Inteligência natural

 Inteligência natural

(Imagem de domínio público gerada por IA)

É um assunto incontornável nos dias de hoje. Todos falam de inteligência artificial (IA), do impacto que está a ter na nossa sociedade, do perigo que representa para incontáveis empregos, das consequências nefastas para todos e cada um de nós. O alarme soou e o “inimigo” está identificado. Mas este inimigo é de tal forma poderoso que, apesar de todo o temor que inspira e de toda a repulsa que causa, são cada vez mais os que se sentem irremediavelmente atraídos e que aderem a esta poderosa tecnologia, tal como um drogado que, em fase quase terminal, não consegue deixar a droga que o vai matar. Mas será a chamada inteligência artificial uma droga e – mais importante ainda – será que vamos ser suas vítimas? Será que, rodeados por máquinas e sistemas cada vez mais sofisticados, conseguiremos sobreviver como seres verdadeira e naturalmente inteligentes?

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Para responder a estas questões é necessário compreender bastante melhor o problema, começando pelo princípio: mas, afinal, o que é e como funciona a inteligência artificial? Não será a IA mais uma de tantas ferramentas que, ao longo da História, a Humanidade desenvolveu com o intuito de amplificar as capacidades humanas?

Consideremos algumas dessas ferramentas. Um martelo amplifica a força física. A roda amplifica a mobilidade. Um microscópio amplifica a visão, permitindo-nos olhar para tudo o que é muito pequeno. Por outro lado, a amplificação da visão fornecida por um telescópio permite-nos ver aquilo que está distante. Um computador amplifica enormemente a velocidade de cálculo. A Internet amplifica o acesso à informação e ao conhecimento. Todas estas são ferramentas que, quando apareceram, revolucionaram a sociedade, e várias delas causaram preocupação e medo. No entanto, hoje são consideradas indispensáveis.

Todavia, a inteligência artificial é diferente de tudo isso, argumentarão alguns. Sim, é verdade, mas não deixa de ser uma ferramenta, cujo objetivo é o de amplificar as capacidades humanas, em particular a capacidade de processar informação, de reconhecer padrões e de gerar conteúdos.  Em termos simples, a IA consiste num conjunto de técnicas informáticas que permite aos computadores determinar relações a partir de grandes quantidades de dados e utilizá-las para fazer previsões, responder a perguntas, reconhecer imagens, traduzir textos ou gerar novos conteúdos.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Imaginemos que uma pessoa conseguia conhecer praticamente toda a informação disponível na Internet, ler milhões de livros, ter na memória uma enorme quantidade de imagens e que, para além disso, conseguia correlacionar toda essa informação. Para essa pessoa, seria muito fácil prever como uma frase deve continuar, reconhecer objetos numa fotografia ou sugerir soluções para um problema. A inteligência artificial faz algo muito semelhante. A grande diferença é que uma pessoa compreende o Mundo através da experiência, das emoções, dos valores e da consciência, enquanto a IA se limita a trabalhar utilizando conceitos e modelos matemáticos. A IA não pensa, não tem consciência, nem compreende o Mundo como as pessoas. Simplesmente, identifica relações estatísticas e produz resultados com base na informação com que foi treinada e nas instruções que recebe.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

É claro que, para muita gente, a forma mais simples de utilizar a inteligência artificial consiste em deixar que seja ela a “pensar” por eles. Se pensar exige esforço e se há uma ferramenta que pode fazer algo semelhante, então, o mais cómodo é utilizar essa ferramenta. Utilizando a IA, qualquer pessoa – desde um mero aprendiz até um médico ou um advogado experiente – pode produzir um bom texto, gerar uma imagem ou resumir um livro. No entanto, não é isso o que nos torna melhores. O que nos faz evoluir é, na realidade, pensar de forma crítica: fazer boas perguntas, reconhecer erros, analisar factos e opiniões, adquirir conhecimento de diversas áreas, tomar decisões responsáveis.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Tomemos um exemplo muito simples e, infelizmente, cada vez mais comum: dois alunos, com acesso à mesma ferramenta de IA, necessitam de fazer um trabalho. Um deles solicita à ferramenta: “faz o meu trabalho”. O outro pede algo diferente: “ajuda-me a compreender este tema e mostra-me várias perspetivas diferentes, para que eu possa formar o meu próprio juízo”. Ambos fizeram o trabalho, mas, ao contrário do segundo, o primeiro nada aprendeu. Para que se possa tirar partido da IA de forma conveniente, é importantíssimo que educadores e profissionais percebam a diferença entre estas duas formas de utilizar a inteligência artificial.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Há coisas que as ferramentas de IA fazem muito bem: calcular rapidamente, procurar informação, reconhecer padrões, traduzir textos, produzir imagens ou resumir documentos. Mas há outras às quais só as pessoas conseguem dar resposta: definir objetivos, fazer as perguntas certas, compreender outras pessoas, avaliar consequências, entender significados ou assumir responsabilidades.

A inteligência artificial é mais uma ferramenta ao nosso dispor. Devido ao seu grande poder, ela aumenta enormemente aquilo que conseguimos fazer. Porém, não nos podemos esquecer de que também pode aumentar, na mesma medida, os efeitos dos nossos erros.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Estamos, assim, numa encruzilhada. Dispomos agora de uma tecnologia incrivelmente poderosa, que nos pode ajudar a encontrar respostas para uma enormíssima quantidade de questões. Se nos contentarmos em obter respostas, de forma passiva, então estamos a entregar o nosso destino a máquinas que não pensam. Por outro lado, se reconhecermos que pensar, questionar, sentir, ser consciente e refletir são aptidões únicas do ser humano, facilmente perceberemos que o futuro continuará a depender da inigualável e insubstituível inteligência natural.

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02/07/2026

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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