Se pensar dá trabalho, parecê-lo dá votos
(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)
Não sendo um fenómeno novo, nem tão-pouco uma criação dos emergentes atores da direita radical, a influência dos spin doctors encontra na conjuntura política contemporânea uma das suas manifestações mais ostensivas. Dificilmente se poderá admitir como espontâneo o aceno à esquerda, o piscar de olho à direita ou o sorriso que desarma uma pergunta incómoda. Cada gesto parece obedecer a uma coreografia minuciosamente concebida, segundo a qual até a aparência de espontaneidade parece objeto de preparação. Se um aceno mais enfático bastar para conquistar a simpatia de um segmento eleitoral que até então escapava ao candidato, será com redobrado entusiasmo que este o repetirá.

Este malabarismo, tão profundamente estratégico quanto tributário da política – entenda-se “política”, naturalmente, na mais genuína aceção do termo –, tornou-se condição sine qua non de qualquer aparição pública. Emerge uma interrogação: quanto do tempo que estas personagens dedicam à vida pública é hoje consumido no laborioso aperfeiçoamento da própria imagem, sob a orientação do tão celebrado spin doctor e em escrupulosa obediência ao receituário que este lhes põe nas mãos?
Outros tempos terão existido em que os responsáveis políticos, ainda alheios a semelhante sofisticação do ofício, se ocupavam primeiro de cultivar o pensamento e de consolidar convicções, para só depois, adquirida a consistência intelectual e política que julgavam necessária, se apresentarem ao sufrágio dos seus concidadãos. Era então sobre esses atributos, e não sobre a habilidade de os simular, que assentava, pelo menos como ideal, a pretensão de merecer a confiança dos eleitores. Hoje, a suspeita é a de que esta sequência se tenha invertido: já não se cultiva primeiro a substância para depois lhe conferir expressão pública; aperfeiçoa-se antes a expressão, na esperança de que a substância, real ou presumida, acabe por lhe ser atribuída.

Ainda que este esforço de formação intelectual subsista em alguns casos, bastará um olhar atento sobre a agenda que se impõe a quem ascende a cargos de responsabilidade política para perceber quão escasso se torna o tempo disponível para prosseguir os exercícios que outrora o habilitaram. Partamos do princípio de que o pensamento não constitui um património que, uma vez adquirido, permanece indefinidamente à disposição de quem o possui. Exige cultivo, confronto e renovação; reclama o exercício continuado da memória, para que não se dissipem ideias anteriormente assimiladas, e da reflexão, para que sobre elas se edifique um juízo verdadeiramente próprio.
Privado destes estímulos, corre o risco de se acomodar às formas mais elementares do raciocínio e à repetição de fórmulas familiares. Ora, se ao tempo consumido entre seminários, comícios, apresentações de livros, jantares, reuniões e a incessante produção de TikToks e reels acrescentarmos ainda um conjunto de sessões de aperfeiçoamento ministradas pelos spin doctors, daí resulta uma figura que só uma considerável dose de miopia permite identificar como verdadeiramente política. Já não estamos necessariamente perante alguém que pensa para depois falar, mas perante alguém que aprende a falar de modo a parecer que pensa.

Não se pretende fazer a apologia de uma política entregue à exclusiva competência dos técnicos, nem confundir a legitimidade democrática com a posse de credenciais académicas ou de conhecimentos especializados. Recordemos apenas, com saudade e alguma nostalgia, que o exercício da representação exige qualidades que nenhuma coreografia mediática pode substituir: discernimento, densidade de pensamento, capacidade de julgamento e sentido de responsabilidade perante o mundo comum. Quando a representação se torna tão obsessivamente performativa que já nada parece subsistir para além da própria encenação, é a própria substância do político que ameaça desaparecer por detrás do espetáculo.
.
21/10/2026