Mundial XXL, o mundial das barreiras!
(escportugal.pt)
A maioria dos leitores recorda-se de um recente episódio que aconteceu nos Estados Unidos da América (EUA), um os países em que se está a realizar o Mundial de Futebol 2026. Relembro o dia 19 de Fevereiro de 2026, quando Gianni Infantino, actual presidente da FIFA (Fédération Internationale de Football Association), participou no lançamento do chamado Conselho da Paz de Donald Trump. Gianni apareceu de boné vermelho, comportou-se como um fã de Trump e entregou-lhe o Prémio da Paz da FIFA. Este gesto foi visto por muitos como uma espécie de compensação pelo facto de Trump não ter sido premiado com o Nobel da Paz, para o qual esse ser egótico se julgava o candidato mais adequado. “Presunção e água benta, cada qual toma a que quer”, como diz o provérbio popular.

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Os estatutos da FIFA são, isto é, deveriam ser politicamente neutros. Não foi o caso e Infantino vem demonstrando, também noutras circunstâncias, que interpreta o seu papel cada vez de forma mais política, procurando que os seus interesses estejam sempre bem alinhados com os interesses dos EUA. Alguns poderão, talvez, dizer que isso é normal, porque este país organiza o presente Mundial de Futebol conjuntamente com o Canadá e com o México, e que essa aproximação virá ao encontro dos interesses da FIFA.
Nunca tivemos, até hoje, um país que estivesse em conflito com o país organizador, sede do Mundial de Futebol. Recordemos, contudo, que a tensão entre os EUA e o Irão é grande. Daí que a pressão dos EUA sobre o Irão tenha acontecido. Em Março, Trump tentou desencorajar os Iranianos a participarem no Mundial, pois, segundo, ele não era adequada por questões de segurança.
O Irão só podia reagir como reagiu alegando que ninguém o poderia excluir da competição, porque se tinha classificado em primeiro lugar no seu grupo nas eliminatórias asiáticas. Donald Trump chegou a pedir à FIFA que no lugar do Irão colocasse a Itália, selecção habitual nos mundiais, mas que não participa há três vezes consecutivas.

A Federação de Futebol da República Islâmica do Irão insistiu que toda a sua comitiva devia ter vistos de entrada nos EUA. Mas, ao que julgamos saber, não conseguiu. Consta que 15 membros da comitiva iraniana tiveram os vistos negados. Embora este país jogue toda a fase de grupos nos EUA, vai realizar o estágio no México, não podendo pernoitar no território norte-americano. Assim, os jogadores iranianos têm de entrar e sair no mesmo dia do país. No meio disto tudo, não deixa de ser curioso que estes dois países até se possam defrontar, se ambas as equipas terminarem em segundo lugar nos seus grupos.

Há, todavia, outras histórias que queremos contar e que demonstram – como escreveu, no jornal A Bola, Nuno Raposo – que “a política migratória de Trump e sua quadrilha põe em causa aquilo que a FIFA tanto gosta de apregoar, a universalidade e união entre os povos”. Tais histórias provam que há muita podridão neste evento desportivo e que a própria FIFA se rende ao servilismo dos milhões. Nem vale a pena evocar aqui os preços milionários dos bilhetes! Mas nem só os Iranianos têm problemas com os EUA. Consideremos outros casos.
EMBOLO. Breel Embolo é um dos melhores jogadores da Suíça, uma referência no ataque, com 24 golos marcados em jogos internacionais, não conseguiu embarcar com os seus colegas e só depois se juntou à comitiva. Segundo escreveu a imprensa do Reino Unido, o problema deste jogador estava relacionado com uma condenação decorrente de uma confusão ocorrida em Basileia, em 2018.

Março de 1996) é um futebolista profissional iraquiano
que joga como avançado. (pt.wikipedia.org)
O jogador foi condenado por ameaças em 2023 e optou por não recorrer da decisão, o que levou o caso a ser analisado pelas autoridades norte-americanas. Só depois de uma reunião realizada na embaixada dos Estados Unidos em Berna, o problema ficou resolvido.
Outro caso é o do atacante AYMEN HUSSEIN, um dos principais jogadores do Iraque. Este foi interrogado, durante sete horas, na sua chegada aos EUA, como informa a agência de notícias Shafaq News. O jogador foi vítima de terrorismo durante a sua vida. O seu pai, militar, foi morto em 2008 pela Al Qaeda e, seis anos depois, o seu irmão foi sequestrado pelo Estado Islâmico e nunca mais foi encontrado.
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Merece ainda registo o caso de OMAR ARTAN, que estava prestes a tornar-se o primeiro árbitro da Somália num Mundial de Futebol. Porém, acontece que foi cortado da lista da FIFA para o torneio, após ter a sua entrada nos Estados Unidos negada.
Omar tinha sido eleito o árbitro do ano 2025 pela Confederação Africana de Futebol. Não deixa de ser curioso que este árbitro, de 34 anos, vá arbitrar a Final da Super Taça Europeia (UEFA Super Cup 2026), nomeado pela UEFA (Union of European Football Associations). O jogo será a 12 de Agosto em Salzburgo, opondo o Paris Saint-Germain (PSG) ao Aston Villa. Como refere a UEFA, esta decisão pretende reconhecer o valor do árbitro. Aleksander Čeferin, um advogado que é o actual presidente da UEFA, destacou a experiência e a qualidade de Omar Artan, sublinhando que o futebol deve servir para unir pessoas. Um gesto digno que, de alguma forma, faz justiça.

Outra equipa que enfrentou problemas foi a selecção da ÁFRICA DO SUL, ao ter um atraso de 24 horas no seu embarque para os EUA, devido a uma falha administrativa na emissão de vistos norte-americanos para jogadores e equipa técnica. Obviamente, este imbróglio causou grande indignação política e afectou directamente o início da preparação para o torneio. Os “Bafana Bafana” tinham uma viagem agendada num voo chárter, a partir de Joanesburgo, mas este voo foi cancelado, porque a embaixada dos EUA ainda não tinha processado a documentação de cerca de 20 membros da comitiva.
Seguiu-se a respectiva intervenção diplomática do Ministério das Relações Internacionais da África do Sul emdiálogo com o consulado dos EUA em Joanesburgo. A situação foi parcialmente resolvida, mas o adjunto Helman Mkhalel e o médico da equipa, o chefe de segurança e um analista de desempenho não receberam os vistos a tempo e tiveram de ficar em terra, aguardando a resolução do processo.
Este atraso reduziu o tempo de aclimatação delineado pelo seleccionador Hugo Broos para o jogo de abertura contra o México. O ministro do Desporto da África do Sul classificou, com razão, este lamentável episódio como um embaraçoso fiasco.

Outro episódio que deve ser denunciado aconteceu com a SELECÇÃO DE FUTEBOL DO UZBEQUISTÃO, que foi obrigada a passar por vistoria rigorosa, incluindo cães farejadores e detectores de metais. Isso verificou-se em Nova Iorque, antes de um jogo amigável de preparação contra a selecção dos Países Baixos (Holanda). Considerando relatos da imprensa, polícias e agentes de segurança abordaram os jogadores obrigando-os a esvaziar os bolsos e a passarem por detectores de metais portáteis, tendo as suas malas e mochilas também sido inspeccionadas por cães pisteiros de segurança. É certo que as autoridades dos EUA reforçaram a segurança em torno de todas as comunidades internacionais. Todavia, nem todas foram tratadas da mesma forma.

Finalmente, queremos referir que muitos ADEPTOS DE FUTEBOL ESCOCESES (conhecidos como “Tartan Army”), os quais tinham planeado viajar para os EUA para assistir ao Mundial de Futebol, viram as suas autorizações electrónicas de viagem (ESTA) serem subitamente revogadas pelas autoridades dos EUA, apenas horas antes do embarque. Daqui resultaram avultados prejuízos financeiros, porque já tinham comprado os seus bilhetes para os jogos, para os voos transatlânticos e para as estadias em hotéis. Estas perdas individuais estão a ser avaliadas em milhares de libras por família. A inusitada situação levou já o primeiro-ministro escocês a pressionar directamente a embaixada e o consulado dos EUA. Contudo, o Departamento de Segurança Interna dos EUA não apresentou razões aos cidadãos afectados. Em lugar disso, sugeriram que podiam solicitar um visto de turismo de emergência nas embaixadas de Londres ou de Belfast. Contudo, exigiram certidões de registo criminal detalhadas, sabendo-se que demoram semanas a serem emitidas. E tal torna a viagem inviável a tempo para os jogos.

Os EUA, outrora considerados a “Terra da Liberdade”, são hoje um país condicionado por um megalómano presidente, sem sensibilidade, que está a transformar aquele país, que tinha uma democracia sólida, num país autocrático. No presente, os EUA não encaram este Mundial de Futebol – o maior de todos, com 48 selecções – como um evento de livre circulação global, ignorando os apelos da Organização das Nações Unidas e as pressões da própria FIFA, se é que podemos falar de pressões por parte deste organismo! A Amnistia Internacional tem defendido que “as actuais políticas migratórias podem entrar em conflito com os princípios de inclusão e integração internacional associados ao torneio”. Por isso, pediu que o governo dos Estados Unidos garanta condições para que os adeptos, jornalistas, atletas e demais visitantes possam viajar e acompanhar a competição sem discriminação.
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15/06/202