Coitadinho do velhinho

 Coitadinho do velhinho

(Créditos fotográficos: Spenser Sembrat – Unsplash)

Manuel Deniz-Jacinto foi ensaísta, crítico,
conferencista, professor, actor e encenador.
(web.archive.org)

Como disse o meu saudoso amigo Manuel Deniz-Jacinto a umas meninas num autocarro, que se riam de uma velhinha: “As meninas não gostam de velhinhos? Pois muito pouco durarão se lá não chegarem.”

Ou, com o seu endiabrado sarcasmo, recordo outro episódio com Almada Negreiros, a que assisti na Brasileira do Chiado. Ele tomava um chá e as mãos tremiam-lhe; e umas adolescentes, noutra mesa, riam-se. Quando o que elas tinham pedido lhes acabara de ser servido, Almada levantou-se e virou-lhes a mesa por cima, recuando a sair e dizer: “Desculpem o velhinho, que já não sabe o que faz”… As tontinhas nunca devem ter sabido quem era o velhinho, mas ficaram com as roupinhas cheias de nódoas, já que das nódoas da sua ignorância nunca devem ter visto que as tinham em dobro. Coitadinhas!

José de Almada Negreiros. (gulbenkian.pt)

03/11/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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