Lorca (1)
O poeta e dramaturgo espanhol García Lorca. (Arte Revista CULT/Foto Fundação Federico García Lorca – revistacult.uol.com.br)
“[…] o crime foi em Granada”1 (António Machado)
.
Passaram 90 anos do assassinato de Federico Garcia Lorca e 90 anos da Guerra Civil Espanhola (1936/1939). Já, numa outra ocasião, falei dessa morte como um símbolo da morte da Espanha republicana, plasmada no acontecimento trágico do desaparecimento de Lorca, uma das figuras mais importantes das letras espanholas do século XX.

São muitas as iniciativas que se preparam e acontecem este ano no país vizinho e, por cá, algumas que não podemos deixar na indiferença!
Ontem, como hoje, a Espanha encontra-se dividida entre um governo progressista e uma direita radical, talvez a mais virulenta de Europa.
São tantas as comunidades nas quais o Partido Popular (PP) é literalmente arrastado pelo Vox, para a sua política xenófoba, hoje acentuada, circunstancialmente, pela imigração massiva ou a invasão de milhares marroquinos na cidade-enclave de Ceuta.
Lorca foi um pressentimento vivo duma Espanha em ruptura. Uma Espanha que, de uma forma ou de outra, se aproximava do abismo!

Sem saber como, encontrava-me em Espanha nas datas comemorativas da morte de Lorca (19 de Agosto de 1936). Visitei, num breve périplo, Sevilha, Córdoba e Granada (esta, depois dos abalos de terramoto sofridos há alguns dias)… Visitar Granada é visitar a Alhambra e também, em Córdoba, a Igreja-Mesquita. E, mais tarde, em Sevilha, a monumental catedral, a maior de Espanha e, talvez, a mais rica em monumentos. Convém destacar, apenas, que é aí que se encontra sepultado Cristóbal Colón (Cristóvão Colombo)!

Madrid. (pt.wikipedia.org)
Os pátios de Córdoba lembram os pequenos cenários de Lorca retratados nas suas peças e poemas… Vejamos o verso “La luna vino a la fragua”, que pertence ao “Romance1R de la luna, luna”, integrado no célebre libro “Romancero Gitano”, de Federico García Lorca. E também “ella sueña en su baranda”, verso que se encontra no famoso poema “Romance Sonámbulo”, escrito pelo poeta espanhol no seu livro “Primeiro Romanceiro Cigano” (em 1928). E, igualmente, a expressão “verde carne”, incluída no referido poema (ou balada2R) “Romance Sonámbulo”, publicado na obra “Romancero Gitano”; esta expressão poética aparece, por exemplo, nos versos “Con la sombra en la cintura / ella sueña en su baranda, / verde carne, pelo verde, / con ojos de fría plata”. Ou ainda a expressão poética “pelo verde”3R, também incluída, como já vimos, na “Balada do Sonâmbulo”.
Tudo em Lorca é uma descrição de paisagens e memórias, que, muito cedo, aprendeu a amar e conservar.
Ainda hoje se descobrem poemas inéditos e contos do autor granadino. Miguel Poveda2, o cantor espanhol de flamenco (e também autor), descobriu, há pouco, um poema inédito de Lorca. E há um conto inédito para “los niños tontos”3 – porquê tontos? Porque somos nós, todos nós, os meninos que, na infância, fazíamos perguntas e perguntas. Éramos, na realidade, os meninos sábios, os perguntões, aos quais, muitas vezes, chamavam cabeça de “alcornoque” (Quercus súbe4) ou cabeça de “chorlito”, aludindo a um passarinho pequeno e magro, bem como à natureza oca, mas magnífica, do “alcornoque”, árvore milenária entre nós.

Muitos, muitas vezes, perguntaram-me porquê Lorca no meu repertório? A resposta é simples: deu-me alegria encenar Lorca e lembro-me da sua actriz (musa) Margarita Xirgu, exilada no Chile e, mais tarde, no Uruguai. Foi uma actriz que os meus pais viram nos palcos santiaguinos, no Chile. Mulher que ajudou a criar a primeira escola de teatro universitário (em 1949, na Universidad de Santiago) e que se projectou na América Latina como uma das grandes figuras teatrais do continente americano.

Cito o poema de Antonio Machado, em Espanhol, publicado inicialmente, em 1937, na revista “Ayuda”, sobre o fuzilamento de Federico García Lorca:

Notas:
1 – O verso “o crime foi em Granada” faz parte do célebre poema “El crimen fue en Granada”, escrito em 1937 pelo poeta espanhol Antonio Machado, em memória de Federico García Lorca.
2 – O cantor de flamenco Miguel Poveda descobriu um poema inédito de Federico García Lorca, intitulado “Canta el reloj”, supostamente escrito em 1933. O poema de oito versos foi encontrado escrito a lápis no reverso do manuscrito original de “Gacela de la raíz amarga”, uma das obras que integram o livro “Diván del Tamarit”, adquirido na Alemanha. A sua autenticidade foi confirmada pela filóloga e especialista em Lorca, Pepa Merlo. O texto reflecte sobre a passagem do tempo, a ausência e a identidade, e é considerado uma obra do período de maturidade do poeta. (Aceda a mais informação sobre o poema inédito de Federico García Lorca que reapareceu no verso do mencionado manuscrito.)
3 – Considerando a referência recente a “La gallina. Cuento para niños tontos”, a EFE noticiou, em 6 de Agosto de 2026, a divulgação do manuscrito original, indicando que o conto foi presumivelmente escrito em 1928 e publicado pela primeira vez em 1934. Assim, “A galinha. História para crianças bobas” é um manuscrito inédito de Lorca que vem, agora, à tona.
4 – Estou a falar do sobreiro ou chaparro (na designação popular e regional alentejana), que é uma árvore aparentada com o carvalho, cultivada no Sul da Europa e a partir da qual se extrai a cortiça.
.
………………………….
.
Notas da Redacção:
1R – “Romance”, em Espanhol, refere-se a uma forma poética tradicional (versos de oito sílabas com rima assonante nos versos pares) e não a uma história de amor ou a um livro longo.
2R – Como a palavra “romance” pode confundir os leitores de língua portuguesa ou inglesa, muitos tradutores optam por traduzir o termo como “Balada” (gerando “Balada Sonâmbula” ou “Sleepwalking Ballad”, em Inglês), já que a balada também designa um poema narrativo e musical.
3R – A célebre expressão poética “pelo verde” (originalmente, em Espanhol, “pelo verde”, frequentemente traduzida em Portugal como “tranças verdes” ou “cabelo verde”) faz parte do poema “Romance Sonâmbulo” (muitas vezes referido, em Português, como “Balada do Sonâmbulo”).
.
03/09/2026