É o “zeitgeist”, meus amigos!

 É o “zeitgeist”, meus amigos!

(comexperu.org.pe)

Não culpem o Polígrafo

A publicação não é recente, nem tenho com ela qualquer relação, mas a volatilidade do feed encarregou-se de a trazer até mim. Feita esta ressalva – e manifestado o meu absoluto alheamento perante a peculiar educação do algoritmo –, peço apenas que não se confunda o autor destas linhas com um “chegano” envergonhado.

(Créditos de imagem: Felip Ariza – leonoticias.com)

Foi publicada pela conta de Instagram da @chegajuventude, em coautoria com a do @partidochega: duas páginas oficiais e devidamente creditadas, supostamente investidas de uma responsabilidade acrescida em relação à do mero utilizador. O tom era provocador, quando não abertamente desrespeitoso ou mal-educado – e uma passagem pelos seus termos bastará para perceber ao que me refiro. Transcrevo-a na íntegra, uma vez que não se trata de uma longa e depurada peça que requeira largos minutos de atenção.

  • Título: Uma vez mais o Polígrafo revela-se Mentigrafo!
  • Texto: Num constante ataque e perseguição ao CHEGA, o Polígrafo volta a acusar de falsidade uma declaração, desta vez da deputada Rita Matias, que se revelou verdadeira, necessitando o Polígrafo de “Pimenta na Língua”, uma vez mais. É vergonhosa a constante perseguição e difamação do Polígrafo ao Chega, algo que não acontece com mais nenhum partido, revelando-se como mais uma máquina de propaganda do sistema contra o único partido que luta pela verdade, transparência e pelos portugueses. Talvez seja necessário um novo Polígrafo, isento, só para analisar o que o atual Polígrafo escreve.
(Créditos de imagem: EmaDelRosso – x.com/ENAREurope)

Desponta, antes de mais, a escassa prudência da escrita: “Mentígrafo” e o Polígrafo a necessitar de “Pimenta na Língua”. Ou ainda a sugestão de que “talvez seja necessário um novo Polígrafo, isento, só para analisar o que o atual Polígrafo escreve”. Acusações de todo inadmissíveis quando provindas de um partido responsável – e, portanto, perfeitamente toleráveis quando se trata do Chega. Mas o episódio conduziu o autor destas linhas a uma reflexão mais profunda: a eficácia do Polígrafo, como a de qualquer fact-checker, parece depender menos dos seus limites epistémicos do que de condições que lhes são exteriores. Por outras palavras, uma análise mais rigorosamente fundamentada, uma metodologia mais elaborada ou uma seleção mais criteriosa e pertinente das peças a verificar não conduzem necessariamente a uma maior aceitação da informação que os fact-checkers procuram transmitir. O problema situa-se a montante, em nuances que dizem mais respeito às pessoas e à infraestrutura em que a informação circula.

(linkedin.com/in/jjooonii)

Remontemos aos Estóicos e às formas mais elementares do raciocínio lógico – se X implica Y, e se Y implica Z, então X conduz a Z – para compreender o que, realmente, está em causa. Se o espaço público é cada vez mais alimentado pelas plataformas digitais e se estas plataformas tendem a nivelar o verdadeiro e o falso, então o próprio espaço público torna-se progressivamente mais permeável à confusão entre ambos. Acrescentemos uma camada ao problema: se um cenário de desordem informativa favorece os partidos populistas e se as plataformas digitais alimentam esta mesma desordem, então as plataformas digitais criam condições favoráveis aos partidos populistas. É neste quadro, particularmente desanimador para quem se sente atraído pela verdade, que surge o Polígrafo – o alvo preferencial destes atores por perturbar a tão conveniente indistinção entre informação factual e informação enganosa. Para quem não quer ser convencido, nenhum argumento deixará de ser falível; quem, pelo contrário, procura aproximar-se de um entendimento fundamentado encontra aqui uma belíssima oportunidade.

(makeagif.com)

A conclusão é a seguinte: os limites do Polígrafo são infraestruturais. O problema não reside na capacidade deste mecanismo para apurar ou restabelecer a verdade, mas na disponibilidade dos utilizadores para a reconhecer – uma disponibilidade, por sua vez, profundamente condicionada pelas plataformas em que esta verdade circula. Enquanto a infraestrutura permanecer inalterada, dificilmente mudará esta disposição, por mais fundamentada que seja a reposição dos factos, mais fiáveis as metodologias que a sustentam ou mais solene a forma com que a verdade se apresente. É o zeitgeist, meus amigos!

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09/07/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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