Colónia do Sacramento

 Colónia do Sacramento

Colónia do Santíssimo Sacramento, no Uruguai. (© Lúcio Marques Ferreira)

Cerca e cravo. Espanhola e portuguesa. Pedra e céu.

Houve uma vez um capitão nascido português que, até por isso, viveria ávido de mar, ou seja: de viajar pelo Mundo afora. Entretanto, em grande desforra à sua origem, o faria ao serviço da Coroa Espanhola.

Fernão de Magalhães deixou as coroas portuguesa e a de Castela malucas, a  brigarem pelas Ilhas Molucas, as relações entre as coroas tornavam-se mais e mais aziagas a cada passagem sua pelas Ásias. As duas coroas, a cada passagem por algum lugar distante, levavam os sítios “descobertos” a disputas, o ranço era diplomático, mormente sem lutas.  

Tidore vista de Ternate, nas Ilhas Molucas. (pt.wikipedia.org)

Um certo dia, ele saiu disposto a viajar pelo Mundo em circum-navegação, alegava que iria descobrir novas vias de passagens para as “Índias”. Cismou de rumar até a Patagónia. O estreito mais ao sul das Américas levaria até o seu nome.

Um ultraje de trajeto. Ele expandia por demais a Espanha, a ponto de Portugal contestar aquelas tamanhas e desproporcionais pretensões territoriais, invocou a necessidade de um tratado. Dividir-se-ia o Novo Mundo por uma linha imaginária,  para não se repetir a questão pendente das Molucas.

Mapa da região geográfica da Patagónia. (pt.wikipedia.org)

Portugal não estava a gostar nada das viagens do Fernão, aliás, de sua pessoa nem Camões gostava, assinalou nos Lusíadas: “O Magalhães, no feito, com verdade Português, porém não na lealdade.”

O capitão, em 1520, avistaria uma colina, deu-lhe o nome de Montevidi (foi visto o monte). Os Espanhóis ergueriam por ali Montevideu, exatamente quatro anos depois daquela sua viagem. Eles tinham pressa, cientes da importância de se estabelecer por ali um baluarte orientado para firmar o domínio absoluto do Rio da Prata.

Os Portugueses não os atacariam, a disputa evoluiria num subtil empreendimento contra a desfeita: fundaram a Colónia do Divino Sacramento, que, mais tarde, seria vinculada ao Brasil português, ao ser criada a Província Cisplatina (“cis” equivale a “do lado de cá”), um bastião para divisarem as terras espanholas no outro lado do rio.

Tratado de Tordesilhas. (todamateria.com.br)

O Tratado de Tordesilhas era, alegadamente, impreciso: dividia o mapa-múndi a partir de 370 milhas a oeste de Cabo Verde, mas, por se tratarem de dez ilhas, a contagem seria feita a partir de qual? Ademais, Portugueses e Espanhóis não se entendiam sobre o que seria exatamente a extensão de uma milha…

Portugal estaria a pensar: “Pois, que fiquem os Espanhóis com a falsa prata, dado o argênteo nome do rio ter sido dado devido à sua cor e não por presença de prata.”

A Portugal interessava mesmo era o ouro das minas de Potosí. A ideia era abrir-se caminhos até se chegar lá. E o caminho mais curto, que foi ponderado, seria o dos rios Paraná e Uruguai. Colónia seria, apenas, o começo. Fundada por um tal de Dom Manuel Lobo, a mando da coroa portuguesa.

Colónia do Sacramento, no Uruguai: antigo Portão de Armas.
(pt.wikipedia.org)

O rei espanhol Filipe II não tardou muito em cismar de incorporá-la. Assim o fez. Portugal retomou-a. Tal disputa ocorreu sete vezes. Era importante para Portugal haver Colónia, sendo sua para poder espreitar Buenos Aires, a 50 quilômetros de distância e ter Montevideo a uma curta distância. O lugar era perfeito. Não carecia de se virem a estabelecer outras colónias nos entornos do estuário.

Colónia surgiu advinda de uma estratégia portuguesa: a de se dominar o rio Amazonas ao norte e o Rio da Prata ao sul, a serem fronteiras naturais, cinturões fluviais do domínio estabelecido, incontestável. Colónia nasceu portuguesa, tornou-se sacramental para os Portugueses, era um cadinho de Portugal: poético, melancólico, com as suas casas baixas de portas entreabertas; pétrea, resistente, uma vila acastelada composta de caminhos de pedras e com carvalhos a promoverem sombra, plenos de pardais. Lá se ergueu a Basílica  do Santíssimo Sacramento e o Convento de São Francisco Xavier.  

Colónia do Sacramento, no Uruguai: Basílica do Santíssimo
Sacramento. (pt.wikipedia.org)

Uma fortaleza pensada para ser abençoada. Assentada na ribeira em silencio,  uma astuta sentinela. Tendo ao meio um pátio por onde se chegava através de uma ponte levadiça, as suas correntes a promoverem o único ruido, a ponte, no seu sobe e desce, era o único peso a levar alguém para dentro daquela leveza silenciosa.  Falasse Colônia, teria de sempre falar Português.

A Espanha não queria outra guerra, andava ocupada demais com uma contenda contra a Holanda. Sendo assim, foi deixando o acampamento português virar vila, uns portugueses chegarem dos Açores e de Trás-os-Montes, para povoá-la. Com isto, o entorno ganhou plantações de trigo, pomares, gado; surgiram os armazéns. Os Espanhóis fingiam não se darem conta do brasão português posto  à porta da cidadela, foi somente quando acharam ser o momento adequado que novamente atacaram.

Rua do Comércio em Colónia do Sacramento, no Uruguai.
(pt.wikipedia.org)

Destruíram o que puderam. E repetiriam o ato outras vezes. Portugal teve de refundar a cidade por três vezes. Levar-se-ia gente. Gente é que promove uma vila, uma cidade. Para o incentivo das tropas levou-se prostitutas, para sanear as aflições das consciências levar-se-ia padres.

Para reforçar Colónia, no sentido de permanecer portuguesa, a Inglaterra enviou  esquadras para intimidarem os Espanhóis.  

Os buenairenses não se importavam com o facto de Colónia ser portuguesa, viam-na sendo uma vizinha que vinha mesmo a calhar. Se, por um lado, Espanha proibia as mercadorias europeias virem nos navios, partindo de Colónia em barcos, os contrabandistas levavam pelo rio azeite, sardinhas, vinhos, tecidos, móveis. Embarcados desde a Bahia e de Pernambuco, os produtos eram muito apreciados e “preciados”: eram pagos com o ouro de Potosí. Quanto mais Espanha o perdia, Portugal estava a ganhar. O caminho de acesso ao ouro de Potosí fora alcançado.  

Vista de Potosí, na Bolívia. (pt.wikipedia.org)

O gado trazido pelos jesuítas prosperou, seguia para a Europa em forma de couro. Este abasteceria as correias das máquinas nos primórdios da Revolução Industrial.

O tráfico de escravos africanos para a Espanha sul-americana dava, também, bons lucros a Portugal.

(reddit.com/r/imaginarymaps)

Colónia viveu o seu ápice ao ser finalmente portuguesa, finda a última tentativa espanhola de dominá-la. A portuguesa Colónia dita doravante ser brasileira, indivisa e apaziguada, existiu por sete anos, até a Província Cisplatina declarar a sua independência, ao emergir a República Oriental do Uruguai. Doravante não seria portuguesa nem espanhola: uruguaia.

O que muito agradou a Inglaterra, ávida de desconstruir o império espanhol na América, auxiliando a que se formassem nações independentes numa partição de terrenos. 

Painel de azulejos comemorando a fundação de Colónia.
(Museu Português –viajenaviagem.com)

À época das intervenções espanholas, Colónia absorveu um gosto pelo idioma espanhol, aos telhados portugueses de duas ou de quatro águas sobre as casas de pedra juntaram-se moradias à moda espanhola: casas de tijolos com terraços planos. Uma “plaza” criada pelos Espanhóis fora da vila fortificada foi um ganho. A vila emuralhada teria sido por um tempo bloqueada, ocasião em que Colónia conheceu a fome. Surgiram as ruas arborizadas extramuros. Espanha foi ganhando terreno…

Isto teria acontecido com o advento da luta norte-americana pela independência.  A Inglaterra não tinha como acudir aos Portugueses, voltara as suas atenções e embarcações inteiramente para lá. A última tentativa de dominação espanhola de Colónia contou com nove mil soldados e 400 navios. Expulsaram os Portugueses por um tempo, mas Portugal não havia de largar o osso, reconquistou-a ainda que por um brevíssimo tempo de sete anos juntando-a ao mapa brasileiro.

Ao entrarmos pela porta que existe adiante do passadiço, com todo
um aspecto medieval, encontramos um sítio impregnado de Portugal.
(© Lúcio Marques Ferreira)

A Província Cisplatina não quis ser brasileira, falava espanhol, tinha ganas de ser livre. O seu ideal cumpriu-se com a promoção da República, tudo o mais seria história.

Na verdade, Portugal nunca saiu de Colónia. Ao entrarmos pela porta que existe adiante do passadiço, com todo um aspecto medieval, encontramos um sítio impregnado de Portugal. Atemporal, um estado de espírito.

A vila histórica tem, hoje, um Museu Português, um museu do azulejo, as ruinas do convento, a basílica simples – condizente com a espiritualidade e não com a ostentação –, a Rua dos Suspiros pavimentada em pedra e um casario rosado, amarelo torrado, branco, remissivo ás aldeias portuguesas.

A Calle de los Suspiros guarda histórias super-interessantes sobre
outros tempos! (Créditos fotográficos: @gaiavani –
maladeaventuras.com)

A respeito da Calle de los Suspiros há controvérsias quanto ao seu nome. Há quem aposte que se trata de uma “broma” (ou brincadeira), posto que ali havia quatro prostíbulos, onde, como é claro, se suspirava. Já os puristas apostam que seria uma rua onde passavam os condenados à morte. Não se sabe ao certo se o nome da rua foi dado pelo despudor dos prazeres ou em memória do desprazer dos desesperos.

Os Espanhóis eram inflexíveis: levavam os condenados para serem executados em praça pública, aquilo seria uma intimidação coletiva. Os Portugueses, por precisarem de aumentar o seu contingente numérico populacional, frequentemente poupavam os corpos e as almas. Davam-lhes armas para defenderem Portugal enquanto os vigiavam.

Em todo caso, Colónia é o único lugar que conheci em que Portugal e Espanha não se estranham. Absorveu-os. Haja preconceitos mútuos, há que jogá-los no rio. Colónia orgulha-se de ser luso-espanhola na sua história. E, apesar de ela ter sido brasileira, ainda que por um tempo algo ínfimo, não vislumbrei por lá nenhum Brasil. Ou melhor: vi sim! Até que um tanto assim.

A vila foi uma antiga colónia portuguesa e preserva ruas de pedras e casas muito antigas. (mochilaotrips.com)

Ali, encontrámos Rodolfo Olyvera (neto de oliventinos cujos avós se proclamavam portugueses- espanhóis ou, por vezes, espanhóis-portugueses) e a Inês Oliveira (neta de um avô de Vilar Formoso e de uma avó de Fuentes de Oñoro, que caminhavam, respectivamente, dois quilômetros para namorarem; porventura, viam-se no meio do cá e do lá).

Rodolfo e Inês estavam em lua-de-mel, posto que o orçamento indicara que não cobriria uma viagem ibérica. Gostariam de ir para aqueles lados de onde vieram os seus avós, mas optaram por celebrarem o pós-núpcias em Colónia. A pensarem, como eu, que os dois países se encontram é ali, um lugar perfeito para a celebração do encontro das suas origens.

Casarão colonial português, atual Museu do Período Espanhol.
(pt.wikipedia.org)

Ele a dizer-me: “Agora, somos um! Olivais em anuência.” Ela a dizer-me: “Para a nossa pândega não há alfândega.”

Ele a deduzir: “Essa cidade tem nela os dois espíritos ibéricos afins.” Ela a concluir: “Foi um acerto vir. Não fosse o câmbio, estaríamos em duas fronteiras demarcadoras de uma ancestral desavença. Ainda que por outros fins, vivam hoje uma desfronteirização em um outrossim…

Os dois torrões ibéricos por aqui são uma benquerença, não há diferença. Colónia reduz o indiviso a uma parcimónia. É, com toda a certeza, espanhola e portuguesa. Essa é a nossa natureza!

Ouvia-os a ver ao fundo um farol voltado para o rio.
(© Lúcio Marques Ferreira)

Ouvia-os a ver ao fundo um farol voltado para o rio.

Rio que tudo une, águas convergentes, somente terras têm uma mania de  divergências. O que não vem ao caso em Colónia.

Por vezes, avós de outrem que vivenciaram bem-quereres indicam os saberes. Os seus netos, os deveres.

O casal encontrado prossegue, sendo uma síntese de Colónia. Desconflitada de estranhamentos, existe contemporaneamente assentada no reconhecimento da mais-valia das somas.

Fui de autocarro para Colónia, desde Montevideu, a ouvir as
conversas dos nativos e a ver as pradarias pela janela.
(© Lúcio Marques Ferreira)

Fui de autocarro para Colónia, desde Montevideu, a ouvir as conversas dos nativos e a ver as pradarias pela janela. O veículo, de vez em quando, parava numa cidadezinha onde desciam ou subiam pessoas. Vindo a ser o único estrangeiro no seu interior, tudo me parecia ser exatamente uruguaio.

Nenhum resquício de Portugal, senão eu, e como único resquício de Espanha o idioma. No mais, foram três horas de imersão uruguaia. Até eu encontrar o ponto de encontro de Portugal e de Espanha na sua força tamanha, aquela que existe em Colónia.

Na volta, escolhi o buque super-rápido. Numa hora, eu estaria em Buenos Aires. No interior do barco, toda a gente parecia entretida com o “duty-free shop” aquático, memorial repetido do comércio de importados flutuante sobre o Rio da Prata que não se perdeu. Havia argentinos, a fazerem compras. E havia estrangeiros. Mas, afinal, onde estavam essas pessoas que eu não vira em Colónia?

Colónia reduz o indiviso a uma parcimónia. É, com toda a certeza,
espanhola e portuguesa. Essa é a nossa natureza!  
(© Lúcio Marques Ferreira)

Vinham de alguns haras, campos de golfe, “resorts” periféricos? Distâncias que não visitei?

Não tinha ainda me dado conta de que, na sua maioria, era uma tropa de jogadores de futebol seguidos por um séquito de fãs. Ingleses, na sua maior parte, e suados.

E alguns argentinos a usarem água-de-colónia, aquela lá de Köln, comprada no “free-shop” aquático.

Os inventores do futebol a estranharem os campeões das copas vestidos em   camisolas do Messi.

O ruído vinha a ser um estertor de estranhamentos. “Too messy!”

Espirrei desgarrado junto de um luso-espanhol desagrado. A paz de Colónia ficara para trás.

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22/01/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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