Memórias: Júlio César (4) – Comendas
“A Ginjinha”, no Largo de São Domingos, em Lisboa. (lojascomhistoria.pt)

Militar de Cristo (ordens.presidencia.pt)
Um dia, com o meu amigo Júlio César, em vésperas de Natal – vivia eu no Porto e ele em Lisboa –, encontrámo-nos para assinalar a quadra. Como troca de presentes, decidimos condecorarmo-nos um ao outro em plena Ginjinha do Rossio. Se já havia tanta gente “comendada”, por que não nós? Impus-lhe a Ordem de Avis e ele, a mim, a Ordem de Cristo e passeámos pelo Rossio com medalhas, colar e fitas de comenda, a cantar o Hino Nacional.

Deu-nos a fome e acabámos no Restaurante 1.º de Maio, com as comendas guardadas. No fim do jantar, o empregado, que o conhecia como habitual cliente, perguntou-lhe: “Divido a meio, Sr. César?”. O Júlio teve uma explosão, indignado: “A meio? A meio? Divido a meio? Os amigos não se dividem! Multiplique por dois.” E por mais que o empregado e, depois, o próprio dono do restaurante insistissem, o Júlio recusou firmemente qualquer outra forma e pagou a conta a dobrar. Foi assim tal e qual. De comendas no bolso. Não consigo lembrar-me é o que comemos. Mas comemos bem, tenho a certeza. Como tenho a certeza de uma sólida amizade a dobrar.
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19/01/2026