Mosteiro de São Bento da Vitória

 Mosteiro de São Bento da Vitória

Leituras no Mosteiro. (tnsj.pt)

O Mosteiro de São Bento da Vitória (MSBV) reabriu ao público, no dia 1 de Outubro de 2026, após obras de requalificação, com um investimento de 4,85 milhões de euros. O evento foi celebrado com um programa cultural que incluiu concertos e leituras, destacando a nova fase do Mosteiro na programação do Teatro Nacional São João (TNSJ), conforme noticiava o Jornal de Notícias (na edição de 30 de Setembro).

(instagram.com/ensaio.pt)

Uma boa notícia para o teatro e para as companhias de teatro do Porto: uma nova pequena sala/auditório, naquela que foi conhecida como Sala do Tribunal, com uma capacidade para 60 espectadores, além do átrio central, que tem servido como cenário para espectáculos teatrais, concertos e bailados. Também a sala de leitura do Centro de Documentação Teatral, que serve para as leituras das peças sob a direcção de Paula Braga.

Neste espaço magnífico e cheio de história e tradição, encenei com os alunos finalistas de Teatro, da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), um texto original do dramaturgo Jorge Palinhos1, actualmente director do Curso Superior de Teatro da ESAP.

Jorge Palinhos é escritor e dramaturgo. (estc.ipl.pt/jorge_palinhos)

A peça, especialmente escrita para a turma, esteve em cena no ciclo das Escolas de Teatro do Porto no TNSJ. Para o efeito, o dramaturgo recriou a história do edifício para um público/espectador/visitante, sob o título “Portugal Tourism”:   “Se o teatro foi, desde os primórdios, ambulante, e o mundo desde Petrónio que é um palco, só recentemente a humanidade descobriu novas formas de subverter estas verdades canónicas, fazendo-se deslocar a si própria para lugares que transformou em palcos, para observar pessoas que transformou em atores, sob a forma de turismo, e que é hoje das maiores e mais lucrativas atividades económicas do Ocidente.”

O autor escreve ainda na nota de sala: “Esta atividade que move milhões – em unidades humanas e monetárias – é concentrada num único lugar – por sinal, um teatro. Todo o MSBV se torna o palco em que os espectadores se tornam meros turistas viajando pelo espaço e pelo tempo de um espaço singular da cidade do Porto, buscando nele as marcas que representam a cidade e o país em que este monumento se inscreve, e também as pessoas que nele habitaram, trabalharam, ou que hoje o circundam ou visitam como turistas ou profissionais do turismo. [sic]”

Edificado nos séculos XVII e XVIII, o Mosteiro de São Bento da Vitória é uma das peças mais importantes do património arquitetónico-religioso do Norte da Península Ibérica. Parte expressiva deste Monumento Nacional – nomeadamente o magnífico Claustro Nobre – encontra-se atribuída ao TNSJ, que aí abriu ao público o seu Centro de Documentação e instalou uma exposição permanente de cenografias e figurinos. (tnsj.pt)

O público  (supostamente, um grupo de turistas) visita o monumento durante aproximadamente uma hora; a visita confunde-se como um “tour” à cidade e às suas principais atracções turísticas. A mistura de História, realidade e fantasia é um ponto de partida e, ao mesmo tempo, uma espécie de desafio aos turistas, a quem se pede em todos os momentos ordem, disciplina e silêncio.

A nossa proposta para a encenação/mise en scène enquadrava-se no conceito de “encenação vinculada a um determinado lugar” (P. Pavis,1996) e recorreu a implantação (mise en place) de elementos cénicos, no sentido de instalações que ajudariam a criar zonas de passagem identificadas com os momentos do texto. Retomámos a ideia da posição de um “espectador-transeunte” que, durante a representação, é convidado a seguir o espectáculo nos diferentes estrados-cenários, tal como é reproduzido na “Miniatura”, de Hubert Cailleau e Jacques Moeller, a propósito da representação de “O Mistério da Paixão”, de Valenciennes, em 1547 (pode rever o artigo “Cidades de Bronze”, na edição de 15/06/2023).

Montagem cénica de “O Mistério da Paixão” (1547, Jardins do Castelo do Duque de Aarschot, Valenciennes, em França).

As relações do texto com o espaço de representação confundem-se argumentavelmente, fazendo do espectáculo uma visita guiada (pretensa e historicamente correcta) ao espaço da mise en scène. A possibilidade era comparar a nossa viagem com as bizarras visitas guiadas que se realizam hoje nas diferentes cidades europeias.

As representações aconteceram no MSBV/TNSJ, de 23 a 26 Julho de 2015. (Fotografias de ensaio, gentileza de Susana Neves, TNSJ  – Direitos reservados)
Mais tarde as guias “vestiam” a pele dos antigos monges do Mosteiro…  (Fotografias de ensaio, gentileza de Susana Neves, TNSJ  – Direitos reservados)
E entre as muitas personagens, uma referência às invasões: o soldado
espanhol. (Fotografias de ensaio, gentileza de Susana Neves, TNSJ –
Direitos reservados)

A cidade (macrocosmo) – vista como um parque temático –, a encenação próxima do romanesco, assemelhava-se a uma experiência de viagem ao “além”, a um Outro Mundo, como é proposto nas feiras populares, na representação das grutas, das rodas, das ilusões, dos labirintos, cujo objectivo consiste na ruptura da temporalidade quotidiana. O edifício como um microcosmo; para o efeito, foram criadas zonas, que eram percorridas durante a representação, e um grupo de guias turísticas orientavam o público/turístico.

Uma comunicação sobre este espectáculo foi incluída num Ciclo de Conferências Teatro e Arquitectura na Universidade de Valladolid, organizado pela docente María Josefa (Josefina) González Cubero (San Adrián del Valle, León, 1961)2, arquitecta (Prémio extraordinário de Fim de Curso, 1986) e doutora em Arquitectura (1996) pela Universidade de Valladolid (UVA), com a tese de doutoramento “Le Corbusier. O projecto da cidade moderna” (1996), que estudou os seus projectos urbanos desenhados nas escalas intermédias entre a edificação e o urbanismo.

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Notas:

1 – Jorge Palinhos (1977) é autor, entre outras, da peça “Auto da Razão” ,  Prémio Miguel Rovisco 2003 entregue pelo INATEL, e encenada pelas companhias ArteCanes, O Nariz, WEL, FJA e CENA; da peça “Antes da Meia-Noite”, galardoada com o Prémio Manuel-Deniz Jacinto 2007, encenada pela companhia Esbofeteatro.

2 – Josefina González Cubero – Instituto Universitario de Urbanística

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08/10/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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