Fernando Pessoa: “Nunca pretendi ser senão um sonhador”

 Fernando Pessoa: “Nunca pretendi ser senão um sonhador”

(casafernandopessoa.pt)

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“Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior”, reconhece Fernando Pessoa, por intermédio do seu semi-heterónimo Bernardo Soares, no “Livro do Desassossego”, obra na qual, como prefacia Richard Zenith, a inspiração lhe chega de formas imprevisíveis.

Nesse que “é, e será sempre, muitos livros possíveis, sem que possa existir uma edição definitiva”, admite-se – como observa o prefaciador e crítico literário americano-português, vencedor do Prémio Pessoa, em 2022 – “que o conjunto [dos trechos ou fragmentos] não corresponderia à obra que teria publicado, pois tencionava sujeitá-la a uma profunda revisão”. Porém, é um autêntico confessionário para o “poeta de mil faces”: “Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser.”

Fernando Pessoa na Baixa lisboeta. (casafernandopessoa.pt)

Faz hoje 90 anos que faleceu Fernando António Nogueira Pessoa, no dia seguinte ao do seu internamento, no antigo Hospital de São Luís dos Franceses (no Bairro Alto, em Lisboa), com diagnóstico agora contestado de “cólica hepática”. No último ano da sua vida solitária, mas não desligada do Mundo, Pessoa foi autor (entre Fevereiro e Outubro de 1935) de uma série de textos políticos contra o então ainda recente presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, e o Estado Novo, incluindo dois escritos sobre a invasão da Abissínia (actual Etiópia) pela Itália fascista de Benito Mussolini. Obviamente, foram declarações que os censores salazaristas não deixaram passar.

Nove décadas depois, estamos perante uma personalidade que continua a surpreender-nos na sua complexidade e na múltipla fragmentação do seu eu, sobretudo enquanto poeta modernista marcado pelo simbolismo e na pele de um prosador perfeccionista na sua angústia existencial, que – ao corporizar a simplicidade e a percepção directa da realidade através dos sentidos de Alberto Caeiro – nos diz: “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, / Não há nada mais simples. / Tem só duas datas – a da minha nascença [13 de Junho de 1888] e a da minha morte. / Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.” Neste aspecto, custa-nos contrariá-lo: “Sou fácil de definir.”

Fernando Pessoa: o “poeta de mil faces”.
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Este domingo é, deveras, bastante assinalável: é o Dia Internacional da Cidade Educadora e o Dia das Livrarias, entre um conjunto de efemérides que atravessam fronteiras, para que a memória não se amesquinhe. O primeiro tem sido celebrado, também na Anadia, para salientar a importância da educação e da participação cívica na comunidade. Por isso, esta cidade a meio caminho entre Coimbra e Aveiro quis transformar-se numa “sala de aula gigante”, principalmente com o projecto “Leituras Sem Idade”, levando os idosos à biblioteca municipal para interagirem com os livros e partilharem as suas histórias de vida.

O sociólogo António Barreto, que sigo com alguma regularidade, recorda aos novos de agora: “Nos anos 1960, quando eu era um jovem como vocês, […] mais de um terço não sabia ler e escrever, nunca tinha lido uma carta de amor, nunca tinha escrito um bilhete postal nem assinado um documento.” De facto, muita coisa mudou em Portugal. No entanto, a nossa fome de cidadania força-nos a adoptar os direitos e os deveres que garantem a acção cívica e responsável na vida pública. Por isso, António Barreto avisa que “de nada vale ficar em casa”: “De um modo ou de outro, estar presente é a melhor maneira de cuidar dos outros e de nos respeitarmos a nós próprios.”

Quinta do Narigão, actual Parque José Gomes Ferreira, em 1968. Ao fundo, a Igreja São João de Brito. (Fotografia de Fernando Cardeira. Fonte: Colecção Particular de Fernando Cardeira – 50anos25abril.pt)

Para concluir, retomo as palavras de Fernando Pessoa, na voz de Bernardo Soares, assumido ajudante de guarda-livros, na cidade de Lisboa: “Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço.”

Quem teve a sua infância nas décadas de 60 e 70 do século XX sabe que nada era comparável aos dias de hoje. (ncultura.pt)

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 30 de Novembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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01/12/2025

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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