Mais do que um crime de despejo: é uma crise na habitação
Maricarmen Abascal num protesto do Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, em 2026. (© Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid)

inquilinas e inquilinos de Madrid, CC BY 4.0 , via Wikimedia
Commons)
Em pouco mais de dois anos, a Europa, em países como Espanha, Portugal, França e Itália, entrou numa sucessão descontrolável de manifestações devido ao preço “exorbitante” das casas. O caso, que teve lugar em Espanha, de Maricarmen Abascal, de 87 anos, ter sido despejada de sua casa, onde morava desde 1956, tornou-se um ponto de viragem para “abrir portas” à grande e atual discussão pública e ao que seria a confusão das manifestações pelo melhoramento de condições nos países da Europa.
Desde aí, os cidadãos espanhóis têm manifestado o seu descontentamento com o preço das casas, acessos e condições. Primeiro em Espanha e, mais recentemente, em Portugal, com manifestações em Lisboa, no Porto e até em Coimbra. Maricarmen acabou por falecer a 7 de outubro de 2026, poucos dias depois de ser despejada de casa.
Lutar por causas, como o direito à habitação, não devia existir só porque um caso que aconteceu acabou por receber um grande destaque da comunicação social. Devemos lutar pelos nossos direitos todos os dias, de forma pacífica e sem “atravessar linhas” desnecessárias. As manifestações, por exemplo, que estão a acontecer em Portugal, devem ser mais calmas, pois não é com a destruição de património que se é ouvido.

Há uns dias, li um artigo de opinião no Expresso sobre este assunto e, sendo jovem, que adora o seu país e que quer ficar, concordo com o que foi escrito. Nunca percebi o abandono de habitações mais degradadas, pelos próprios habitantes e, por consequência, pelo Estado. Levando, muitas vezes, a serem habitadas por imigrantes. Que, nos dias de hoje, existem a “abarrotar”.
Nunca percebi a bipolarização do país. Havendo todo um território bonito e que não é aproveitado. Nunca percebi, desde que a inflação começou a subir, a subida dos preços das habitações que, para mim, não tem “cabeça” para se verificarem. Por casas que não justificam o preço. Ainda não percebi porque os Portugueses têm de ir para as ruas para “reclamar” por algo a que têm direito.
Como qualquer jovem, quero ser independente. E que não tenha de ter mais de dois empregos, com as minhas horas de sono ajustadas ao nível saudável e estabilidade financeira. Ou seja, que tenha recursos financeiros que me proporcionem uma habitação. Julgo serem estes os principais critérios para ser uma jovem independente nos dias de hoje… ou seria – se os preços das casas não fossem tão altos, os salários baixos e as vagas para o trabalho menos do que a procura.


A dificuldade de arrendar ou comprar uma casa é muita. Uma casa mediana que antes rondava os 30 mil euros, em Lisboa, atualmente ronda mais de cinco mil euros o metro quadrado. Em Coimbra e no Porto, o metro quadrado é de três mil euros. Hoje, é normal. Muitos dos jovens trabalhadores, mesmo com emprego e com formação superior, não conseguem comprar uma casa para serem independentes. Aqui, é visível que nem sempre o esforço individual é suficiente. Por outro lado, os senhorios exageram com os preços e isso não ajuda o desenvolvimento da sociedade. Em vez de seguir para a frente, só se retrocede. A falta de acesso à habitação, vai afetar a natalidade e a saúde mental. Muitos dos jovens adiam planos pessoais, como o de ter filhos, porque não conseguem arranjar casa.
Enquanto jovem, acredito que, com as mudanças certas, como não aumentar o preço das casas sempre que se pode ou até regular o mercado imobiliário ou, ainda, com as várias habitações abandonadas, colocá-las a preços acessíveis e reconstruí-las.
O caso Maricarmen tornou-se um símbolo de uma crise que tem vindo a agravar-se e a afetar milhares de pessoas. Ter um teto ou uma casa não devia ser um privilégio, mas um direito, uma condição essencial para o desenvolvimento de uma sociedade – um país que mais parece estar na Idade Média. Ter direito a um teto e a um futuro estável deve ser para todos: “A paz, o pão, habitação, saúde, educação.”
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Nota do Director:
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05/11/2026