Ler ou não ler Saramago?
José Saramago (spautores.pt)
A polémica está aberta: ler ou não ler Saramago? Respondo sem qualquer hesitação: devemos ler Saramago, mas não podemos obrigar ninguém a ler quem quer que seja; não podemos obrigar ninguém a gostar de ler. Porém, quem não lê não sabe a riqueza que perde.
Posso aceitar que exista uma lista de autores recomendados, quer em Portugal quer em qualquer país, mas também posso sempre questionar os autores escolhidos, porque uma lista nunca é totalmente inclusiva. Todavia, temos de pensar que será sempre muito estranho, em Portugal, que possa ficar de fora dela o único Prémio Nobel da Literatura e colocar autores em alternativa: um ou outro, seja Saramago, seja Mário de Carvalho. E invocar que estes dois fazem parte da mesma família ideológica e política é um argumento pobre e ridículo. Como se a literatura fosse algum campeonato interpartidário!

O que os alunos e alunas de qualquer país decente devem ler são todos os bons escritores e escritoras, do Mundo inteiro. Sabemos que é difícil gostar de ler e que a jovem geração de hoje é acusada, em todo o Mundo, de ler cada vez menos. E todos sabemos as razões por que isso acontece. Nessa matéria, a escola tem muita culpa.
Se eu sempre fui um leitor apaixonado, diria até compulsivo, tudo isso devo aos meus bons professores e às pistas de leitura que me deram. E até posso dizer que alguns me deram sugestões que não segui! Um deles, meu professor no antigo sétimo ano1, garantia que o melhor de Eça de Queirós era o Eça enquanto autor de “A Cidade e as Serras” e de “A Ilustre Casa de Ramires”! Eu desconfiei e depressa concluí que o Eça que me agarrou foi o de “A Relíquia”, de “O Crime do Padre Amaro”, de “Os Maias”, de “O Primo Basílio” e o de tantas outras obras.

Quero recordar que o meu primeiro contacto com José Saramago não foi fácil. Causou-me alguma dificuldade. Contudo, o meu azar foi ter começado por ler um livro de contos chamado “Objecto Quase”(de 1978). Nessa altura, não terei entendido o estilo do autor, nem toda a ironia e veia crítica que vim a encontrar nas suas obras que li depois. Consegui entender que o primeiro conto, intitulado “Cadeira”, era uma referência explicita à queda do salazarismo. Mas os contos restantes foram de difícil leitura. Era um estilo a que não estava habituado.

Devo confessar, porém, que li todas as suas obras mais importantes e que considero Saramago um digno vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Isto não significa que outros autores ou autoras de Portugal também não merecessem tal galardão. Penso, nomeadamente, em Miguel Torga ou em Aquilino Ribeiro, em Agustina Bessa-Luís ou em Lídia Jorge, figuras marcantes na minha vida de leitor e de quem conheço as obras mais importantes. Nos casos de Torga e de Aquilino posso dizer que li a maioria dos seus livros.
Acrescento, já agora, que José Saramago só me agarrou quando li “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, que muitos críticos consideram ser a sua obra-prima. Só depois de ler esta obra, qual lufada de ar fresco, definitivamente me confessei leitor assíduo de Saramago e, assim, li todas as outras. Recentemente, voltei a reler o livro “Objecto Quase” e tive de reconhecer que estava enganado quanto à sua qualidade.

Como escreveu Fernando Gómez Aguilera, na sua obra “As Palavras de Saramago”, ler José Saramago “é uma necessidade e dever interior porque gera inquietação, reflexão crítica e vontade de transformação”. E foi isso o que eu senti desde que me tornei seu leitor assíduo. Como diz ainda o referido poeta e ensaísta espanhol, “o mundo precisa de uma forma diferente de entender as relações humanas e é a isso que eu chamo insurreição ética”. Por conseguinte, o mesmo autor questiona: “Uma pessoa tem de perguntar a si própria: o que é que estou eu a fazer neste mundo?”

Pessoalmente, não tenho qualquer dúvida de que os grandes escritores e escritoras nos obrigam a essa insurreição ética, que é, hoje, cada vez mais necessária neste mundo conturbado em que vivemos. Aceito de bom grado a frase de Alexandre O’Neill: “A vida interessa-me, o que não me interessa é a vidinha.” De facto, também não tenho dúvidas de que, ao lerem Saramago e todos os outros autores e autoras marcantes, nacionais ou estrangeiros, os alunos e alunas portugueses são obrigados a repensar tanta coisa que deixam passar ao lado das suas vidinhas. Ler bons autores obriga-nos sempre a pensar no sentido da vida. Como defende o cronista Luís Galego, “a literatura, que exige do leitor uma espécie de coragem silenciosa, não pode ser domesticada ao ponto de se tornar inofensiva”. “Os grandes autores nunca são inofensivos. Por natureza, são questionantes. Dão que pensar e obrigam a pensar.

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Nota:
1 – Antes das grandes reformas do ensino (nos anos 1970/80).
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Nota da Redacção:
Este artigo, entretanto reformulado, foi publicado no jornal Mirante, de Miranda do Corvo, na edição de Maio de 2026.
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18/05/2026