A liderança egoísta: quando o poder se torna uma ameaça pública

 A liderança egoísta: quando o poder se torna uma ameaça pública

(tes.com)

Da sala de aula ao balneário, o ego que domina destrói tudo o que deveria unir

Há fenómenos que não precisam de escândalo para serem devastadores. Instalam-se devagar, quase invisíveis, e quando damos por eles já corroeram a confiança, a cooperação e o sentido de comunidade. Um desses fenómenos é a liderança egoísta, aquela que transforma o espaço coletivo num palco de afirmação pessoal, anulando tudo o que não serve o seu brilho.

(Créditos fotográficos: Salah Darwish – Unsplash)

O problema é simples: quando o líder só se vê a si próprio, ninguém mais consegue ver a equipa.

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1. A escola: quando a competição deixa de ser saudável e passa a ser demolidora

Numa escola, a liderança egoísta pode nascer onde menos se espera: num aluno que se destaca e decide que o seu sucesso depende de controlar os outros. Não precisa de violência. Basta ocupar o espaço simbólico.

(Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)

O ambiente muda:

  • A cooperação transforma-se em competição excessiva.
  • Os trabalhos de grupo deixam de ser espaços de aprendizagem e passam a ser arenas de disputa.
  • A iniciativa dos colegas é abafada por quem quer decidir tudo.
  • O medo de errar substitui a vontade de experimentar.
  • A escola deixa de ser comunidade e passa a ser território.

O mais perverso é a normalização: confunde-se egoísmo com ambição, domínio com liderança, agressividade com exigência. E assim se instala uma cultura onde o brilho de um depende da sombra dos outros.

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2. A equipa de futebol: o capitão que joga contra a própria equipa

(Créditos fotográficos:  Salah Regouane – Unsplash)

O mesmo padrão repete-se no desporto. O capitão, supostamente guardião da unidade, pode tornar-se o principal fator de desagregação.

Quando o capitão é egoísta:

  • joga para si, não para a equipa;
  • decide sozinho, sem ouvir;
  • humilha quem erra;
  • abafa a iniciativa dos colegas;
  • transforma o balneário num espaço de tensão;
  • e usa o estatuto para proteger interesses pessoais.

A equipa deixa de ser equipa. Passa a ser um conjunto de jogadores orbitando em torno de um ego. O talento coletivo é desperdiçado. A criatividade desaparece. A alegria, que é a alma do jogo, evapora-se.

Tal como na escola, também aqui se confunde domínio com autoridade, e personalidade com liderança. Mas não é liderança: é apropriação do espaço comum.

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(Créditos fotográficos:  Iulia Mihailov – Unsplash)

3. O denominador comum: o totalitarismo do ego

O que une estes dois cenários é claro: o egoísmo extremo é uma forma de totalitarismo.

Não precisa de gritos. Não precisa de castigos. Basta ocupar todo o espaço simbólico e emocional.

O líder egoísta instala uma lógica de domínio que:

  • neutraliza a autonomia dos outros;
  • transforma a diferença em ameaça; e
  • substitui a comunidade por uma hierarquia emocional.

É um totalitarismo microscópico, mas devastador. E, quando se normaliza, destrói silenciosamente a saúde das instituições.

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4. As consequências: a morte lenta da comunidade

Quando a liderança é egoísta:

(Créditos de imagem: Alexander Lyashkov – Unsplash) 
  • a confiança quebra;
  • a criatividade retrai-se;
  • a iniciativa desaparece;
  • a colaboração torna-se impossível; e
  • a harmonia transforma-se em silêncio tenso.

A comunidade não implode de um dia para o outro. Vai morrendo aos poucos, como uma planta que deixa de ser regada: não cai, mas seca.

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5. A alternativa: liderança que distribui, não absorve

A denúncia é necessária, mas não basta. É preciso afirmar o contrário: a liderança que constrói é aquela que distribui poder, que escuta, que valoriza a diferença, que cria espaço para todos.

A verdadeira autoridade não se afirma pela força, mas pela capacidade de fazer crescer os outros.

(Créditos de imagem: John Cardamone – Unsplash)

Uma escola saudável é aquela onde todos podem aprender sem medo. Uma equipa saudável é aquela onde todos podem jogar sem receio de serem anulados. Uma comunidade saudável é aquela em que o líder não ocupa o espaço, abre-o.

Epílogo – Quando o líder joga sozinho

Há líderes que jogam sozinhos, mesmo rodeados de gente. Jogam sozinhos na escola, jogam sozinhos no balneário, jogam sozinhos na vida pública. E, quando o líder joga sozinho, todos os outros deixam de jogar, passam a assistir.

A escola e o futebol são apenas dois espelhos da mesma doença: o egoísmo extremo transforma o coletivo em território de desconfiança e a comunidade em silêncio. E nenhuma instituição sobrevive quando o silêncio substitui a confiança.

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02/07/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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