Falar junto das pessoas

 Falar junto das pessoas

(Imagem gerada por IA – firefly.adobe.com)

A repetição estafada de fórmulas de propaganda política não é boa conselheira. Igual ou pior é a incapacidade de enquadrar um discurso em processos que respondam eficazmente ao mundo das fake news e à grosseria da extrema-direita.

O cumprimento cerimonial das tradicionais manifestações de rua, quando incapazes de mobilizar multidões (é o que acontece na esmagadora maioria das vezes) teria muitíssimo mais eficácia se recorresse a uma também linguagem de proximidade e contacto directo. Não por via dos mesmos canais (ou não apenas por estes), mas no contacto pessoa a pessoa: no autocarro, no snack bar à hora de almoço, no Metro, na caixa do hipermercado, no pomar, ao redor de um estádio, na praia.

(voitto.com.br)

Num discurso simples, curto, com verdades, como, por exemplo, a de lembrar que o partido que prometeu ser diferente se tornou igual ou pior no que há de péssimo na vida política; que no tempo de Oliveira Salazar se passou (ou se conhece quem passou) por ter de repartir uma sardinha por três, dos familiares ou amigos que morreram ou ficaram deficientes numa guerra inútil e que, se resolvida a tempo diplomaticamente, mesmo do ponto de vista económico, teria trazido mais vantagens quer a Portugal quer aos países lusófonos; que havia mesmo uma polícia política que não permitia dizer mal do regime e se a houvesse agora o André Ventura ia preso…

(transicaopolitica.pt)

Sem grosseria e sem ódio, mas com assertividade e palavras fortes. O resto é autocontemplação mais ou menos festivo-depressiva (gasta) do caminho da liberdade para o seu próprio holocausto.

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08/12/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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