Do erro e da polémica nos exames nacionais!

 Do erro e da polémica nos exames nacionais!

(Créditos fotográficos: Billy Albert -Unsplash)

Quem acompanha com mais atenção os problemas da escola e do ensino sabe que temos, em Portugal, um longo historial de erros ou de polémicas à volta de diversos exames nacionais do 12.º ano e de exames de outros anos de escolaridade.

(facebook.com/jornalsol)

Costuma dizer-se que se aprende com os erros. Mas, pelos vistos, nesta matéria, os organismos responsáveis pela elaboração dos exames muito pouco têm aprendido. Recordemos, só por curiosidade, cinco exemplos, os quais, provavelmente, já estarão no sótão do esquecimento! No entanto, qualquer leitor poderá encontrar outros exemplos. Basta pesquisar nos “senhor” Google!

  • Exame de Português, 12.º ano, de 2014. A  Associação de Professores de Português (APP) identificou um erro num item de escolha múltipla, num texto de Lídia Jorge, sobre actos de fala. O Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) recusou o erro inicialmente, mas foi, depois, obrigado a ceder. E para não prejudicar os alunos aceitou como válida uma segunda resposta.
  • Exame de Português, 12.º ano, de 2017. O Ministério da Educação teve de investigar possíveis fugas sobre as matérias que saíram em exame, porque, dias antes da realização da prova, circulou intensamente nas redes sociais e no WhatsApp uma gravação áudio em que uma estudante revelava, com exatidão, os conteúdos que iriam sair no exame. E isso confirmou-se. A Polícia Judiciária acabou por identificar a origem da fuga: uma professora de uma escola secundária de Lisboa que tinha tido acesso privilegiado aos critérios e conteúdos das provas e que partilhou os detalhes com terceiros.
  • Em 2019, o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)  foi obrigado a admitir fragilidade na formulação de uma pergunta no exame de Matemática Aplicada às Ciências Sociais. Após contestação por parte dos docentes, o IAVE foi obrigado a garantir que todas as respostas cientificamente fundamentadas seriam aceites.
  • Em 2021, a Sociedade Portuguesa de Física apontou um erro científico grave na prova de Física e Química A (12.º ano). Porém, acabou por se concluir que os alunos podiam contornar a resposta e nenhum terá sido prejudicado.
  • Em 2025, a prova de Filosofia, corrigida em formado digital, gerou algum caos, porque a plataforma trocou respostas de alunos ou cortou respostas a meio, originando injustiças na correção.
(Créditos fotográficos: Timur Shakerzianov – Unsplash)

Poderíamos recordar muitos outros casos polémicos. Mas o nosso objectivo é analisar a vergonha mais recenterelativa ao exame de Português deste ano e que já levou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação a ordenar uma auditoria ao Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, I.P. (EduQA), que é, hoje, o organismo público responsável pela qualidade, inovação curricular e avaliação externa das aprendizagens no sistema educativo português; e que substituiu o Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) e o IAVE, que, durante anos, foram responsáveis pela feitura dos exames e outras provas nacionais.

Como seria de esperar, a grande contestação deste ano partiu da APP, que é membro, de pleno direito, do Conselho Científico do EduQA. Na prova deste ano, era pedido aos alunos e alunas que escrevessem uma apreciação crítica a um cartoon. de Javad Tajkoo. Acontece, porém, que a pergunta formulada no enunciado de exame era análoga a um item de apreciação crítica do mesmo cartoon, publicado em agosto de 2025, num livro de apoio aos exames, editado pela LeYa.

(Créditos fotográficos: Ben Mullins –Unsplash)

A APP já lamentou a infeliz coincidência e até esclareceu que a autora desse livro da editora Leya pertence à Direção da APP. A esse respeito, argumentou: “Contudo, não é autora de provas de avaliação externa, não é nem nunca foi nomeada como auditora de provas e não forneceu nem teve acesso a informação privilegiada, dado o carácter totalmente sigiloso de todo o processo, imprescindível para a elevada qualidade do trabalho realizado em avaliação externa e para a confiança da comunidade educativa e da sociedade, em geral, na avaliação externa dos alunos.”

Outras organizações como a Missão Escola Pública (MEP) –  movimento cívico e associação de professores portugueses – também avançaram com pedidos de esclarecimento ao Ministério da Educação devido à quebra de equidade para os alunos que estudaram por esse manual específico. Muitos estudantes ouvidos pelos meios de comunicação social consideraram a prova muito fácil. Não ouvimos nenhum – dos mais de 81 mil que realizaram a prova – a confessar que tinha estudado pelo tal manual da LeYa, mas, certamente, isso aconteceu em alguns casos e, obviamente, tais alunos foram beneficiados.

(Créditos fotográficos: Billy Albert -Unsplash)

As críticas da APP foram muito mais longe, considerando que o exame não avalia a maior parte dos objectivos do programa, descurando muito particularmente os  conhecimentos gramaticais. A APP considera ainda que o exame incidiu muito na interpretação de texto, mas negligenciou outro tipo de conhecimentos. Paulo Feytor Pinto, presidente da APP, considerou que a avaliação gramatical foi descurada devido à polémica instalada em torno da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), a nova terminologia linguística que foi suspensa em Abril, devido a erros e imprecisões científicas, embora tenha continuado em vigor no Ensino Secundário. Dada a polémica à volta desta nova terminologia iniciada em 2004, muitos docentes continuaram a ensinar a antiga nomenclatura gramatical. Ora, sendo assim, ao não incluir perguntas de cariz gramatical, nenhum aluno seria prejudicado. Foi, talvez, um boa forma que o Ministério da Educação encontrou de fugir com o “rabo à seringa” e de agradar “a Gregos e a Troianos”!

(Créditos fotográficos: Yustinus Tjiuwanda – Unsplash)

Outra crítica que a APP faz é ao excesso de escolhas múltiplas. Este peso excessivo contribui para desvalorizar o mais importante: a capacidade de escrita e de argumentação. Muitos outros críticos referem a facilidade que a identificação mecânica das respostas traz, em detrimento do que seria fundamental:  produzir um texto literário, coerente, fundamentado, organizado. Todos os autores críticos deste tipo de exames, nos quais nos incluímos, sabem que a escolha múltipla privilegia a memorização, ignorando o pensamento crítico, podendo levar ao sucesso apenas devido ao acaso e não permitindo avaliar o mais importante: a capacidade de expressão rigorosa e criativa.

E esta é, quanto a nós, a crítica principal a fazer a este tipo de exame. É lamentável que os nossos alunos e alunas, ensinados a construir textos argumentativos – principalmente, nas disciplinas de Português e de Filosofia –não sejam confrontados com esta exigência no exame de Português ou em outros exames.

Como muitos portugueses e portuguesas, fazemos parte do grupo dos que clamam que este tipo de exames tão fáceis tem de acabar!

Para que pode servir um exame que não exige leitura nem expressão escrita séria? A quem convém que os nossos jovens estejam, hoje, reféns do digital, mas que não saibam ler nem escrever com rigor, mostrando que serão, no futuro, cidadãos intervenientes e críticos?

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22/06/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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