existir. O objetivo deixa de ser obrigar todos a atingir simultaneamente a mesma meta. Passa a ser garantir que cada um desenvolve ao máximo as suas potencialidades.

Há quase três décadas, procurei traduzir esta ideia em três palavras simples: “Aprender por Medida”, título de um livro publicado, pela Porto Editora, em 1999, muito antes da onda da IA. Na altura, terá sido uma proposta pedagógica incompatível com a formação dos professores, com os programas uniformes e com os exames iguais para todos. Era o mesmo que obrigar todas as alunas e todos os alunos a calçarem sapatos iguais de tamanho único.
Hoje, começa a surgir como uma possibilidade tecnicamente viável e pedagogicamente necessária. A escassez de professores e a revolução tecnológica estão a convergir para a mesma conclusão. A primeira obriga-nos a procurar novos modelos de organização educativa. A segunda oferece-nos instrumentos capazes de os concretizar.

Talvez a grande questão do nosso tempo já não seja como reproduzir indefinidamente a escola do passado. Talvez seja como construir uma escola capaz de utilizar os conhecimentos, os recursos e as tecnologias do presente para responder às necessidades de cada aluno.
Os 50 milhões de professores que faltam constituem um problema gigantesco. Mas podem, provavelmente, representar uma oportunidade histórica. Por vezes, são precisamente as crises que obrigam as instituições a reinventar-se. Talvez a escassez que hoje nos preocupa venha a ser recordada amanhã como o impulso que ajudou a construir uma escola mais humana, mais flexível e mais ajustada à singularidade de cada aluno.
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22/10/2026