Vou ser lembrado no Liechtenstein

 Vou ser lembrado no Liechtenstein

Panorama de Vaduz , capital do Liechtenstein. (en.wikipedia.org)

“Pus os pés em uma terra / Que só se chega a esmo” (Mar Becker)

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Acostumado a ver, a observar os lugares, decidi, no Liechtenstein, ser o visto, o observado. E como seria isso? Eu o visitaria no mais completo silêncio, desprovido do uso da palavra. Isso não aconteceria por dificuldade de comunicação: também falo Alemão. Ademais, nessa nação de menos de quarenta mil habitantes, umas mil pessoas falam Português, conforme contam os números da emigração lusitana. 

Vaduz, no Liechtenstein. (Créditos fotográficos: Himmel S – Unsplash)

O uso da palavra provoca desatenção, confusão, e eu queria experimentar uma visitação sem nenhum afã de comunicação, exercer um descarte dos prejuízos da descomunicação. Ao que parece, anda o mundo assim a julgar: “Discordo de ti, logo descarto-te.”  Um dia, André Gide assim disse: “Tudo já foi dito; mas como ninguém estava ouvindo, precisamos começar de novo.”  No silêncio fica o dito pelo não dito, o estado original daquilo que se pensa e poderá tornar-se expressão.

Saí de Innsbruck a caminho de Zurique e, ao passar por Vaduz, desci sem hesitação. Que lugar curioso! Sabia-o não ter aeroporto, tanto melhor: poucos turistas, poucos barulhos e também poucos embrulhos. O seu aspecto bucólico, quase rural, cativou-me prontamente. De fácil locomoção, é um onde em que tudo é perto, quase se adivinha onde começa e onde termina.

O centro do governo em Vaduz. (en.wikipedia.org)

Que minimalismo arrebatador! Lugar de altitude exigiu-me pronta atitude: adquiri, numa lojinha, uma camisola de mangas cuja estampa seria a do Pato Donald embriagado pela cerveja local – a Liechtensteiner Bauhaus. Vesti-a, para não ser “pato fácil” para o vento. Pela frente, Vaduz incitava-me: “Ide! Vá, deduza o que sou sem precisar dizer o que pensou – pelo menos, não aqui!” Justo como eu me posicionara em intenções na minha incursão pelo lugar.

Olhei para tudo, curioso e criteriosamente silencioso. Porém, ouvia conversas de outros visitantes, era inevitável:

  • “Isto aqui não tem forças armadas, nem bombeiros e nem carece de polícias, ainda que tenha uns poucos. É extremamente seguro!”
  • “Isto aqui é uma monarquia sem rei, tem, sim, um príncipe. Há pouco tempo, a princesa Leopoldina casou-se com um brasileiro que conheceu em Lisboa, cidade que ela tornara a sua casa, por gostar de sol.”
  • “Em 2007, soldados suíços, num exercício militar, perderam-se e entraram neste território. A “invasão” virou uma piada, foi perdoada.”  
  • “Em 2011, este micro-país andou a oferecer-se para ser alugado para eventos e festas. Não seria barato.”
Vista para o sul do centro histórico da cidade de Vaduz. (en.wikipedia.org)

No Liechtenstein, o que não falta é dinheiro! Na verdade, não o emite; por ele circula o franco suíço e o euro, sem nem mesmo ser Suíça, nem pertencer à Comunidade Europeia. O que eles emitem são selos, se calhar, os mais belos do Mundo; embora eu não tenha visto caixas coletoras de cartas dos correios nas ruas, visitei o museu dedicado aos selos. A cidade é bem pequena, mas tem muitos museus.

Embora a minha visita fosse rápida, ainda permiti-me ir aos jardins do castelo, que andava fechado, a Catedral, o Kunstmuseum, sendo por ali saudado por uma “gordinha” do Botero. Não lhe dei conversa. A minha premissa era a seguinte: o que resta de nós quando saímos dos lugares? Quando houve trocas de palavras, nada resta. Perpetuamo-nos nos lugares quando transitamos silenciosamente, exalamos mistério, fascínio; os olhares correspondentes multiplicam-se.

Vaduz, no Liechtenstein. (Créditos fotográficos: A. Savin – en.wikipedia.org)

Entretanto, ainda que o terreno fosse exíguo, eu não encontrava mais aquele lugar de saída dos autocarros e tive de perguntar. Fi-lo a um jovem que me ouviu em Alemão e respondeu-me em Português. Estávamos bem defronte ao sítio. Arrisquei contar-lhe que ele teria sido a única pessoa com a qual comuniquei e ainda expliquei as minhas razões: visitei Vaduz a querer ser visitado no olhar pelas pessoas do lugar, ambicionado de não ser esquecido. E considerei que a palavra é uma via de esquecimento. Ele levou a mão ao queixo, atento e, por fim, surpreendeu-me: “Pelo teu uso circunstancial da palavra comigo e estares a vestir essa camisola com o Pato Donald bêbado, impedido de palavrear, felicitado pela cerveja, podes ter certeza de que, mesmo no uso da palavra, tu nunca serás esquecido.”

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03/09/2026       

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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