Valorizar a pastorícia e a sustentabilidade

 Valorizar a pastorícia e a sustentabilidade

O ano 2026 foi designado, por resoluções da Assembleia Geral da ONU, o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores e o Ano Internacional da Mulher Agricultora.(tempo.pt)

O mundo agrícola está a transformar-se rapidamente não só pelas alterações climáticas, mas, sobretudo, porque as novas gerações abandonam os campos à procura de melhores condições de vida e de outras fontes de rendimento pessoal e familiar. E já nem nos surpreendemos quando nos dizem que Portugal regista a idade mais elevada de produtores agrícolas em toda a União Europeia. Com uma idade média de 64 anos e uma baixa escolarização, os produtores singulares encontram muitos obstáculos no acesso ao conhecimento das inovadoras formas de trabalhar a terra e de uma produção pecuária que também valorize o bem-estar animal.

ONU declara 2026 como o ano internacional da pastagem. (blog.greenplaceagro.com.br)

As explorações de pequena dimensão, o isolamento dos territórios e uma enorme solidão têm afastado os jovens agricultores para outros destinos. O futuro pertence-lhes e não querem desperdiçá-lo. A sucessão geracional e a continuidade das práticas pastoris constituem fortes desafios para a sustentabilidade dos próprios sistemas alimentares do país. A pegada carbónica, o aumento da temperatura e a redução da pluviosidade são naturais preocupações, a que se juntam as necessidades da economia local e as pressões externas dos mercados.

Como regista o “Livro Verde da Pecuária Extensiva”, o perfil dos produtores dá-nos alguma esperança quando a participação das mulheres portuguesas tem vindo a aumentar. Salienta este documento oficial de consulta e debate que, entre 1989 e 2019, “a proporção de mulheres entre os produtores singulares passou de 15% para 33% do total nacional, colocando Portugal acima da média da União Europeia neste indicador”. As “mulheres representam a[c]tualmente cerca de 55% dos produtores com formação superior” e “a sua presença em funções de gestão agrícola aumentou de 16% para 31% no mesmo período”.

Na Serra do Açor, três jovens pastoras cuidam de cerca de 170 cabras que percorrem 400 hectares de baldios. (cnnportugal.iol.pt)

Ana Margarida Fernandes Marques ganhou notoriedade ao assumir um desempoeirado papel político (preside à União de Freguesias de Cepos e Teixeira, no concelho de Arganil) e um atento activismo ambiental ligado à pastorícia na Serra do Açor, integrando o projecto “As Pastoras Felizes”. Conheci-a na vila raiana de Arcos de Valdevez, a 12 de Outubro, num encontro dedicado ao Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, proclamado, em 2026, pela Assembleia Geral das Nações Unidas e promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Margarida Marques é a segunda pessoa, da direita para esquerda na foto. (cmav.pt)

A intervenção de Margarida Marques, num dos dois painéis de debate da reunião sobre a gestão sustentável das pastagens, incidiu nos três eixos do projecto comunitário “As Pastoras Felizes”: prevenção de incêndios, defesa dos saberes ancestrais e presença digital, sendo a Internet um importante espaço de partilha para sensibilizar as pessoas para a sustentabilidade rural e a protecção ecológica.

(facebook.com/cnnportugal)

Esta pastora com dois mestrados e uma renovada voz poética defende um modelo em que o cuidado dos animais é partilhado por toda a comunidade, em vez de recair exclusivamente sobre os pastores. A comunidade participa no cuidado das cabras, que vão sozinhas para a serra e regressam habitualmente à mesma hora. Esta organização permite conciliar a actividade pastoril com uma vida contemporânea, mais confortável e compatível com outras responsabilidades.

Na visão de Margarida Marques, a pastorícia é muito mais do que uma actividade de produção animal. Os animais contribuem para a gestão do território e para o fortalecimento dos laços comunitários. Contrariando a ideia de que os jovens já não querem viver no campo, declara que há muitos interessados em tornar-se pastores e em viver na sua freguesia. O trabalho qualificado não se define apenas pelos diplomas, mas também pela capacidade de cuidar da terra, dos animais e das pessoas.

Neste sentido, concluo a crónica, recordando Alberto Caeiro, que não é um pastor na acepção tradicional de vigiar ovelhas físicas: “Sou um  guardador de rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações. / […] / Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz.”

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 18 de Outubro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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19/10/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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