Geógrafo Alberto Rio Fernandes: “Infraestruturas críticas entregues a interesses privados”
Cheias no Mondego, em Coimbra. (© VJS – sinalAberto)
Revela resposta “quase terceiro-mundista”
“O ordenamento do território claramente não está na agenda política”, mas a imagem de fragilidade e de lentidão na reposição da luz eléctrica, além de revelar uma situação “quase terceiro-mundista” é “uma consequência de termos infra-estruturas críticas entregues a interesses privados, mais orientados para o lucro do que para a segurança das pessoas”.
O diagnóstico é do geógrafo Alberto Rio Fernandes, catedrático da Universidade de Coimbra, que, em entrevista ao sinalAberto, se mostra, ainda, surpreendido por, ao fim de 40 horas, não ter sido tomada qualquer medida ou atitude governamental.

sinalAberto (sA) – Foi surpreendido por estes fenómenos recentes?
Alberto Rio Fernandes (ARF) – Surpreendeu-me a intensidade da circulação do ar. A intensidade do vento, de facto, foi extraordinária. Isso foi uma surpresa. A sucessão de depressões não é surpreendente. Ocorre com alguma regularidade, diria. Esta situação das inundações tem alguma frequência. Depois, há aspectos surpreendentes que têm a ver com a reacção, com a prevenção. Isso já é uma outra matéria.

sA – Considera que esta intensidade pode estar associada às alterações climáticas?
ARF – Sim, faço essa relação. Embora não seja climatólogo, daquilo que tenho lido, tenho poucas dúvidas, para não dizer nenhumas, de que há uma alteração no clima. O clima está sempre em processo de alteração, mas há uma alteração particularmente intensa nas últimas décadas. Essa alteração é, sobretudo, no sentido do aumento da temperatura, seja do ar, seja da água. E isso traz consigo um conjunto de consequências.
As mais evidentes são o aumento da temperatura no Verão e no Inverno e o aumento da instabilidade, que leva aos chamados fenómenos extremos. Esses fenómenos tanto podem ser temperaturas muito elevadas, períodos secos muito prolongados, como tempestades e chuvas intensas. São fenómenos extremos que tendem a acontecer com maior frequência.
sA – O país está preparado para mitigar as consequências deste tipo de fenómenos?
ARF – O país tem vários problemas. O primeiro é que se tem preocupado muito pouco com a prevenção. E a prevenção começa no ordenamento do território. O ordenamento do território é, claramente, um parente pobre. Em países como os Países Baixos ou o Japão, a estratégia territorial é central na política nacional. Em Portugal, nem sequer se percebe muito bem que ministro fala de território. Quando se fala de território é, quase sempre, numa lógica assistencialista ao interior, ou para falar com os autarcas, ou da descentralização. Raramente se fala de ordenamento do território. Nitidamente, não está na agenda política.

Dezembro de 2022. (apgeo.pt)
Isso tem consequências. Ao nível da prevenção, basta olhar para o Relatório do Estado do Ordenamento do Território, aprovado em 2024. Verificamos que uma grande parte do perímetro urbano está em contacto directo com manchas florestais muito homogéneas e pouco resistentes ao fogo. No caso português, a perigosidade dos incêndios é particularmente elevada.
sA – E no caso das inundações?
ARF – Temos dois tipos de situações. Uma tem a ver com posicionamentos urbanos históricos junto aos rios. Muitas cidades nasceram junto aos rios porque eram vias de circulação. Há, aqui, uma cultura de proximidade ao rio, com desvantagens, como as inundações, mas também vantagens económicas, paisagísticas e turísticas. Existe um “trade-off” entre as desvantagens de uma inundação ocasional e as vantagens da localização.

tem preocupado muito pouco com a prevenção. E a prevenção começa no
ordenamento do território.” (arquivos.rtp.pt)
Outra situação, muito associada à nossa história recente, é a construção em leito de cheia, muitas vezes, de forma ilegal. Os instrumentos de planeamento preveem que aí não se pode construir, mas as pessoas constroem e os municípios nem sempre têm coragem política para demolir. O problema perpetua-se.
sA – O socorro pareceu-lhe eficiente?
ARF – No socorro, a percepção que tenho é a de que estamos mais profissionalizados, mas bastante descoordenados. Não há uma coordenação clara como existia no tempo dos governos civis. Não se percebe bem quem coordena. Dá a ideia de que ninguém coordena e de que, muitas vezes, são as corporações maiores que acabam por assumir informalmente essa função.
sA – Considera que o país estava preparado para responder a uma situação desta dimensão?
ARF – Fiquei muito surpreendido. É estranho que empresas como a E-Redes, com lucros brutais, não tenham postes de alta tensão preparados para situações excepcionais. Não têm redundância. Se acontece um acidente, não há alternativa. Isto é quase terceiro-mundista. Estou convencido de que, se fosse em Lisboa ou no Porto, as coisas teriam sido resolvidas rapidamente. Na chamada província, cada um desenrasca-se.
É uma consequência de termos infra-estruturas críticas entregues a interesses privados, mais orientados para o lucro do que para a segurança das pessoas.
sA – Como avalia a gestão da crise?

lucros brutais, não tenham postes de alta tensão preparados para
situações excepcionais.” (linkedin.com/in/josé-alberto-rio-fernandes)
ARF – Foi péssima nas primeiras horas. Como é que, perante uma situação de calamidade evidente, o Governo não toma medidas? O primeiro-ministro não aparece, a ministra da Administração Interna estava invisível. Houve declarações infelizes e pessoas completamente abandonadas, sem comunicações, sem electricidade, sem alimentos, filas para ir buscar água. Situações quase de guerra.
Passaram cerca de 40 horas sem qualquer atitude. Isto é extraordinário. As previsões eram conhecidas. No mínimo, alguém deveria ter avisado as pessoas do que significavam ventos de 160 quilómetros por hora. No dia seguinte, alguém do Governo deveria ter ido ao terreno ou sobrevoar o território de helicóptero, e tomado medidas imediatas: água, comida, geradores. Falhou-se redondamente.
sA – Num país de risco sísmico, a rede eléctrica subterrânea é uma solução?
ARF – Dizem os especialistas que é complicado, envolve outros riscos. Provavelmente, a melhor solução é a redundância: sistemas mais complexos, em rede, com alternativas. Aqui, temos sistemas simples. Falha uma linha e acabou. É preciso densificar as redes.
sA – As barragens são uma solução para as cheias?
ARF – As barragens têm vantagens na gestão da água, permitem algum desfasamento das cheias. Podem libertar água antes de chuvas intensas e criar espaço de retenção. Isso ajuda, mas não impede inundações prolongadas. Há também dificuldades na gestão com empresas privadas, mais orientadas para a produção de electricidade.

de Novembro de 2018. (mail.apgeo.pt)
Além disso, as barragens têm impactos. Artificializam a paisagem, transformando rios em lagos. Há ganhos e perdas. É uma decisão política que devia ser mais debatida, mais transparente, ponderando quem ganha e quem perde. Muitas vezes, há um ganho nacional ou empresarial e um custo local.
sA – Quais são as principais consequências, a curto e a médio prazo, deste tipo de acontecimentos, sobretudo no solo?
ARF – Há um processo claro de erosão. Muito solo é mobilizado e transportado pelos rios. Vemos a água carregada de sedimentos. Parte pode enriquecer planícies aluviais ou praias, mas, no geral, é uma perda. Há riscos de queda de blocos e de instabilidade de vertentes, com possíveis deslizamentos de massas.

com alternativas. Aqui, temos sistemas simples. Falha uma linha e acabou.
É preciso densificar as redes”, afirma o geógrafo Alberto Rio Fernandes.
(apgeo.pt)
Outro problema grave é a ausência de galerias ripícolas. Muitos rios perderam a vegetação das margens, que fixava o solo. É frequente, nestas alturas de inundações, as margens dos rios recuarem e perdermos território a favor dos rios. Os campos diminuem, porque os agricultores entendem que devem cultivar mesmo até à bordinha do rio e não mantêm a galeria ripícola, cujas raízes permitiriam fixar o solo para, quando viessem estas chuvas, o solo manter-se, porque as árvores enraizadas permitem sustê-lo. Sim, vai desaparecer substrato.
Um país já pobre em solo fica ainda mais pobre a cada inundação.
sA – A Geografia pode ter um papel importante na prevenção e mitigação destes acontecimentos?
ARF – A Geografia não é uma ciência muito valorizada politicamente em Portugal. Tecnicamente, os geógrafos são reconhecidos, participam em planos, na cartografia de risco, na prevenção, aparecem nos media como especialistas do território… Mas, como não existe uma cultura de ordenamento do território, nem um reconhecimento político da sua importância, a Geografia e os geógrafos não são chamados a pensar uma estratégia para o país.
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09/02/2026