FIMP 2026: Festival Internacional de Marionetas do Porto

 FIMP 2026: Festival Internacional de Marionetas do Porto

(dgartes.gov.pt)

Com programação nas cidades do Porto e de Matosinhos, a edição n.º 37 do Festival Internacional de Marionetas do Porto (FIMP) encerrou ontem (18 de Outubro) e abordou temáticas desde Miguel de Cervantes à crise climática. Foram dez dias a contar o Mundo através das marionetas. Esta nova edição reuniu duas dezenas de espectáculos, artistas de sete países, estreias nacionais e novas formas de dar vida a objectos, imagens e histórias.

(ma.to)

“Quem conta um conto acrescenta um ponto”, diz o provérbio popular português. E o director artístico do FIMP, lembrava-nos: “Uma história bem contada continua a ser uma coisa à volta da qual faz sentido juntarmo-nos. Sabemos que há muitas maneiras de contar uma história, tantas que, a certa altura, a história já é outra – ou ainda será a mesma? No FIMP’26 queremos desafiar o estimado público para se reunir em torno de um conjunto de obras que exploram as possibilidades do teatro de marionetas e obje[c]tos enquanto máquina heteróclita de contar histórias. Cervantes, Gogol, Victor Hugo, Dostoiévski, Heiner Müller, José Luis Peixoto, Regina Guimarães, entre outros.”

Duas grandes obras literárias universais cruzam-se no palco do Teatro Carlos Alberto: “Crime e Castigo” e “Os Miseráveis”, que, segundo Igor Ganda (director artístico do FIMP), transportam para o palco “criações que encontraram nas obras literárias e na poesia um ponto de partida. Afinal, estas palavras, algumas escritas há vários séculos, e outras há poucos meses, são bem capazes de nos inspirar”.

(pumpkin.pt)

Teatro de Formas Animadas e Teatro de Objectos são, sem dúvida, designações contemporâneas com as quais observamos, hoje, formas tradicionais de animação. Anteriormente, eram os robertos (assim chamados, popularmente, no Porto), figuras/sombras chinesas, títeres de “cachiporra”(designação ibérica), bonifrates (palavra aplicada às obras do dramaturgo português António José da Silva, O Judeu), e também os bonecos de Santo Aleixo, património universal da cidade de Évora.

São tantas as formas de animação que é difícil encontrar uma expressão universal que as englobe a todas. Os Alemães chamam a tudo isto “puppentheater”, ou seja, “teatro de bonecos”.

A literatura cruzou-se com o teatro de marionetas e de objetos na 37.ª edição do Festival Internacional de Marionetas do Porto. O FIMP’26 regressou com espectáculos de companhias portuguesas e estrangeiras, apresentados em vários espaços do Porto e de Matosinhos. (airinformacao.pt)

Os espectáculos da companhia belga Compagnie Karyatides arrancaram na estreia com a adaptação de “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881):“É Verão em São Petersburgo. A cidade está imersa num calor sufocante. O jovem estudante Raskolnikov sai de onde  vive e deambula por ruas e ruelas. Desesperado e oprimido pela miséria, decide assassinar uma velha usurária para lhe roubar o dinheiro. Um crime que tenta justificar a si próprio com a ideia de que grandes homens, como César ou Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História. Mas, depois do crime, vem o castigo, e ele é dominado por um lancinante sentimento de culpa.”

Esta foi a proposta da companhia belga Karyatides, referência internacional do teatro de marionetas e objectos, que constrói um espectáculo cheio de ritmo, música e algum humor: “A anatomia de um crime, desde a sua fantasia até à sua confissão”.

(portaldaqueixa.com)

A mesma companhia, tomando como ponto de partida a obra de Victor Hugo (1802-1885), apresenta uma adaptação épica de “Os Miseráveis” para teatro de objetos. Todas as personagens intemporais do romance são representadas por centenas de figuras de barro e de madeira, encontradas ao acaso em feiras de antiguidade. Criado e interpretado por Karine Birgé e Marie Delhaye, “Os Miseráveis” é um grande fresco sobre uma humanidade em busca de justiça, de liberdade e de um mundo melhor. Lemos na respectiva folha de sala: “Todos os homens são feitos do mesmo barro. Não existe nenhuma diferença. A mesma sombra antes, a mesma carne durante, a mesma cinza depois.”

Espectáculo “O Cavaleiro da Triste Figura”. A Limite Zero parte da tragicomédia de Dom Quixote para reflectir sobre a forma como as histórias são construídas e manipuladas. Quem escreve a História: os vencedores, os vencidos, os sonhadores ou os desiludidos? (© Pedro Barral – agendaculturalporto.org)

Construir um espectáculo com figuras em escala de presépio é uma aventura: assim mesmo, reduzir as 1511 páginas, de cinco volumes, para uma hora e meia de espectáculo é obra! O referido espectáculo é emoldurado por uma rotunda que representa a cidade de Paris, sempre como pano de fundo, e por uma pequena mesa na qual as personagens são colocadas para dialogar dramaticamente, pelas duas actrizes-manipuladoras. Alguns como eu, que brincámos aos teatrinhos na infância, assim como as meninas brincavam com as suas casinhas de bonecas, encontraram neste espectáculo um momento de reflexão entre o lúdico da representação e o sagrado. Belos efeitos, em geral. Saliento a figura do polícia Javert, representado por um capote, uma espécie de sombra persecutória do protagonista, Jean Valjean.

Espectáculo “O Capote”. A partir do conto de Nikolai Gogol, a Alma d’Arame e O Teatrão combinam actores, objectos, marionetas e música ao vivo para contar a história de uma vida anónima transformada pelo desejo de ter um casaco novo. (© Pedro Barral – agendaculturalporto.org)

Uma triste partida

Dois poetas deixaram-nos quase no mesmo dia: Jorge Palma e o meu amigo José Viale Moutinho. Acreditem que, para mim, esta última partida foi uma surpresa! Conheci o Viale Moutinho nos anos 80, quando ele era ainda o responsável pela redacção do Diário de Notícias (DN), no Porto. Redacção que ficava no mais belo edifício da Avenida dos Aliados. Com certeza, foi essa visão diária que motivou o livro com os seus contos, intitulado “Apenas uma Estátua Equestre na Praça da Liberdade”. Escritor e poeta de enorme criatividade, narrador e dramaturgo, José Viale Moutinho também foi cronista e tradutor. Ele me dedicou, há tempos, um poema que, sem dúvida, está guardado no labirinto da minha biblioteca; e, mais tarde, a tradução do “Fulgor y Muerte de Joaquin Murieta”, única peça de teatro de Pablo Neruda, encenada por mim para o Teatro Art´Imagem.

José Viale Moutinho (casadecamilo.wordpress.com)

Quero, igualmente, lembrar que foi ele que, quando era presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, nos cedeu as instalações que fizeram possível o nascimento do primeiro Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto (ESAP) – antiga Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, C.R.L. – na cidade. Isso aconteceu no ano de 1982. Essa ajuda foi decisiva para o andamento futuro do curso e para a sua implantação no Porto. Finalmente, pela sua generosidade, apresentou-me os seus amigos, o poeta Rebordão Navarro, o arquitecto Fernando Lanhas e, num encontro muito curioso, o realizador Juan Luis Buñuel (filho de Luis Buñuel) numa sessão memorável de uma edição do Festival Internacional de Cinema do Porto (Fantasporto).

À sua filha, à sua companheira Manuela, aos seus irmãos e a todos aqueles que, em algum momento, se cruzaram com este homem notável, os meus sentimentos de perda e de nostalgia!

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19/10/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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