Conceito de “pessoa” na filosofia de Wittgenstein e de Sartre (2)
Jean-Paul Sartre influenciou muitos filósofos humanistas e marxistas de meados do século XX. (psicologiaymente.com)
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1 – Sartre: contextualização, vida e obra
Figura central da corrente existencialista, o francês Jean-Paul Sartre nasceu em 1905 e faleceu em 1980. Manteve durante toda a vida uma relação com Simone de Beauvoir.

por ser representante do existencialismo. (artistasunidos.pt)
A Sociologia, a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, o Marxismo, e os Estudos Pós-Coloniais ajudaram a desenhar o seu pensamento. Foi marcado pela Segunda Guerra Mundial que o transformou em combatente na Resistência Francesa. Viveu no período da chamada Guerra Fria, tornando-se um intelectual comprometido, vindo a filiar-se no Partido Comunista Francês, embora depois tenha rompido com este partido, na sequência da repressão soviética sobre a Revolução Húngara de 1956.
Testemunhou, ao longo da vida, a ascensão e a queda de regimes, alguns processos de descolonização, a revolução estudantil de Maio de 1968 e, com a sua obra, contribuiu para um debate sobre liberdade, responsabilidade e marxismo. Sartre recusou-se a receber o Prémio Nobel de Literatura em 22 de Outubro de 1964, alegando que não aceitava prémios e honras oficiais, porque não desejava ser transformado em instituição.

Como datas marcantes da sua vida, relembramos a da publicação (em 1943) de “O Ser e o Nada”, que consolidou o existencialismo; a da fundação da revista Les Temps Modernes (em 1945) com a sua companheira Simone de Beauvoir, Merleau Ponty e outros; bem como a da publicação de “O Existencialismo é Um Humanismo” ( em 1946); e também a da publicação da obra “Crítica da Razão Dialética” (no ano de 1960), tentando conciliar o marxismo e o existencialismo, mas, ao mesmo tempo, mantendo-se crítico tanto do sistema capitalista quanto dos regimes totalitários, como o soviético; ainda marcante foi a data do lançamento do jornal Libération, em 1973.
Merecem ainda destaque as obras “A Náusea” (de 1938), “O Muro” (de 1929), “As Moscas” (de 1943), “Entre Quatro Paredes” (de 1944) e “As Palavras” (de 1964).
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2 – Ideias centrais do existencialismo sartriano
Feita a contextualização do autor e da obra, vejamos, resumidamente, as ideias centrais do existencialismo sartriano:
- A Humanidade está condenada a ser livre e isso traz a responsabilidade a cada um.
- Primeiro o ser humano encontra-se e, só depois, se começa a definir.
- Cada ser humano, através das suas escolhas, atribui significado aos factos da sua vida, o que o torna responsável pela interpretação que faz da realidade.
- O ser humano não precisa da ideia de Deus, pois nada de exterior ou transcendental o pode salvar.
- A existência precede a essência porque o ser humano não tem uma natureza ou finalidade preestabelecida por um criador. Ele é lançado no Mundo e deve, a partir do nada inicial, definir-se.

Essa liberdade total, sem desculpas nem justificações externas (como Deus ou a Natureza), é vista como um peso, gerando angústia, porque o indivíduo tem de fazer escolhas constantes e criar o seu próprio código moral. A tentativa de fugir dessa liberdade, agindo como se as circunstâncias externas determinassem tudo, é o que Sartre considera “má-fé” – uma forma de autoengano que impede o indivíduo de assumir a sua verdadeira e responsável liberdade.
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3 – O conceito de “pessoa” em Sartre
Vejamos agora mais detalhadamente o conceito de “pessoa” na obra de Jean-Paul Sartre. De acordo com o existencialismo ateu, Sartre parte do princípio de que se Deus não existe, sendo possível encontrar, pelo menos, um ser no qual “a existência precede a essência”, um ser anterior a qualquer definição religiosa ou metafísica, que exista no Mundo. Tal ser é o homem.
Por isso, afirma que não há nenhum destino nem propósito exterior à realização humana. Isto é, o homem é um ser-no-mundo, cuja característica primordial é a liberdade. Para Sartre, somos incondicionalmente livres, sós e sem desculpas. Uma vez destituído de essência, o homem deve fazer-se, criar-se a si mesmo; a cada momento o ser humano requer uma nova escolha e o conjunto de acções define o seu projecto existencial.

É na conferência “O Existencialismo é um Humanismo” (de 1946)que encontramos o núcleo central da perspectiva filosófica e humanista do pensamento sartriano. Ao afirmar a precedência do existir em relação à essência, o filósofo estabelece a primeira máxima existencialista: “O homem primeiramente existe, descobre-se, surge no mundo; e só depois se define” (Jean-Paul Sartre, em “O Existencialismo é um Humanismo”).

Então, nesta perspectiva, criamos a nossa imagem e os nossos valores, pois, antes de alguém viver, a existência não é nada. Cada pessoa é a única responsável por dar sentido e atribuir valores à sua própria existência, os quais serão os resultados das escolhas. Dessa forma, Sartre afirma que o homem não é definível, pois, inicialmente, não é nada; só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que fizer de si mesmo. Assim, para Jean-Paul Sartre, o homem existe e tem consciência da sua existência, ou seja, ele é um ser que se lança para as coisas do Mundo, projecta-se para o futuro e, consequentemente, é a própria consciência do processo de fazer-se.
Para o existencialismo sartriano (ver novamente Jean-Paul Sartre, em “O Existencialismo é um Humanismo”), não há outro legislador a não ser o próprio ser humano. Daí a importância da acção humana: “O homem é não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele deseja o impulso para existência; ou seja, o homem não é nada mais [d]o que ele faz, não é mais do que os seus actos. O homem nada mais é o que o seu proje[c]to; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus actos.”

Essas características humanas são fundamentais para justificar a articulação entre a questão ética e a condição humana. A preocupação do filósofo é de que a pessoa, diante de suas inúmeras escolhas, assuma a responsabilidade de uma opção. Isto é, voltando a consultar obra de Jean-Paul Sartre intitulada “O Existencialismo é um Humanismo”, apreendemos que “a partir do momento em que as possibilidades que estou considerando não estão diretamente envolvidas em minha ação, é preferível desinteressar-me delas, pois nenhum Deus, nenhum desígnio poderá adequar o mundo os seus possíveis à minha vontade.”
Seguindo a mesma obra de Sartre, verificamos que denuncia “o quietismo coma a atitude daqueles que dizem: os outros podem fazer o que eu não posso. A doutrina que lhes estou apresentando é justamente o contrário do quietismo, visto que ela afirma: a realidade não existe a não ser na a[c]ção […] porque o homem está desamparado sobre a terra e os seus actos são compromissos definitivos, absolutos; ele carrega a responsabilidade de um mundo que não é a obra de uma potência exterior, mas dele mesmo, e no qual se inscrevem tanto suas derrotas como suas vitórias. […]Toda ação é uma tomada de posição individual, uma escolha e uma decisão.”

Em cada momento, segundo Sartre, diante das escolhas que faz, a pessoa torna-se não só responsável por si, mas envolve toda a Humanidade; e, ao escolher, actua e afecta o Mundo. Afinal, cada escolha posta em acção provoca mudanças não só naquele que age, mas algo ainda maior que é provocar mudanças no Mundo e, uma vez realizadas, não podem ser desfeitas. Isto mostra que a única coisa que define a pessoa é o seu acto; acto livre por excelência, independente do facto de que o ser humano esteja determinado, por um destino ou por algo supra-sensível. Desse modo, a pessoa é completamente envolvida no processo histórico através das suas escolhas e acções, comprometendo igualmente a Humanidade. Não importa o que faça, é sempre inadmissível não assumir a sua responsabilidade.
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4 – Conclusão: pontos convergentes e pontos divergentes

White Images/Scala, Florença – artreview.com)
Em modo de conclusão, podemos dizer que existem pontos convergentes e pontos divergentes entre os autores Jean-Paul Sartre e Ludwig Wittgenstein.
Pontos convergentes: Tanto Wittgenstein (o filósofo da “segunda fase”, entenda-se) como Sartre têm em comum uma rejeição e/ou uma ruptura com uma certa tradição histórica inerente à Filosofia Ocidental. Essa tradição é a da metafísica platónica e aristotélica, que assenta naquilo que se pode designar por “essencialismo”.
O essencialismo pode ser entendido, usando a explicação usada por outro grande filósofo do século XX, Karl Popper, como uma abordagem teórica que olha para definições partindo “da esquerda para a direita”, como é o caso da definição “Sócrates é uma pessoa”, que funciona como uma resposta à pergunta “O que é Sócrates?” ou “O que é que ‘Sócrates’ quer dizer?”

Quer para Wittgenstein quer para Sartre, os problemas da filosofia (e/ou da metafísica) surgem de uma confusão que brota de uma obsessão com definições que marcou a filosofia desde o tempo de Platão e de Aristóteles. Esta obsessão consiste, essencialmente, na ideia (que prevaleceu até ao século XX) de que as definições de conceitos e os termos são como que fórmulas a serem aplicadas. Neste sentido, quer um quer outro rejeitam a ideia tradicional de que existe uma essência imutável associada ao conceito de “pessoa”.
Wittgenstein rejeita essencialismos de qualquer tipo, mas Sartre é claro quando diz que a pessoa não tem essência prévia, concluindo que a existência precede a essência. Neste sentido, os dois concordam que é na acção que a pessoa se manifesta: segundo Sartre as nossas escolhas definem-nos e Wittgenstein dirá que as formas de expressão – não apenas a linguagem em si, mas também a forma como esta expressa na prática e/ou descreve o comportamento prático dos indivíduos – são inerentemente poderosas, o que implica (mesmo que Wittgenstein não aborde essa questão explicitamente) uma preocupação ética ligada à dimensão inerentemente social da linguagem.

Sartre considera que a pessoa é uma unidade de “ser-no-mundo”, não uma alma dentro de um corpo. É aí que reside o seu poder e, consequentemente, a dimensão ética da “pessoa”.
Pontos divergentes: Em nenhuma parte da sua obra Ludwig Wittgenstein aborda directamente o conceito de “pessoa.” Quando muito, abordar o conceito de “pessoa” a partir de Wittgenstein seria algo que, inevitavelmente, teria de ser feito a partir dos parâmetros da filosofia da linguagem que ele estabelece (quer no “Tratactus” que nas “Investigações”). Mas, de qualquer maneira, é sempre possível discutir o que é que, de um ponto de vista wittgensteiniano, significa (ou pode significar) esse conceito. No “Tratactus”, por exemplo, pode-se fazer uma correspondência entre “pessoa” e o “eu”. Isto é, o “sujeito que funciona como o limite do mundo, mas que não é o mundo nem pertence ao mundo”. Tal correspondência é possível porque existe no “Tratactus” uma ambiguidade (de certa maneira, até intencional) acerca do que é que os termos como “mundo”, “eu” e “sujeito” significam de facto. Ora, isto leva-nos, precisamente, à ideia de “jogo de linguagem” que ele apresenta nas “Investigações Filosóficas”, em que “pessoa” pode significar o que quer que seja – no jogo de linguagem em que o termo é usado – que se entende por “pessoa.” No entanto, isto não é tão redutor ou simplista como possa parecer.
Sartre defenderá sempre a pessoa no contexto de uma existência concreta e ética. E isto é algo que Wittgenstein subscreveria. Mesmo que parta de pressupostos filosóficos diferentes.

Para Wittgenstein, o “eu” é um conceito que só tem sentido em função do discurso. Na perspectiva de Sartre, o “eu” é sempre uma consciência intencional. Para Ludwig Wittgenstein, a liberdade não é categoria existencial, porque o seu foco está no modo como falamos sobre responsabilidade, intenção ou decisão. Por sua vez, Jean-Paul Sartre centra a pessoa na liberdade radical. No que se refere à relação com os outros, podemos dizer que, segundo Wittgenstein, só dentro de uma comunidade linguística faz sentido falar de mente, de sentimentos ou de intenções; enquanto, na opinião de Sartre, o olhar do outro condiciona a minha liberdade.
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(*) Artigo ensaístico escrito em colaboração com Carlos Alexandre Monteiro.
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13/11/2025