Já foi inaceitável
Na RTP, por ocasião do debate entre os quatro candidatos às eleições presidenciais de 1976, moderado pelo jornalista Joaquim Letria (ao centro, de barba), em 9 de junho. (Créditos fotográficos: Fotógrafo não identificado – © Fundação Mário Soares)
Houve um tempo, não tão remoto que a memória democrática possa desculpar o seu esquecimento, em que certas fronteiras morais se apresentavam como estáveis. Ainda que ausentes de um qualquer caderno de etiqueta, encontravam-se solidamente ancoradas no senso comum. A adesão a ideias iliberais, xenófobas ou explicitamente racistas constituía, por si só, fundamento suficiente para a desconfiança pública, para o isolamento político e para a reprovação cívica.

Funcionava aquilo a que, por convenção, se designou como “cordão sanitário”: uma fronteira nítida entre posições compatíveis com a ordem constitucional democrática e aquelas que, pela sua própria lógica interna, a recusavam. O espaço que este cordão então ocupava – hoje, progressivamente rarefeito, quando não dissolvido – assentava na lúcida perceção de que a democracia não é neutra face aos seus inimigos. E, numa consciência informada, de que a legitimação gradual de posições radicais constitui, invariavelmente, o gesto inaugural do seu processo de desgaste.
Tempos houve em que este dispositivo operou. Política, mas também social e institucionalmente. Vejamos alguns exemplos:
- Em 2017, o CDS (Centro Democrático Social) retirou o apoio político à candidatura autárquica de André Ventura em Loures, pautada por laivos de racismo contra os ciganos. Sinalizou-se, com solidez e convicção, a existência de uma separação clara entre a direita democrática e projetos que desprezavam os fundamentos do regime.

- Em 2021, Rui Rio (presidente do Partido Social Democrata, de 2018 a 2022) viria a ser severamente penalizado nas urnas pela incapacidade de traçar uma demarcação inequívoca face ao partido Chega. Terá contribuído, com esta hesitação, para a obtenção de uma maioria absoluta por parte do Partido Socialista.
- Pouco depois, Luís Montenegro popularizava o lema “Não é não”, colhendo dividendos eleitorais precisamente por afirmar aquilo que parecia evidente: não se governa com quem despreza os princípios estruturantes da democracia constitucional.
- De forma relativamente transversal, não agrupável num quadro temporal, o discurso brejeiro, agressivo e caciqueiro permanecia afastado das redações e dos estúdios televisivos – salvo quando surgia como exemplo ilustrativo daquilo que não deve ser dito.

Chegados a 2026, eis que:

- O CDS recusa escolher entre António José Seguro e André Ventura. Paulo Núncio, uma das figuras centrais do partido, chega mesmo a afirmar que “só faltava a única escolha democrática ser António José Seguro”. À tomada de posição do CDS soma-se a da Iniciativa Liberal: depois de João Cotrim de Figueiredo se ter confessado moderadamente seduzido por Ventura, o partido opta por não declarar qualquer apoio.
- No plano dos (ex-)candidatos presidenciais, Gouveia e Melo e o próprio Cotrim de Figueiredo refugiam-se no silêncio quanto à sua preferência eleitoral.
- Luís Montenegro, figura central do sistema político e participante entusiástico na campanha de Luís Marques Mendes, segue o mesmo trilho ambíguo, afirmando nesta segunda volta aquilo que não afirmara na primeira: “Um primeiro-ministro não se deve comprometer.” Nem mesmo o cartaz do Chega nas últimas legislativas – no qual posava ao lado de José Sócrates, sob a legenda “50 anos de corrupção. É tempo de dizer CHEGA” – foi suficiente para o demover.
- Comentadores políticos, entre os quais João Marques de Almeida e Miguel Morgado, distribuem equitativamente a desconfiança por Ventura e por Seguro. Ensaiam – estes e outros – uma equivalência moral que dilui diferenças estruturais.
Haverá mais exemplos. Menos visíveis, mas não menos reveladores. O padrão é claro: a linha vermelha, vulgo “cordão sanitário”, vai sendo lentamente apagada.

(Créditos fotográficos: Ana Rocha Nene – seguropresidente.pt)
Ignora-se, portanto, que o voto em António José Seguro extravasa, largamente, a adesão a uma figura de esquerda ou aos quadros do Partido Socialista. Está em causa algo mais elementar: a disposição – ou a recusa – de se juntar ao campo democrático num confronto direto com o autoritarismo. A escolha é tremendamente simples: votar em Seguro corresponde a votar na democracia; não votar, votar em branco ou votar em André Ventura equivale a optar pela sua negação.
Dir-me-ão que a bolha política tolda a perceção da realidade. Desafio tais leitores a abrirem a caixa de comentários nas redes sociais de qualquer jornal: multiplicam-se ali manifestações de apoio a um candidato que se apresenta reiteradamente como agente da “subversão do sistema”, da reorganização autoritária dos poderes e do apelo explícito – e despudorado – ao salazarismo, cuja ausência proclama sentir triplamente. Dir-me-ão, então, que se trata da bolha das redes sociais. O contraponto é simples e imediato: convido-os a ver este vídeo. Assustem-se, como eu próprio me assustei, perante a perspetiva de um batalhão de adolescentes que, alheado do jornal e do livro, é diariamente exposto a uma sucessão de TikToks, de Reels e de Shorts que o empurra para o voto de protesto, de raiva, de medo e de indignação.

Repete-se, com frequência, que o Mundo mudou. A Europa também. E Portugal, com um atraso que apenas disfarça a tendência, segue na mesma direção. Pouco importa se André Ventura alcança 35%, 30%, 25% ou se permanece circunscrito ao seu eleitorado duro. O essencial já ocorreu – e dele falámos há semanas: o deslocamento do eixo do aceitável.
Quando os tolerantes se deixam dominar pelos intolerantes, a democracia converte-se numa formalidade vazia. Não morre aos gritos, mas vai desfalecendo à medida que o inaceitável deixa de o ser.
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Nota do Director:
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29/01/2026