Luke Skywalker: “Cavaleiro Jedi” e “Cavaleiro da Fé”? (3)

 Luke Skywalker: “Cavaleiro Jedi” e “Cavaleiro da Fé”? (3)

(canaltech.com.br)

Uma leitura kierkegaardiana de “Star Wars”

(reportersombra.com)

O Regresso – O “Estágio Religioso”

A entrada no estágio religioso representa, para Søren Kierkegaard, a forma mais elevada de individuação. Nesse estágio, as categorias operativas deixam de ser o bem e o mal para se tornarem a graça e o pecado, e a figura que melhor encarna o ideal do “Cavaleiro da Fé” o indivíduo que habita no estágio religioso – é a de Abraão. Na narrativa do “Génesis”, Deus ordena a Abraão que, apesar da promessa divina de que ele seria o “pai de muitas nações”, sacrifique Isaac, o seu único filho. Obediente ao comando divino, Abraão leva Isaac ao monte Moriá, prepara o altar e ata o filho, cumprindo cada passo do ritual de sacrifício. No instante em que ergue a faca para consumar o sacrifício, um anjo intervém e interrompe o ato, declarando que já não é necessário: a fé de Abraão fora posta à prova – e demonstrada.

“O Sacrifício de Isaac”, pintura de Caravaggio. (ensaiosenotas.com)

Em “Temor e Tremor”, Kierkegaard manifesta um profundo assombro diante dessa história, pois não consegue fazer sentido dela. Por que teria Deus ordenado a Abraão que matasse o seu único filho? O que se passava na cabeça de Abraão enquanto caminhava com Isaac rumo ao monte Moriá? Em que pensava? O que sentia? Como exercício teórico, Søren Kierkegaard apresenta quatro alternativas à narrativa do “Génesis”. O seu objetivo não é recontar a história, mas mostrar como qualquer tentativa de compreender Abraão, a partir de categorias que não pertençam ao estágio religioso – isto é, categorias estéticas ou éticas –, inevitavelmente fracassa, já que nenhuma delas faz sentido:

a) Na primeira alternativa, Abraão sacrifica o filho com total serenidade, obedecendo, de modo cego e imediato, à vontade de Deus. Mas isso faria dele, simplesmente, um filicida e, portanto, um pecador – alguém que, ao matar o próprio filho, destruiria também a sua única esperança de vir a ser o patriarca do “povo escolhido”.

b) Na segunda alternativa, Abraão sobe ao monte Moriá com Isaac, prepara o altar, ata o filho e ergue a faca. Mas, no instante final, vê um carneiro e percebe que a intenção de Deus era que sacrificasse o animal, e não o filho. Ao regressar a casa, contudo, sente-se inconsolável, pois não consegue esquecer que Deus lhe exigira tal acto sem permitir que o consumasse. A sua fé não foi verdadeiramente posta à prova, já que ele nunca precisou confrontar-se com a exigência extrema de sacrificar o filho.

c) Na terceira alternativa, Abraão sobe com Isaac o monte Moriá, mas é tomado por uma intensa angústia interior: não consegue conciliar a obediência a Deus com o amor que sente pelo filho. Hesita e questiona o próprio acto, chegando à conclusão de que o verdadeiro teste seria perceber o peso moral de matar Isaac. No entanto, essa reflexão não chega a constituir um verdadeiro teste de fé, pois Abraão ainda permanece preso à compreensão humana, incapaz de se lançar plenamente na confiança absoluta em Deus.

d) Na quarta e última alternativa, Abraão sobe ao monte Moriá com Isaac, preparando calmamente tudo para o sacrifício. Contudo, no momento decisivo, hesita em executar o gesto. Embora Isaac sobreviva, essa experiência faz com que ele perca a sua fé. A resistência de Abraão revela que a sua fé não é plena, mostrando que ele ainda não se entregou completamente à confiança absoluta em Deus.

“Sacrificio di Isacco”, por Luca Giordano. (mosteirodoconhecimento.wordpress.com)

O objetivo de Kierkegaard, ao apresentar estas variações literárias, é o de mostrar que os actos de Abraão só fazem sentido quando olhados a partir de um plano em que a “lógica” do dia a dia cede lugar a uma “lógica dafé”. É o que Kierkegaard chama de suspensão teleológica da ética”: o bem e o mal deixam de ser absolutos, porque o indivíduo se encontra numa esfera superior, dedicada à fidelidade absoluta ao comando divino. Mas essa suspensão não elimina as exigências do plano ético, e é justamente isso que cria a angústia de Abraão. Ele vive num estado que não pode ser explicado nem descrito, já que qualquer tentativa de compreensão racional o arrasta de volta ao plano da existência ética. A fé genuína exige na entrega total ao absurdo, enquanto se permanece plenamente consciente dele. É essa tensão que define o “Cavaleiro da Fé”.

(br.ign.com)

Voltando a “Star Wars”, Luke Skywalker, no final de “O Regresso de Jedi”, encontra-se numa situação que lembra a de Abraão. Após derrotar Darth Vader num duelo de sabres de luz – cuidadosamente orquestrado pelo Imperador Palpatine, que manipulou Luke para que libertasse toda a sua agressividade e ódio contra Vader – Luke, prestes a matar o próprio pai, hesita e entra num momento de profunda reflexão. Percebe que, ao fazê-lo, tornar-se-á como ele. Então, atira o sabre de luz para longe e entrega-se ao Imperador, declarando: “Nunca me juntarei ao Lado Negro. Sou um Jedi, como o meu pai antes de mim.” Neste instante, Luke compreende o que implica ser um “Cavaleiro Jedi”: ter a coragem de não matar Vader, mantendo a sua integridade mesmo diante da tortura e da morte iminente às mãos do Imperador, e da aniquilação total de todos os seus amigos e da causa pela qual lutaram. Luke Skywalker encontra-se numa situação impossível: ao recusar matar Vader, ele permite que o Lado Negro triunfe, mas, ainda assim, escolhe permanecer fiel aos seus princípios. Tal como Abraão, Luke enfrenta o absurdo do dilema, uma vez que essa entrega total não garante sucesso ou recompensa.

(brasil.elpais.com)

No entanto, contra todas as expectativas, acontece o que parece um milagre: tocado pelas ações do filho, Vader sente um impulso súbito e inesperado – possivelmente até para ele próprio – de compaixão. Ao ver o Imperador a torturar cruelmente o seu filho até à morte, Vader agarra nele e lança-o no vazio, sacrificando a própria vida. Graças a este “resgate vindo de fora” – uma das etapas finais da terceira fase da Jornada do Herói, o “Regresso” – Luke sobrevive e consegue ter um último momento de conciliação com o seu pai, agora redimido como Anakin Skywalker, antes de este morrer. O triunfo de Luke é total: a paz e a liberdade são restauradas na galáxia, o equilíbrio da Força é devolvido e a sua fé na natureza redentora do seu percurso é plenamente confirmada.

Luke, como Abraão, torna-se o “mestre dos dois mundos”: ele atinge o equilíbrio entre o mundo espiritual (ou religioso) dos Jedi e o mundo humano (ou ético) das relações, conflitos e afetos. Com a redenção de Anakin, a queda do Império, rodeado pelos amigos e iluminado pela presença serena dos mestres que o precederam, Luke encontra a paz interior própria de quem alcançou a etapa final da Jornada do Herói, a “liberdade para viver”: após ter enfrentado e triunfado sobre as suas provações, o herói está agora livre do medo, da ansiedade e da angústia, capaz de viver plenamente sem ser condicionado pelo passado nem pressionado pelo futuro, permitindo-lhe ser uma fonte de iluminação e de sabedoria para a sua comunidade.

“Abraham and Isaac”, de Anthony van Dyck. (medium.com)

Em conclusão, a jornada de individuação descrita por Kierkegaard e a “Jornada do Herói” formulada por Campbell convergem na ideia de que a maturidade espiritual e/ou psicológica exige atravessar um domínio no qual a razão comum deixa de oferecer orientação: o “Cavaleiro da Fé” e o herói mítico são ambos chamados a um confronto interior que implica a suspensão das certezas humanas e, paradoxalmente, de se entregar totalmente a um princípio superior – seja a vontade divina, seja o que Campbell designa por “elixir simbólico do mundo mítico” – que lhe permitirá atingir um novo nível de sabedoria e uma forma mais autêntica de existência. A trajetória de Luke Skywalker em “Star Wars” ilustra, exemplarmente, essa convergência: como Abraão, Luke enfrenta o absurdo moral do seu destino e regressa transformado, trazendo de volta uma sabedoria que não se limita a si próprio, mas que beneficia toda a comunidade. Assim, podemos dizer que Luke encarna uma síntese entre os dois modelos: o da individuação autêntica e o do ciclo mitológico que conduz o herói à renovação do Mundo.

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15/12/2025

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Carlos Alexandre Monteiro

Carlos Alexandre Vieira Monteiro nasceu e reside em Coimbra. É investigador no Instituto de Estudos Filosóficos (IEF) da Universidade de Coimbra. Licenciado, mestre e doutorando em Filosofia pela mesma instituição, desenvolve investigação em áreas como Retórica, Teoria da Argumentação, Lógica, Epistemologia, Filosofia da Ciência, Estética, Ética e Filosofia Política. Com artigos académicos publicados e intervenções como palestrante em conferências internacionais, os seus interesses concentram-se na aplicação de conceitos filosóficos a questões que moldam o mundo contemporâneo, incluindo Comunicação em Saúde, Política, Inteligência Artificial, Multiculturalidade, entre outras. Para além da Filosofia, o Cinema constitui a sua maior paixão.

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