Luke Skywalker: “Cavaleiro Jedi” e “Cavaleiro da Fé”? (2)
(sociedadejedi.com.br)
Uma leitura kierkegaardiana de “Star Wars”

A Iniciação – O “Estágio Ético”
Quando decide acompanhar Obi-Wan Kenobi e tornar-se um Cavaleiro Jedi, Luke Skywalker realiza aquilo que o filósofo e teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard chama de “salto existencial”, abandonando o estágio estético e entrando no estágio ético.

É neste estágio que ele permanece ao longo do restante de “A Guerra das Estrelas”, de “O Império Contra-Ataca” e de grande parte de “O Regresso de Jedi”. Esse “salto”, segundo Kierkegaard, consiste em reconhecer que a existência não se esgota na própria individualidade, sendo possível dedicá-la a algo maior do que o próprio indivíduo. No caso de Luke, isso significa juntar-se à Aliança Rebelde para combater o Império e, sob a orientação de Obi-Wan e de Yoda, aprender os caminhos do Lado Luminoso da Força. Ao fazê-lo, Luke Skywalker encarna aquilo que Kierkegaard considera o aspecto definidor do estágio ético: assumir um compromisso com categorias de bem e mal.
O estágio ético também é marcado por angústia – mas de um tipo diferente. Em “A Guerra das Estrelas”, a angústia de Luke brota da sensação de incapacidade de escolher; em “O Império Contra-Ataca”, ela surge da consciência de que ele pode escolher – e que cada escolha traz consigo peso e responsabilidade.
Para Kierkegaard, a moralidade é universal e sem exceções: as regras éticas aplicam-se independentemente das circunstâncias individuais. Luke enfrenta agora a oportunidade – e o desafio – de aprender a distinguir o bem do mal, mas essa aprendizagem revela-se tudo menos simples. “Como distingo o Lado Bom do Lado Mau?”, pergunta ele a Yoda. “Saberás… quando estiveres calmo… em paz…”, responde o Mestre. A resposta, porém, frustra Luke, cuja ansiedade aumenta à medida que o Império – através de Darth Vader – se aproxima dos seus amigos.

Luke Skywalker enfrenta um dilema cruel e angustiante: sabe que, para derrotar Vader e o Imperador, precisa de completar a sua formação e de tornar-se um Cavaleiro Jedi, mas reconhece que, se permanecer com Yoda, deixará os amigos vulneráveis ao sofrimento e à possível morte. Ele compreende, intelectualmente, que o “caminho certo” é concluir o treino, mas o coração recusa-se a esperar. Cada momento de hesitação pesa-lhe na alma, e ele sente o peso da vida dos seus amigos nos ombros, pondo à prova a sua fidelidade ao compromisso que assumiu. Por fim, Luke decide, apesar dos riscos, abandonar o treino e ir salvar os amigos.

No entanto, tudo se revela uma armadilha cuidadosamente preparada por Vader, que o derrota num combate de sabres de luz e lhe revela a verdade: ele é seu pai e pretende usá-lo para derrubar o Imperador e governar a galáxia “como pai e filho”. Confrontado com uma situação extrema, sem qualquer aparente possibilidade de escapatória, Luke percebe que ainda lhe resta uma escolha. Opta por lançar-se no vazio e, por sorte, é resgatado pelos amigos, sobrevivendo para continuar a sua jornada.
A narrativa de “O Império Contra-Ataca” corresponde à segunda fase da “Jornada do Herói”, de Joseph Campbell: a “Iniciação”, cuja primeira etapa é justamente chamada “a estrada das provações”. Nela, o herói trilha um caminho marcado por ambiguidade e incerteza, no qual deve sobreviver a uma imensidão de provações e resistir a tentações. Segundo Campbell, ele atravessa “um processo de autopurificação”, no qual os seus sentidos são “limpos e humilhados” e as suas energias “concentradas sobre coisas transcendentais”. Esta “travessia do deserto” é dolorosa, mas fundamental para o crescimento e desenvolvimento do herói, uma vez que o sofrimento – se ele o permitir – torna-se condição de uma nova maneira de enxergar o mundo. Para se tornar um Jedi, Luke deve enfrentar os seus piores instintos – medo, raiva, frustração e ódio – e aprender a canalizá-los de forma construtiva. Mas ele aprende essa lição da forma mais dura possível.

O culminar da sua provação ocorre com a revelação de que Vader é o seu pai. O choque desta descoberta é tão profundo que o obriga a um reajuste emocional, levando-o a olhar para si mesmo de maneira diferente. Nas palavras de Campbell, Luke descobre que “ele e o seu oposto não são de uma espécie diferente, mas de uma só carne”. O dilema de Luke, portanto, agora é outro: será ele capaz de matar o pai – e, simbolicamente, a si próprio – se isso significar restaurar paz e harmonia à galáxia? Este conflito constitui o motor narrativo central de “O Regresso de Jedi”.
Apesar de ter alcançado um novo nível de entendimento, Luke ainda permanece no estágio ético, justamente porque continua diante de um dilema angustiante. Só um Cavaleiro Jedi pode derrubar o Império. Para se tornar um Cavaleiro Jedi, Luke precisa confrontar Vader – ou mesmo matá-lo. Que caminho escolherá ele?

“Não posso matar o meu próprio pai!”, exclama ele a Obi-Wan. “Então o Imperador já ganhou”, responde-lhe o seu mestre. As coisas são colocadas desta forma direta e implacável. Yoda explica que, assim que o Lado Negro toma conta de alguém, “para sempre o seu destino é dominado por ele [sic]”. É por isso que o treino de Luke é tão crucial: para que ele não sucumba ao Lado Negro e se torne, como o seu pai, uma marioneta do Imperador. “O teu pai foi seduzido pelo Lado Negro da Força”, explica Obi-Wan a Luke. “Quando isso aconteceu, o homem bom que era Anakin Skywalker foi destruído”, e, “de um certo ponto de vista”, foi “assassinado” pelo indivíduo que agora é Darth Vader.

Mas não haverá outra alternativa? Não seria possível trazer Vader de volta para o Lado Bom? A resposta de ambos os mentores é categórica: “Não.” É absolutamente impossível.

Todavia, é exatamente esse o caminho que Luke escolhe. Ele decide tentar trazer o seu pai de volta porque acredita, contra todas as evidências, que ainda existe bondade nele. Ao tomar esta decisão, Luke Skywalker entra no terceiro estágio existencial: o “estágio religioso”.
Søren Kierkegaard descreve essa transição como um “salto de fé”, que consiste não em escolher um de dois ou várias caminhos, mas sim em optar por um caminho “que se sabe impossível”.
Luke Skywalker sabe – pois os seus mentores, que até então sempre estiveram certos, lho dizem – que é impossível que Vader regresse do Lado Negro. Mesmo assim, ele escolhe deliberadamente essa via, consciente de que ela poderá levar à sua própria destruição, à derrota da Aliança Rebelde e à perda de tudo pelo qual ele e os seus amigos lutaram e sofreram. No entanto, ele crê nesse caminho. Ao fazê-lo, Luke transcende o plano ético, onde as escolhas se limitam ao “bem” e ao “mal”, e lança-se no plano da fé, assumindo plenamente o risco do impossível.
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Nota:
Seguir-se-á “O Regresso – O Estágio Religioso”.
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08/12/2025