Marcelo Rebelo de Sousa e a desconstrução da figuração

 Marcelo Rebelo de Sousa e a desconstrução da figuração

Cerimónia de condecoração do Presidente da República cessante, Marcelo Rebelo de Sousa, com o Grande-Colar da Ordem da Liberdade, no dia 9 de Março de 2026. (Créditos fotográficos: Ana Rocha Nené – Presidência da República)

Marcelo Rebelo de Sousa decidiu – e bem – recorrer a um artista fora do “mainstream” para fazer o seu para o habitual retrato para a galeria em que se exibem em Belém os sucessivos presidentes da República que tivemos.

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E fez bem por vários motivos. Mas o que me apraz salientar, numa entrevista de Vhils (Alexandre Farto), é a afirmação em que diz: “[…] as paredes em que tudo se decide devem reflectir o tempo em que vivemos, e os artistas reflectem esse tempo, muitas vezes antes de todos. Daqui a décadas, quem olhar para este retrato vai ver um rosto. Mas quem o desconstruir, vai encontrar que país foi aquele.”

É esse o grande desígnio da Arte, seja em que expressão for. A desconstrução da figuração é o que mostra todos “os países” de e em cada eu, seja social, seja existencial, seja afectivo. Dificilmente alguém diria melhor. A Arte é a linguagem implícita mais sublime e mais capaz para ver além do rosto. Que pena “as paredes onde tudo se decide”, as do poder político, apenas esbarrarem nelas como uma fronteira da sua incompreensão disto mesmo.

Para mim, o gesto de Marcelo Rebelo de Sousa na escolha do artista que assim o sabe e diz deve ter sido o mais importante, o mais inteligente e o mais afectivo acto dos seus mandatos. O mais Belo. E perene.

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12/03/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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