O estrondo como argumento
(cnnportugal.iol.pt)
Era previsível: o confronto entre José Pacheco Pereira e André Ventura terminou sem um vencedor inequívoco. Mais reveladora do que o debate em si, porém, foi a discussão que se lhe seguiu – toda ela absorvida pela tentativa de determinar quem saiu por cima, quem foi diminuído, quem se revelou mais “incisivo”. Foi, então, que se tornou visível algo mais inquietante: a erosão dos critérios que, outrora, permitiam discernir o que significa vencer um argumento.

Durante largos anos, à pergunta “quem venceu?” correspondia uma resposta relativamente consensual: quem sustentou os argumentos com maior rigor, quem manuseou os factos com mais precisão, quem soube expor as fragilidades do adversário. À luz deste referencial, um dos intervenientes destacou-se: Pacheco Pereira.
No entanto, a centralidade destes critérios foi-se diluindo, até ceder lugar a uma sobreposição incómoda entre dois planos distintos de debate. De um lado, aquele que se ancora na densidade das ideias e na memória histórica, à medida de Pacheco Pereira. Do outro, um registo mais próximo do espetáculo, orientado pelo ritmo, pela intensidade e pelo impacto imediato – domínios que encontram em André Ventura um exímio seguidor. O primeiro, nos dias que vivemos, pouca relevância detém; o segundo, cada vez mais, é o que capta os públicos.
Nada disto é, em bom rigor, inteiramente novo: a comunicação política sempre procurou o efeito e soube explorar o impacto. Porém, verifica-se agora a sua progressiva autonomização face ao conteúdo – um desprendimento que se consuma sem pudor e quase sem oposição.

Vale a pena convocar a imagem de dois jogadores, absortos numa partida de xadrez, subitamente confrontados por uma pomba que pousa sobre o tabuleiro e dispersa as peças. Num universo regido por regras estáveis, ninguém ousaria sustentar que a pomba venceu. Não obstante, se o critério de avaliação se deslocar para a atenção captada, para a violência do gesto ou para o estrondo que dele emana, não faltará quem esteja disposto a erguer a pomba em triunfo. É precisamente aí que reside o problema – não na pomba, que nada faz mais do que cumprir o seu papel de… pomba, mas no olhar que acolhe esse gesto e o eleva a princípio reinante da avaliação.

O verdadeiro desafio não está em dobrar o rigor às exigências do espectáculo, mas em impedir que este se constitua como horizonte único e incontornável. E esta responsabilidade, importa sublinhar, não se circunscreve aos protagonistas do confronto. Difunde-se pelos (i) moderadores, que assistem à distorção sem a problematizar, pelos (ii) meios de comunicação, que aferem a qualidade de um debate pela audiência que gera, e (iii) pelos comentadores, que replicam as mesmas métricas que dizem questionar. Estende-se, por fim, aos próprios (iv) espectadores, que ao cabo de uma hora e um quarto se interrogam sobre quem foi mais “demolidor” – quando a pergunta decisiva é outra, mais simples e mais exigente: quem tem razão?

Afirmar que André Ventura venceu, ainda que no suposto “plano da comunicação”, é uma conclusão redutora. E, em certa medida, condescendente. O que de facto se observou foi, mais precisamente, a sua prevalência dentro de um regime comunicacional particular – um enquadramento que privilegia a interrupção sobre a escuta e a intensidade sobre a verdade. Este regime, como sugerido num outro texto publicado neste espaço, não é espontâneo nem inevitável: foi construído, é quotidianamente reproduzido e, justamente por isso, permanece aberto à contestação.
É também a isso que o presente texto se propõe. Oxalá com algum sucesso.
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Nota do Director:
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23/04/2026