“HOMO IGNARUS. Ética Racional para um Mundo Irracional”
(Créditos fotográficos: Marc Fanelli-Isla – Unsplash)
Um livro que todos devem ler!

Gosto, particularmente, de receber livros como prenda. Uma grande amiga ofereceu-me, no fim da Feira do Livro de Coimbra, a obra citada em epígrafe da autoria de Steven Sequeira Gouveia. Esta obra foi, em boa hora, editada pela MinervaCoimbra, uma editora que nos tem brindado, por norma, com obras de grande qualidade. Esta é uma delas.
Steven S. Gouveia é investigador doutorando na Universidade do Minho, onde se encontra a finalizar o doutoramento. A sua biografia é divulgada na obra e esperamos que a curiosidade dos leitores, ao quererem saber mais sobre o autor, possa ser satisfeita com uma pesquisa fácil, hoje ao alcance de um clique no “Senhor Google”.
Para que os leitores possam fazer uma ideia da obra, composta por – além da introdução e da conclusão – oito capítulos, seguidos de um posfácio, cujos títulos registo:

- Ética do Altruísmo Eficaz
- Ética da Eutanásia
- Ética da Responsabilidade na Inteligência Artificial
- Ética da Simulação
- Ética do Humor e Liberdade de Expressão
- Ética do “Nudging”
- Ética dos Animais
- Ética do Voto.
Cito, porque é oportuno, um testemunho do professor Carlos Fiolhais, uma figura da Ciência e da Cultura portuguesas que dispensa qualquer apresentação. Segundo ele, na página 9: “Steven S. Gouveia seduz-nos logo a partir do título: Como mitigar a nossa ignorância? Como limitar a onda de irracionalidade? Para isso é imprescindível a ética, esse ramo da filosofia que ele tão bem ilustra em oito exemplos práticos suscitados pela realidade actual.”
Recorro, igualmente, ao testemunho (na página 10) de Helena Machado, professora catedrática de Sociologia e presidente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho: “Numa linguagem clara e assertiva[,] a obra de Steven S. Gouveia interpela alguns dos principais dilemas éticos das sociedades contemporâneas. O leitor é conduzido a interrogar-se sobre as causas da ignorância estrutural do ser humano e a desiludir-se com o diagnóstico de desinformação, manipulação e subjugação a interesses económicos a que todos parecemos rendidos. […] Trata-se de uma leitura urgente para todos os cidadãos interessados em deixarem-se desafiar para uma reflexão crítica e lúcida do mundo actual.”

Merece também referência o prefácio da obra, que foi escrito pelo filósofo Peter Singer. Aí, este autor escreve (na página 16): “O objectivo de Steven é claro: podemos fazer mais para alcançar um mundo cada vez mais justo e ético. […] Espero que este livro introduza muitos leitores a novas ideias e que os faça pensar nas suas crenças mais básicas e, talvez, reformular algumas das suas ideias pré-estabelecidas sobre estes temas. E também desejo que, reflectindo sobre questões éticas, o leitor queira saber não somente o que é eticamente correcto, mas que deseje ser melhor, algo que[,] como irá ver, está ao alcance de cada um de nós.”
A introdução da obra agarra imediatamente o leitor. No texto introdutório, o autor declara que, hoje, “vivemos numa homeopatia intelectual frenética” e que vivemos cada vez mais da ignorância, própria do “espírito da época”, num mundo em que a popularidade toma, cada vez mais, o lugar da “experiência”, bombardeados que somos pelos chamados “influencers”. E conclui que, por isso mesmo, os meios de transmissão privilegiada de conhecimento são, no presente, os “perfis do Instagram”, as “newsletters”, os blogues, os jornais electrónicos, as “TeD Talks” e os canais do YouTube, entre outros.

Steven Gouveia defende que este novos sábios do século XXI são incompetentes, porque têm falta de informação especializada, traduzindo apenas ideias feitas e irreflectidas. Para ele, o Homo Ignarus é o novo homem do século XXI e, até, poderá ser o último da espécie humana, como a conhecemos hoje. Confessa que nenhuma sociedade “poderá sobreviver a tanta ignorância junta: cada vez com mais informação sobre o mundo e menos compreensão sobre as questões essenciais, corremos sérios riscos existenciais”. Por conseguinte, cita Stephen Hawking: “Os seres humanos são gananciosos, estúpidos e a maior ameaça ao planeta Terra.” Neste contexto, o autor critica as universidades, tidas como os centros tradicionais de conhecimento. Considerando que, hoje, estão cheias de mediocridade e de facilitismo. Será uma opinião certamente muito ousada, uma vez que, nas universidades, sempre tivemos do melhor, em termos de investigação e de pensamento, embora também saibamos que alguns medíocres ali fazem e fizeram carreira.

Mas é tempo de apresentarmos os oito capítulos da obra.
O primeiro capítulo debate o tema do “Altruísmo Eficaz”, a ideia de que devemos doar parte do nosso rendimento da forma mais eficaz e racional possível. A esse propósito, evoca o facto de, em 2019, a catedral de Notre Dame, em Paris, destruída pelo fogo, ter recebido, em pouco mais de 24 horas, 600 milhões de euros. Mas, logo de seguida, parece legítimo que pergunte: se somos assim tão generosos, por que não conseguimos resolver o problema de milhares de crianças que morrem à fome todos os dias? Não será imoral doar para Notre Dame e ignorar a fome das crianças?

O segundo capítulo reflecte sobre o problema “Ético da Eutanásia”. Aí se defende que a situação actual, que não permite a eutanásia activa, é injusta. Por isso, pode ser imoral não permitir que os profissionais de saúde possam ajudar a morrer os pacientes que assim o desejarem.
O terceiro capítulo aborda um dos problemas cada vez mais actual, “A Ética da Responsabilidade na Inteligência Artificial”. Obriga-nos a pensar em questões deste tipo: quem deve ser considerado responsável pelo atropelo de uma pessoa feito por um carro automático? O dono do automóvel? A empresa que produziu o carro? A equipa que desenvolveu o softwre? Neste campo, o autor considera que temos um vazio normativo que devemos ser capazes de preencher, problematizando a nossa concepção tradicional de responsabilidade.
O quarto capítulo, acerca da “Ética da Simulação”, continua a reflexão sobre a tecnologia, partindo do facto de que, hoje, podemos viver num mundo de simulações bastante realistas. Estes projectos de simulação levantam graves problemas éticos, que devem ser considerados pelas gerações futuras.

O quinto capítulo trata o tema da “Ética do Humor e Liberdade de Expressão”. O autor formula perguntas deste tipo: podemos expressar toda e qualquer ideia? Há algum limite ético em relação ao que podemos ou não manifestar? Há limites para o humor? O autor defende que há determinadas instâncias de humor que são imorais.
O sexto capítulo aborda a “Ética do Nudging” e o autor procura responder à questão: como podem os governos usar a sua influência para incentivar os indivíduos a melhorarem as decisões em relação à sua riqueza, à saúde e à felicidade, em geral? O “Nudging” oferece às instituições públicas ferramentas que lhes permitam guiar a conduta dos cidadãos na direcção certa. Pretende-se, pois, alcançar objectivos válidos preservando a liberdade de escolha. Mas será tal possível sem coerção?

O capítulo sétimo observa a “Ética dos Animais”. Será que os animais, por terem uma racionalidade supostamente diminuta, podem ser tratados como meros objectos ou mercadorias? O autor conclui que temos, cada vez mais, razões para defender que o sofrimento dos animais deve ser reduzido.
No oitavo capítulo – quanto a mim, um dos mais interessantes do livro –, é tratado o problema da “Ética do Voto”. Para Steven Gouveia, votar é um acto profundamente ético, porque, através do voto, contribuímos para eleger um governo que pode tornar melhor ou pior as nossas vidas. Se fizermos más escolhas, podemos contribuir para eleger políticos racistas, xenófobos e/ou sexistas, que aplicarão medidas coerentes com essas ideias.

Votar parece ser um acto simples. Mas não se pode reduzir a colocar uma simples cruz num boletim de voto. A forma como votamos – a esse respeito, não podemos ter dúvidas – torna melhor ou pior as sociedades em que vivemos. Neste último capítulo, o autor debate também o problema de o voto ser ou não obrigatório, assim como o problema do valor da abstenção.
Quanto ao voto obrigatório, Steven Sequeira Gouveia parece ter dúvidas porque pensa que grande parte dos votantes são ignorantes e, como tal, pode ser perigoso e moralmente problemático. O autor levanta ainda a questão da educação, perguntando se esta pode ser uma solução para um voto mais consciente. Mas conclui que “as pessoas aprendem muito pouco e todos os vieses cognitivos que caracterizam o Homo Ignarus dificilmente são superados durante a sua passagem pelo ensino”. Assim, Steven Gouveia acaba, até, por aceitar que a abstenção é moralmente defensável.
Em modo de conclusão, o autor sugere que nos afastemos deste Homo Ignarus, procurando conhecimentos fidedignos, ouvindo especialistas de renome e buscando informação sólida, porque só assim poderemos criar um mundo mais justo para todos. “A prisão da ignorância é a pior prisão de todas[,] exactamente porque não parece uma prisão, mas nela se sente livre. Mas ninguém poderá ser realmente livre sem conhecimento veraz”, expressa Steven S. Gouveia.

Reservo uma apreciação final para o posfácio da obra, escrito por Viriato Soromenho-Marques, em que este professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa escreve (na página 248): “Estou certo de que[,] ao percorrer as páginas deste livro, escrito sempre com a preocupação do rigor e da clareza, o leitor encontrará motivos de satisfação intelectual, tanto na meditação das teses que lhe mereçam concordância, como, talvez ainda mais, no exercício de argumentação perante aquelas que lhe suscitem dúvida ou mesmo discordância. Pois não existe merecimento sem esforço, nem vida melhor do que aquela que não teme interrogar-se nos seus próprios fundamentos.”
Espero ter deixado aqui pistas suficientes para convencer os leitores de que darão o seu tempo por bem ocupado com a leitura desta obra que nos obriga a pensar.
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07/07/2025